
O chamado “jeitinho brasileiro” para resolver as coisas – ou deixá-las sem solução ad eternum – inclui, muitas vezes, ignorar os problemas ou “fazer vista grossa” a pequenas ilegalidades, pois muitos se acham no direito de se colocar como julgadores, elegendo crimes que podem ou não ser admitidos.
É pensamento muito comum entre nós que, se o delito é leve e o infrator é pobre, ou desperta a compaixão por qualquer outro motivo, isso passa a ser aceitável. Mas, nem por isso, busca-se a solução para a raiz do problema. Apesar de a intenção inicial ser boa, esse tipo de comportamento acaba por criar ambiente social pernicioso.
Seguindo essa filosofia, fechou-se os olhos aos menores que se amontoavam nas ruas, cheirando cola, passando fome, agredindo e sendo agredidos; ignorou-se a multidão de vendedores ambulantes, os feirões de produtos sabidamente roubados, enquanto esses males cresciam e se disseminavam.
Essa conivência gera uma perigosa cultura que vai tornando cada vez mais tênues os limites entre o certo e o errado, o legal e o ilegal, e tira das novas gerações o senso crítico quanto, por exemplo, aos horrores da violência urbana – parte de sua rotina desde os games com que se divertem até os noticiários diários da TV.
Assim, da mesma forma que os menores que cheiravam cola ontem hoje tiram vidas, facilmente, ou a perdem de forma precoce, os preços baixos encontrados nos camelôs, têm, por trás deles, muitas vezes, a carga roubada e a morte de caminhoneiros, o transporte ilegal tem por trás de si o tráfico, a cobrança de pedágios aos condutores e a ameaça de morte a autoridades.
O transporte alternativo pode existir, atuar de forma complementar e dentro da legalidade. Isso deve ser discutido e analisado através de fóruns envolvendo autoridades de transporte, trânsito e urbanismo, operadores dos diversos modais, técnicos e prefeituras. Reprimir atividade exercida à margem da lei, coibir desordem, caçar bandidos que ameaçam pessoas e travam guerras de poder onde assassinatos são comuns, isso é caso de polícia.
São dois universos diferentes, duas lentes diversas pelas quais se pode observar o transporte ilegal. Mas, seja qual for o universo da discussão, a lente que se use e o ângulo pelo qual se olhe, o que deve prevalecer é o direito do cidadão honesto se deslocar, da forma que preferir, mas em segurança.


