Não parou no ponto. Nasceu um conto
Crônica

Verão de 1954. Mais uma jornada de trabalho havia terminado. O dia estava quente, mas bonito. Não havia prenúncio de chuva. A moça, que trabalhava na Cia. Singer de Belém, buscava sair apressada, em direção a sua casa, após mais aquele dia de trabalho. Dirigia-se rapidamente ao seu ponto de ônibus. Pensativa, feliz, quando de repente, ao se aproximar do ponto, percebeu um rapaz que caminhava a seu lado. Ele, ar brejeiro e simpático, lhe dirigiu uma palavra. Ela não entendeu bem, mas recatada e séria que era, não respondeu. O moço insistiu e disse mais alguma coisa. Parecia ser um elogio ou uma brincadeira. Ele parecia ser um rapaz divertido, mas ela, ainda assim, fingiu não ter ouvido. Apressou o passo e para seu alívio, percebeu que seu ônibus se aproximava. Levantou o braço, fez o sinal, quase aflita. Para seu desapontamento, o ônibus que se aproximava veloz, não parou. Passou direto pelo ponto. Deu para perceber que o veículo estava cheio e por isso provavelmente não havia parado.

Não importava. Ela resolveu esperar o próximo, sem dar muita atenção ao rapaz que continuava a seu lado. Logo depois, outro ônibus se aproximou. Ela fez o sinal e ele parou. Ela entrou e para sua surpresa, percebeu que o jovem também entrara. Até a ajudou a subir os degraus. Sentou e ele se colocou a seu lado. Iniciou uma prosa, uma prosa agradável. Ela, por educação, respondia monossilábicamente. Ele foi brincando e a conversa foi ficando tão interessante, que ela quase perdeu seu ponto de descida. Rápida, tocou a campainha, se despediu e desceu do ônibus. Mais uma vez surpresa, percebeu que o rapaz também havia descido e que caminhava a seu lado, continuando a conversa, acompanhando-a quase até a sua casa. Despediu-se educadamente, com a promessa de voltar a vê-la. A moça, ainda assustada, entrou em casa com uma sensação agradável de ter conhecido alguém que, com certeza, seria muito importante em sua vida.

Quinze dias se passaram e após alguns passeios à praça que ficava perto da casa da moça, Luiz, esse era o nome do rapaz, pediu a moça em casamento. Surpresa, preocupada, afinal de contas, foram apenas alguns dias de conversa, de um namoro muito recente, Maria achou melhor esperar um pouco. Luiz, determinado, insistia que queria se casar, pois tinha a certeza de ter encontrado a mulher de sua vida. Maria ainda lembra de sua primeira resposta, quando disse "Você ainda está na faculdade. Precisa terminar seu curso de Direito. Depois pensamos nisso." Mas ela ainda não conhecia a determinação do rapaz, pois em apenas seis meses, em agosto de 1954, eles ficaram noivos. Em dezembro do mesmo ano, após onze meses do primeiro encontro, Luiz e Maria se casaram. Hoje, passados quase 50 anos daquele verão em Belém, Maria se recorda daquele jovem rapaz, que num impulso, insistiu em conversar com ela. Tão simpático, alegre e determinado, assim como é até hoje. Maria descobriu em Luiz, um homem responsável, cioso de seus deveres, excelente pai e um grande amigo. Luiz encontrou em Maria a companheira de sua vida, sempre presente em todos os momentos, nas dificuldades e nas alegrias. Hoje, quando se aproximam de completar 48 anos de casamento, ainda se recordam daquele motorista, que ao não cumprir com a sua obrigação, e passar direto pelo ponto, mudou para sempre as suas vidas.

Bem, como vocês já devem ter percebido, esse conto não é uma ficção, retrata sim a história do nosso amigo, Dr. Urquiza e de sua querida esposa, D.Maria Antonia.


Luiz Carlos Jardim
   
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