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"O Rio é
uma cidade sem memória"
O desembargador
Ney Moreira da Fonseca é um profundo conhecedor do serviço
público em nosso estado, ao qual dedicou mais de 35 anos
de sua vida. Na área de transportes, começou a atuar
em 1958, quando foi advogado e depois chefe da Assessoria Jurídica
da Secretaria de Transportes do antigo estado do Rio de Janeiro.
Passou pela Secretaria de Serviços Públicos no governo
Carlos Lacerda, foi diretor-geral do DTC - Departamento de Transportes
Concedidos, que mais tarde se tornaria o Detro - Departamento de
Transporte Rodoviário, e chegou a presidente do Conselho
Estadual de Trânsito e da Comissão de Integração
de Transporte. Nessa entrevista, ele nos fala das experiências
que viveu ao longo de sua carreira e de seu desapontamento com os
rumos do transporte público.

O senhor esteve à frente da maior
reestruturação em transporte público que o
Rio de Janeiro conheceu. Qual era o quadro nesta época?
Isso foi basicamente durante o Governo Lacerda.
Na época não existia o metrô. Havia um grande
tumulto nos transportes, especialmente no que se referia a ônibus
e lotações, e nós começamos a estudar
as modalidades de transporte disponíveis.
O Rio de Janeiro tem uma singularidade que não pode ser modificada:
a cidade possui uma geografia própria, espremida entre o
mar e a montanha. Aqui era a capital da República e havia
uma densidade populacional muito grande. A região metropolitana
concentrava na época 93,7% da população do
estado, um índice de conurbação absolutamente
excepcional, que inviabilizava qualquer sistema de transporte, qualquer
infra-estrutura: gás, luz, telefone.
Todo o sistema precisou ser analisado com base em conceitos técnicos
de eficiência que estavam sendo formulados. Estabelecemos
parâmetros de aferição e fizemos uma verdadeira
pesquisa de campo que durou uns cinco ou seis meses. Comparamos
levantamentos estatísticos dos lotações e dos
ônibus em linhas diametrais e radiais: tempo médio
de viagem, percurso médio, número de passageiros transportados.
E chegamos à conclusão da absoluta inviabilidade do
transporte por lotação. Nas horas de pico, os ônibus
demoravam mais, por causa do trânsito, mas eles paravam só
nos pontos, enquanto os lotações, fora do horário
do pico, paravam em frente aos cinemas esperando passageiro, subiam
nas calçadas, não tinham horários.
O tempo e o percurso médio do lotação era maior
e o número de passageiros transportados, infinitamente menor.
Além disso, o espaço que ele ocupava nas vias era
praticamente igual, sendo muito mais inseguro. Os números
revelaram que era preciso retirar os lotações do sistema.
Então, no Governo Lacerda, as empresas de ônibus foram
obrigadas a ter frota mínima, depois, a se fundirem e chegou-se
a um sistema racional de transporte coletivo.
É claro que, em uma cidade com as características
do Rio de Janeiro, o metrô já se fazia necessário
naquela época, pois uma metrópole com a geografia
física e humana do Rio precisa de transporte de massa: trens,
metrô e barcas. Quando eu estive na Secretaria de Transportes
do segundo Governo Chagas Freitas, deixamos o metrô, no trecho
prioritário da Linha 1, transportando 550 mil passageiros
por dia. Hoje transporta 400 mil, quer dizer, andou para trás.
O trem chegou a transportar 1,2 milhão de passageiros por
dia, hoje não transporta um terço. Todo este contingente
veio para o transporte de superfície, mas, ao invés
de se investir no transporte de massa, permitiu-se a volta dos lotações
como forma de suprir a demanda. Pior, com veículos como kombis
e vans, que não dispõem de massa e não foram
projetados para o transporte de passageiros. O Rio é uma
cidade sem memória: acabou com o lotação e
vive agora uma situação muito pior.
Durante o seminário sobre transportes
promovido pela Assembléia Legislativa, do qual o senhor participou,
o ex-secretário de Santos, Laurindo Junqueira, afirmou que
a Associação Nacional de Transportes Públicos
(ANTP) listou mais de 20 normas, resoluções e leis
ambientais e de segurança que não são cumpridas
pelas kombis e vans. Qual a sua opinião em relação
aos decretos municipal e estadual que regulamentam o transporte
alternativo?
O transporte no Brasil vinha em um processo
de evolução, na época do Governo Lacerda. Hoje
estamos regredindo, voltando à época da informalidade.
Decisões são tomadas independente do interesse público.
O que é marginal começa a se oficializar, como se
fez com os camelôs.
Você pode perguntar a qualquer engenheiro da Volkswagen e
ele vai dizer que a Kombi não foi feita para transportar
passageiros. Esses veículos contrariam a lei que está
em vigor no próprio estado, de acordo com a qual os veículos
têm de ser vistoriados e o motorista tem de passar por exames
psico-fisiológicos e cursos preparatórios. Os motoristas
de kombis e vans que estão aí não têm
nada disso. E a responsabilidade civil? Quando houver um acidente,
a quem se deve cobrar quando não se sabe quem está
dirigindo?
Quando uma pessoa está prestando um serviço público,
ainda que ela seja um particular, está prestando esse serviço
em nome do Estado, que não se desonera da responsabilidade
pela segurança e eficiência do serviço. Só
que, quando o Estado permite que kombis façam o transporte
coletivo de passageiros, o Estado está se sujeitando aos
acidentes que estas possam causar. Trata-se realmente de um transporte
ilegal, não há nenhuma dúvida.
Durante o seminário também
se afirmou que está faltando vontade política para
combater o transporte ilegal. O senhor acha que foi vontade política
que fez a diferença no Governo Lacerda?
É claro. Não só o Governo
Lacerda, mas os governos que lhe sucederam até a administração
Chagas Freitas. Havia uma presença do poder público,
uma preocupação em não deixar o meio ambiente
urbano se deteriorar. Quando uma pessoa ia fazer uma obra vinha
o fiscal de posturas cobrando a licença. A ausência
da autoridade é muito séria. Não se justifica
o descumprimento da lei e do interesse público. Já
pensou se começarmos a justificar o homicídio? A informalidade
cresce na omissão da autoridade e a certeza da impunidade
é uma coisa muito séria.
Segundo pesquisa feita pelo Instituto Gerp
no ano passado, as gratuidades no Rio de Janeiro contemplam em média
40% dos passageiros transportados. O que o senhor pensa disso?
A tarifa é a expressão do custo
da prestação de um serviço público.
O estado ou presta diretamente este serviço ou o faz mediante
concessão, permissão ou autorização.
Para isso faz-se necessária uma planilha, onde se põem
de um lado todos os custos e, do outro, a remuneração
destes custos, considerando o lucro próprio de qualquer atividade
empresarial. Isso é inexorável: quando alguém
deixa de pagar, outra pessoa estará pagando por ele. Quando
é o Estado quem paga é menos injusto, pois, em última
análise, é toda a sociedade que está pagando.
Mas, quando não é o Estado quem paga, alguém
está pagando, e, no caso dos transportes, são os passageiros!
Quando se diz que "o maior de 65 anos e o estudante uniformizado
têm direito à gratuidade", quem está arcando
com isso é o operário que mora lá em Lote 15
e tem que pagar o ônibus.
As generalizações são sempre muito injustas,
pois existem pessoas com mais de 65 anos, por exemplo, que não
têm necessidade de viajar de graça. Quando se permite,
genericamente, que todo idoso viaje de graça, alguém
está pagando por ele. Ou o estado subsidia, ou pior, é
o restante da população que está pagando por
ele.
Em princípio, a gratuidade no transporte é injusta.
E, em minha concepção, também é ilegal,
pois a constituição manda que, quando se dê
gratuidade, diga-se a origem do recurso, a fonte de custeio. Nunca
se deu gratuidade com a generosidade com que se faz hoje.
O principal problema do transporte público
para a população, segundo pesquisa Ibope/Fetranspor,
é o risco de assaltos. Como o senhor vê decisões
recentes da Justiça, que deu parecer favorável a passageiros
que pediram indenização por assaltos que sofreram.
Nesses casos, a Justiça considerou a "previsibilidade"
do assalto. A responsabilidade pela segurança pública
não é do Estado?
Isso é uma confissão da falência
do Estado. A obrigação, em matéria de segurança,
é do Estado. Achar que esse risco é latente é
uma confissão de que o Estado não está cumprindo
uma das suas atribuições primordiais, que é
a garantia de ir e vir com segurança do cidadão.
O ministro Ovídio
de Angelis lançou em maio a nova Política Nacional
para o Transporte Urbano, que estabelece em suas diretrizes a prioridade
para o transporte coletivo, a redução de seus custos
operacionais e a implantação de um novo marco jurídico-institucional
neste setor. O senhor poderia comentar essa decisão?
Não há nenhuma dúvida
quanto à necessidade de se priorizar o transporte público.
Para isso é preciso oferecer segurança e eficiência,
para que o transporte individual seja desencorajado. O transporte
sobre pneus é responsável por mais de 85% dos deslocamentos
da população. Não há vias de trânsito
suficientes para isso. É preciso que as pessoas sejam estimuladas
a deixar seus carros na garagem e ir para o Centro no transporte
público. No passado procuramos ter uma política que
restringisse o estacionamento no Centro, criando linhas circulares
de ônibus. Os problemas podem ser equacionados, mas falta
solução de continuidade e vontade política.
Outra polêmica recorrente diz respeito
às concessões. Qual o seu ponto de vista a esse respeito?
A Lei 8.987 traz uma contradição:
na delegação da prestação de um serviço
público, os dois fatores a serem considerados são
a eficiência e a segurança. A lei desnaturou a permissão,
que normalmente se expressa através do termo "contrato
de adesão", e estabeleceu o preço como única
forma de adjudicação do serviço, quando o correto
deveria ser quem oferece mais segurança e melhores condições
de operação. Isto é, quem tem frota mais nova,
quem tem melhor garagem e manutenção. Em meu ponto
de vista, esse fato por si só violenta a própria natureza
jurídica da concessão.
A regulamentação
do transporte alternativo não deveria também observar
a necessidade de licitação nas linhas que estão
sendo criadas?
Eu questiono a constitucionalidade dessas
leis. Além de serem uma afronta ao interesse público,
foram feitas de modo ilegal, sem base na lei das licitações.
Elas foram criadas com o intuito único de angariar votos.
Em nome do que está errado praticam-se mais erros, como se
alguém dissesse: "vamos gerar empregos na marginalidade".
Então, por que não oficializar também a atividade
do ladrão?
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