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por Sílvio Rabaça
Segundo pesquisa Gerp, população pensa que benefício
é pago pelo governo
A concessão de gratuidades
no transporte público, sem definição de critérios
lógicos e justos que custeiem o benefício, vem agravando
a crise gerada pela queda de passageiros verificada nos variados
modais. Segundo dados estatísticos da Associação
Nacional das Empresas de Transportes Urbanos - NTU - de 1995 a 2000,
os sistemas municipais de transporte público no país
perderam quase dois bilhões de passageiros (de 7,6 bilhões
para 5,7 bilhões), considerando-se dados anuais.
Segundo o consultor de Transportes Sérgio Balloussier, em
1942, quando a população do Estado do Rio de Janeiro
(então Distrito Federal), era de 1,8 milhão de habitantes,
bondes, ônibus, trens e barcas transportaram cerca de 1,012
bilhão de passageiros. Em 2000, quando a população
já superava a marca de 5 milhões de habitantes, ônibus,
metrô, trens, barcas, kombis e vans, responderam, juntos,
por apenas 1,1 bilhão de passageiros. Balloussier alerta
que a gratuidade no transporte, sem fonte de custeio determinada,
prejudica a sustentação dos sistemas de transporte
coletivo brasileiros, uma vez que as pessoas que gozam desse direito
passam a não mais contar para o cálculo tarifário.
Esse dado é ainda mais preocupante, caso se considere que
a taxa de mobilidade da população -número de
viagens que cada habitante faz durante o ano - é considerada
pelas Nações Unidas como indicador da riqueza de um
país.
Rio é campeão de gratuidades
Entre as capitais brasileiras, o Rio de Janeiro é
a campeã da liberalidade: 40,3% da população
da cidade gozam do benefício da gratuidade em ônibus,
metrô, trens e barcas, segundo pesquisa realizada em dezembro
de 2000 pelo Instituto Gerp, por encomenda da Federação
das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro
(Fetranspor). Em seguida vêm as cidades de Campo Grande (MS),
com 29%, e Porto Velho (RO), com 25%.
A diferença do Rio de Janeiro é decorrente de gratuidade
integral concedida a estudantes das redes de ensino público
de primeiro e segundo graus, o maior grupo da população
a receber o benefício. Enquanto isso, na maior parte das
outras cidades do país são oferecidos descontos para
essa fatia da população. São Paulo, Porto Alegre
e Salvador, por exemplo, cobram aos estudantes 50% dos preços
das passagens e estipulam um limite para o número de viagens
com preços reduzidos. Em compensação, essas
cidades também concedem descontos a estudantes do ensino
superior.
A pesquisa do Instituto Gerp mostra que, no Grande Rio, com seus
19 municípios, o índice de gratuidades é, em
média, um pouco menor que na capital: 39,7%. Em todo estado,
há cerca de 2,44 milhões de estudantes, 1,01 milhão
de pessoas com mais de 65 anos e 97 mil portadores de deficiência.
O público beneficiário de gratuidades, no entanto,
deve crescer por conta das leis estaduais 3.339, de 29 de dezembro
de 1999, e 3.650, de 21 de setembro de 2001, ambas sancionadas pelo
último Governo do Estado. A primeira permitiu a entrada gratuita
de estudantes secundaristas também nos transportes intermunicipais
e a segunda estendeu o direito a pessoas portadoras de doenças
crônicas. Contabilizando apenas hipertensos e diabéticos,
estima-se que cheguem a mais de 2,26 milhão de pessoas, de
acordo com estudos da prevalência dessas doenças na
população.
Segundo o superintendente da Fetranspor, Luiz Carlos de Urquiza
Nóbrega, a gratuidade deve ser rediscutida, de acordo com
princípios de justiça social, pois onera, em primeiro
lugar, o público pagante, obrigado a participar do rateio
dos custos do transporte. "A continuar assim, será que
os mais pobres não acabarão subsidiando a população
de maior renda, em uma completa inversão de valores?"
questiona. As transportadoras também são sacrificadas,
explica Urquiza, pois as planilhas técnicas elaboradas pelo
próprio poder concedente não são inteiramente
respeitadas na hora de definir o preço das passagens. Segundo
ele, "cabe à sociedade, através dos recursos
orçamentários do Estado, assumir estas gratuidades.
Isso implicará redução nas tarifas dos diversos
modais de transporte, beneficiando milhões de usuários".
A pesquisa do Instituto Gerp mostrou também que a população
não sabe quem realmente paga pelas gratuidades: 48% das pessoas
dizem que é o governo. Apenas 13% responderam que são
os outros passageiros e 8%, que são as empresas de ônibus.
Em outra pesquisa, realizada em setembro do ano passado, o Ibope
apurou quem deveria pagar pela passagem dos que viajam de graça:
86% das pessoas indicaram o governo.
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