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"Você
me diz uma palavra, me dá um tema e eu escrevo a poesia".
É dessa forma simples e sincera que o motorista de
ônibus Armando Corrêa Filho, de 40 anos, descreve
um dom que poucas pessoas possuem: o de transformar palavras
e frases em arte. O dom de escrever poemas. Motorista da Evanil,
empresa sediada em Nova Iguaçu, município do
Estado do Rio de Janeiro, Armando trabalha na linha Cabuçu-Central.
Durante suas viagens pela Rodovia Presidente Dutra e Avenida
Brasil, costuma escrever em pensamento. "Mentalmente,
durante o trajeto e entre um sinal e outro, eu escrevo um
trecho de uma poesia e, quando chego ao ponto final, anoto
para não esquecer", conta.
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O talento para as letras
ele herdou do pai, que "sempre gostou de escrever", lembra.
O caçula de uma família de oito irmãos conta
que lia muito quando era criança. Gostava dos livros de Carlos
Drummond de Andrade e de romances. Hoje, pai de quatro filhos, Armando
recorda que foi ainda nos tempos de escola, por volta dos 11 anos
de idade, que seu dom começou a se manifestar. "Eu costumava
fazer minhas redações e, quando terminava, ainda fazia
as dos meus colegas que tinham dificuldade para escrever. E, mesmo
sendo sobre o mesmo assunto, eu fazia redações completamente
diferentes umas das outras". Apesar de perceber que escrevia
bem, Armando nunca pensou em ser escritor. Sempre quis ser motorista
ou professor de Educação Física. E se orgulha
de dizer que desde os 19 anos, é motorista. "Nunca tive
outra profissão", afirma. Escrever para ele é,
na verdade, um grande prazer e uma ótima terapia. "A
poesia para mim é um rascunho da vida", afirma em forma
de verso.
Segundo Armando, seus momentos de inspiração estão
sempre relacionados a dois sentimentos antagônicos: a tristeza
e a alegria. E as poesias são quase todas sobre amor e dor.
Mas, ele também escreve sobre outros assuntos. Na Evanil,
por exemplo, seu talento foi descoberto depois que Armando enviou
uma poesia sobre o Dia das Mães para ser publicada no jornal
mural da empresa. Depois disso, foi até entrevistado para
o jornal institucional da Evanil e sua veia poética ficou
famosa entre os colegas. Outro fator que costuma motivar Armando
a colocar a caneta para funcionar é o desafio. Às
vezes as pessoas não acreditam que eu faço poesia.
Quando mostro alguma, duvidam que seja realmente minha. Falam 'isso
não é seu'. Então, para provar, eu peço
a pessoa para me dar um tema e escrevo na hora", revela. Por
esse motivo, o motorista não tem guardada a maioria de suas
poesias. "Eu escrevia e dava de presente para as pessoas. Além
disso, já joguei muita coisa fora", revela.
Hoje, Armando acredita que tem em casa cerca de 100 poesias, entre
as 500 que já escreveu ao longo de sua vida. Como seu maior
sonho é publicar um livro, o motorista agora está
selecionando e passando a limpo as poesias que arquivou. "Não
penso em ganhar dinheiro, não busco a realização
financeira através da poesia. Meu sonho é apenas ver
meu trabalho publicado. É só uma realização
pessoal. Pura vaidade", diz. Para ele, já é um
tipo de reconhecimento estar sendo entrevistado tanto para o jornal
da empresa em que trabalha quanto para a revista Ônibus. "Já
estou famoso", brinca. Depois que estiver com todo o material
pronto, ele pretende procurar algum patrocínio para publicar
o sonhado livro. "Já até peguei o endereço
de um lugar que patrocina a cultura", afirma.
E para quem pensa que seu talento se resume à arte da poesia,
Armando surpreende mais uma vez quando revela que também
já foi cantor de um grupo de pagode. "Isso foi quando
eu tinha uns 30 anos. Naquela época eu montei um bar com
música ao vivo e passei a ter contato com vários músicos.
Às vezes, me juntava aos grupos que se apresentavam no bar
para cantar com eles e foi assim que me tornei integrante de um
grupo de pagode, que tocava vários outros estilos também
e era formado por seis pessoas", conta. Armando, dono de uma
bela voz, era o vocalista do grupo. "Durante três anos,
nos apresentamos nos bares de Nova Iguaçu. Chegamos a tocar
no Vallencine's, no Tô a Toa. Eu, inclusive, já dei
uma canja num show de um amigo no Top Shopping", lembra o motorista
que destaca as músicas "Canteiros", de Fagner,
e "Codinome Beija-Flor", de Cazuza, além de todas
as do Araketu, como as que mais gostava de interpretar. A mistura
entre poesia e música também deu bons frutos para
Armando. "Escrevi várias músicas e cheguei a
registrar quatro".
Portanto, se você tem alguma dúvida sobre o talento
de Armando, diga uma palavra, um tema e prepare-se para ler uma
bela poesia.
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