|
Parte da humanidade, movida pela fé,
cultiva saudável hábito de peregrinação
a locais santos. Uns vão a Roma, outros a Meca, outros ainda
a Fátima ou Lourdes. No Brasil são as romarias a Aparecida,
Nossa Senhora de Nazaré em Belém do Pará, Juazeiro
do Padre Cícero, dentre tantas outras distribuídas
pelo extenso território pátrio.
Este cronista e família também são peregrinos.
Nossa devoção nos leva duas vezes ao ano a Anchieta,
para visita à Igreja e colégio fundados no século
XVI, pelo Apóstolo José de Anchieta. Comove-nos oração
na humilde cela onde Anchieta pernoitava. Ali passou os últimos
momentos de sua vida.
Numa dessas viagens, pela BR 101, automóvel lotado, atravessando
sinuoso trecho entre Rio Novo do Sul e Iconha, velho caminhão,
com placa de Manhumirim - MG, tendo na tosca e improvisada carroceria
seis belas novilhas, trafegava lentamente, acarretando fila que
se alongava à minha retaguarda.
A cena seria comum às nossas estradas congestionadas, nem
sempre bem conservadas, não fôra a singular mensagem
inserida no desajustado pára-choque: TÁ RUIM, MAS
TÁ BOM.
A aparente contradição da mensagem nascida na sabedoria
popular mineira me levou a refletir sobre o seu real significado.
Logo compreendi a singela lição: as coisas efetivamente
não estão bem. Pobreza, desemprego, buracos nas estradas,
dificuldades de moradia, educação, saúde, segurança
das pessoas, tudo efetivamente constitui cenário que não
nos dá o direito de dizer que o Brasil é um paraíso.
Pelos últimos dados da ONU, ocupa-se a constrangedora 73ª
posição nos índices de desenvolvimento humano.
Contudo, se revirarmos as páginas da história desde
o descobrimento, contato com os nativos, chegada de deportados,
invasão de franceses e holandeses, exploração
do trabalho escravo, ocupação árdua do território
para fixação de longínquas fronteiras, lutas
pela independência, desenvolvimento da agricultura e da indústria,
florescimento de cidades, simbolismo de Brasília, elevação
da estatura do Brasil ante a comunidade internacional e sobretudo
a vontade nacional para crescer com nossa enorme disponibilidade
de recursos, toda essa retrospectiva me convenceu de que a situação
no fundo é boa e há de melhorar, sob a graça
de Deus. A pioria é que não tem lugar em nosso processo
histórico.
Mineiramente, assim, subscrevo os dizeres daquele enferrujado pára-choque.
Em tempo: Esta crônica
já estava pronta, quando, em domingo frio, em meu esconderijo
no Recreio dos Bandeirantes, ouvi esse mesmo tema tratado com beleza
e alegria no último CD do Zeca Pagodinho. Somos todos brasileiros
e nada existe de novo na face da terra.
|