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O secretário
de Transportes do Estado de São Paulo, Jurandir Fernandes,
milita no setor há mais de 20 anos. Defensor do transporte
de massa como solução para o deslocamento da população
nos centros urbanos com mais de 1 milhão de habitantes, é
também um crítico implacável da informalidade
que tomou conta dos sistemas de transporte nas grandes cidades brasileiras.
Nesta entrevista, Fernandes afirma que a informalidade representa
uma quase metástase, mas acredita que ainda há
cura para essa doença.
R.O:
Como o Estado de São Paulo está lidando com o transporte
clandestino? É possível racionalizar o sistema com
a atuação desses clandestinos?
J.F.: O clandestino é ruim em todas as áreas da economia,
e o perueiro clandestino é o camelô, o pirata do transporte
urbano. Ele obviamente provoca concorrência predatória,
porque não cumpre deveres trabalhistas e sociais, não
respeita direitos de idosos, estudantes e deficientes físicos.
Enfim, a situação que vivemos hoje é de uma
quase metástase, que começou em pequenos focos e com
duas origens. Houve a fragilidade de alguns setores do poder público,
como prefeituras, mas houve também uma oportunidade causada
pela falta de agilidade e prosperidade do setor empresarial. Eu
acho que há duas formas de lidar com o problema: a primeira
é com qualidade, investindo no transporte de massa e no transporte
estruturado; a outra é com autoridade. Atrás dos perueiros
há organizações com capital, que lavam dinheiro
e uma série de mazelas. O empresário exige do setor
público mais fiscalização e polícia.
Por outro lado, ele tem de investir em melhoria.
Se pegarmos as grandes capitais do mundo, com um sistema bem estruturado,
não se vê um perueiro. Não há perueiros
em Londres, em Paris ou em Berlim. De uma maneira geral, trata-se
de países que não permitem a informalidade, onde a
tarifa do transporte público cobre apenas 30% dos custos.
O restante é subsidiado pelo governo, com o recolhimento
de impostos. Acho que, se houver uma política bem assentada,
essa situação pode ser bem conduzida. As peruas podem
ocupar outro papel. Algumas são sucata mesmo. São
pessoas que estão até com problemas com a lei. Para
esses, não se pode dar nada. Para aqueles mais sérios,
pode-se dar uma alternativa, como estamos fazendo.
Nós criamos o Orca Operadores Regionais Coletivos
Autônomos. O empresário de ônibus pode contratar
peruas do Orca como se estivesse terceirizando certas linhas. Digamos
que tenha uma linha para a qual há uma baixa demanda
45 passageiros por hora, o que dá um ônibus de hora
em hora. Então, por que não colocar três peruas
com 15 passageiros passando de 20 em 20 minutos? O empresário
pode contratar esse serviço e também pode oferecer
ao município uma perua adaptada para deficientes físicos,
ao invés de colocar elevador em todos os ônibus, o
que seria um absurdo. O mesmo serve para uma região onde
há muitas escolas.
R.O: Seria possível fazer uma análise
da atual situação do transporte na Região Metropolitana
de São Paulo? Quais os projetos da Secretaria Estadual de
Transportes para o setor?
J.F.: Investir no transporte de massa é a solução
para cidades com mais de um milhão de habitantes. Hoje, temos
em São Paulo uma malha metro-ferroviária de cerca
de 325 km: 275 km a cargo da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos
(CPTM), que opera os trens suburbanos, e 50 km a cargo do metrô.
É uma malha respeitável, que vinha sendo abandonada,
principalmente no que diz respeito aos trens suburbanos. Nos últimos
sete anos, a partir do Governo Covas, começou-se a reverter
essa situação. Eu não poderia afirmar que o
problema está resolvido. Essa malha requer investimento contínuo
e estamos melhorando pouco a pouco, dentro da capacidade financeira
que o Estado tem.
Havia uma concepção errada de que o metrô tinha
um custo muito alto. Duas coisas mudaram: primeiro, o custo do metrô
está caindo. Nós estamos entregando, em setembro,
a linha 5, com 10 km de extensão, que ficou em US$ 64 milhões/km.
Os metrôs subterrâneos são os mais caros. Contudo,
a extensão da linha da Avenida Paulista está custando
algo entre US$ 80 e US$ 83 milhões/ km. Outro fator para
o qual dávamos pouco valor é quanto custa, a cada
ano, a falta do metrô em São Paulo. Se hoje não
tivéssemos os 50 km do metrô, teríamos um custo
extra de R$ 3,6 bilhões. Temos de levar isso em conta, quando
discutimos a importância dos recursos para metrô e trens.
Essa concepção está começando a mudar.
O metrô em São Paulo começou com 6% de seus
usuários oriundos das classes A e B. Um levantamento no mês
passado mostrou que hoje 19% são dessas classes e têm
carro particular. Outro dado interessante: 53% dos usuários
de metrô têm automóvel na família. Esses
dados mostram concretamente que, na hora em que se dá um
transporte de qualidade, seguro e a preços módicos,
o carro é deixado em casa. Mas é um sacrifício,
porque o carro é o supra-sumo do conforto. Temos em São
Paulo a perspectiva de triplicar a rede do metrô, chegando
a mais de 140 quilômetros. Só a partir de um sistema
forte, bem estruturado, de transporte de massa se vai conseguir
deter o uso do automóvel ou do transporte individual.
R.O: Como você vê a questão
dos congestionamentos nas grandes cidades e, particularmente, em
São Paulo? Como tem sido a experiência da cidade com
o rodízio?
J.F.: O rodízio é uma medida paliativa,
que alivia a dor, mas não cura, pois não atinge a
raiz do problema. Nós já sabíamos disso e não
fomos contra. Todo o setor acabou apoiando, como uma situação
emergencial, mas, se você tem 100 automóveis, com o
rodízio você consegue reduzir 10%, ficando com 90.
Como essa frota está crescendo 10% ao ano, no ano seguinte,
você vai ter praticamente o mesmo número inicial. Então,
tomam-se atitudes mais radicais: um dia circulam as placas pares
e, no dia seguinte, as ímpares. Só que as pessoas,
no desespero, pois não têm a contrapartida do transporte
de massa, acabam arrumando um segundo ou terceiro carro.
Gostaria de lembrar que temos uma questão muito importante
em tramitação no Congresso, que é a Cide
Contribuição de Intervenções de Domínio
Econômico. Através de uma luta muito grande, que envolveu
diversos setores de transportes, conseguimos destinar um valor mínimo
de 25% desses recursos para o transporte urbano. A Cide pode arrecadar,
em 2003, algo em torno de R$ 8 bilhões, sendo cerca de R$
2 bilhões destinados ao transporte urbano. Se conseguirmos
que o governo aplique esses recursos em infra-estrutura de transporte,
vamos estar dando um grande passo.
R.O: O principal foco de investimentos
da prefeitura londrina será na rede de ônibus, aumentando
anualmente em 5% a sua frota, até 2010. O Brasil é
modelo em soluções sobre pneus, de acordo com instituições
como o Banco Mundial (Bird). O que pode ser feito em termos de corredores,
vias expressas ou outras soluções sobre pneus para
racionalizar os deslocamentos na superfície?
J.F: Na verdade, está acabando aquela história
de botar ônibus em linha, estamos precisando
de mais três ônibus aqui, de quatro ônibus ali.
Fazia-se um abaixo-assinado pedindo mais ônibus e aí
virava aquela baderna. Você pega hoje as ruas e avenidas em
São Paulo, com filas de ônibus parados, rodando a passos
de tartaruga, e olha para dentro: há meia dúzia de
pessoas. Quase todas as nossas cidades têm excesso de frota
devido à irracionalidade. E o que seria racional? Fazer corredores
de ônibus com terminais de entroncamento. O Brasil exporta
essa tecnologia. Procurar fazer com que, na ponta, veículos
de menor capacidade, como ônibus menores e até vans,
alimentem os terminais e depois, através de linhas troncais,
veículos maiores levem os passageiros para outras direções
da cidade e para outros municípios. O nosso problema não
é a falta de ônibus, mas a falta de racionalidade.
Aqui em São Paulo, tanto o governo municipal quanto o do
Estado estão procurando uma maior racionalidade.
R.O: Qual a sua opinião sobre medidas
como a do pedágio urbano, que também está sendo
adotado em Londres?
J.F.: As experiências de pedágio urbano que alguns
países têm defendido, notadamente a Inglaterra, só
são viáveis porque se oferecem alternativas para quem
vai deixar o carro. Se fizermos isso de forma abrupta, vamos gerar
uma insatisfação muito grande, sem falar nas liminares
e ações judiciais reclamando sobre o direito de ir
e vir e a impossibilidade de deslocamento. Outra medida que costuma
ser considerada é a restrição da acessibilidade
às áreas centrais, como a proibição
de estacionar. Você chega em um lugar e não tem como
parar. Por conta disso, não se pára de abrir estacionamento.
É preciso coibir essa situação. Por exemplo:
houve críticas quando fizeram aquele estádio de futebol
na França, em Paris (Stade de France, que abrigou a final
da Copa do Mundo de 1998). Alguém escreveu uma matéria
no jornal dizendo que era um absurdo terem esquecido de fazer estacionamento.
Não há nenhum absurdo, pois em Paris é proibido
fazer estacionamento. Nós estamos na contramão da
história, neste aspecto. Eu vejo muitos colegas brigando
por mais vagas, quando se vai fazer um shopping, por exemplo. Ele
acha que está fazendo uma coisa fantástica, porque
está brigando com a iniciativa privada, cobrando dela mais
vagas de estacionamento. Acha que é um herói. Não,
é um bobo, pois devia estar fazendo o contrário. Um
shopping não pode ter mais de cem vagas. Esta é a
tendência: criar impedimentos para o transporte individual
e melhorar o transporte de massa.
R.O: Em entrevista recente, o secretário
municipal de Transporte, Carlos Zarattini, defendeu a criação
de uma agência reguladora metropolitana para integrar as ações
nos âmbitos estadual e municipal. Qual sua opinião
sobre o assunto?
J.F.: As dificuldades hoje são mais de ordem econômica
do que política. O município está numa situação
lamentável, porque os dois governos anteriores deixaram a
cidade em uma situação muito complexa. Existe uma
inércia muito grande nos grandes sistemas. Você tem
no município de São Paulo praticamente 5 mil ônibus
andando por centenas de linhas. No intermunicipal, estamos lidando
com mais 3 mil ônibus de 54 empresas. Então, esse casamento
entre a administração municipal e a estadual tem de
ser feito pouco a pouco. Não é criando uma instância
administrativa, apenas, que se resolve o problema. Não basta
um decreto. Tem de haver afinidade e vontade política de
ambas as partes. Vamos citar um caso concreto: nós queremos
fazer um passe eletrônico unificado, que é o passe
metropolitano, um cartão inteligente. Só que o Zarattini
tem uma herança difícil, já que uma parte da
frota municipal está com um sistema diferente. Compatibilizar
isso tudo leva tempo. Por isso, a gente tem que ter muita paciência
e confiança no outro parceiro.
R.O: Isso deve ser o principal obstáculo
para a implantação da integração de
fato: horária, modal e tarifária...
J.F.: O cartão inteligente é um instrumento técnico
para resolver essas questões, mas o que está por trás
disso tudo é a política tarifária. Como é
que se reparte esse bolo? Há uma série de ônibus
que vêm de outros municípios. Na hora em que se faz
com que se entrelacem nos terminais projetados, o passageiro passa
de um modo para o outro, do intermunicipal para o municipal, do
municipal para o metrô, etc. E, para isso, é preciso
ter uma grande câmara de compensação, que considere
número de passageiros transportados, por quantos quilômetros,
por quantos minutos... A política tarifária hoje é
mais complexa do que a questão técnica. O cartão
inteligente pode fazer isso. O problema é como fazer esse
rateio, tendo 54 empresários de um lado, outros 50 do outro,
sem falar nos 10 mil perueiros. Vai-se colocar o cartão inteligente
dentro da perua? Como ele vai participar? Vai continuar um autônomo,
como hoje? Ele não leva o idoso, não dá desconto
para estudantes, não transporta deficientes. Para equacionar
isso tudo não basta vontade política apenas.
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