
Sérgio Chaves: memória do tarnsporte
Corria o ano de 1976, os
estados do Rio e da Guanabara passavam por um processo de fusão,
e o Departamento de Transportes Coletivos - DTC - dava início
a novos tempos no transporte. Definia que qualquer empresa de ônibus,
para participar de uma licitação, teria de ter um
setor de Recursos Humanos, contando inclusive com a participação
de um médico.
Licitada a linha Rio-Paraty, venceu a empresa Eval. O empresário
Delmo... convida o jovem Sérgio Chaves, psicólogo
apaixonado por tudo que se relacionava a ônibus, para enfrentar
o desafio de montar rapidamente na transportadora um setor de RH
que cumprisse as exigências do DTC.
Eram tempos de parcos recursos tecnológicos. A correspondência
dependia de malotes e a comunicação telefônica
só podia ser feita através de PS1. Mesmo assim, o
trabalho teve início. Recrutamento, seleção
e, no ano seguinte, atendendo à exigência da portaria
120 do Detro, então sob a direção de Ney Moreira
da Fonseca, treinamento para auxiliar de transporte. A empresa Luxor
foi a segunda a implantar o trabalho de Recursos Humanos, em julho
de 1977, contando com o entusiasmo do empresário Délio
Sampaio. Faol, Progresso, 1001, Salineira, Nossa Senhora do Amparo,
outras empresas iam aderindo - e começando a colher resultados.
O psicólogo Sérgio Chaves é hoje assessor de
Recursos Humanos do Setranspani (....). E lembra com saudades as
dificuldades, a garra e a união daqueles primeiros profissionais
que, tal qual ele, enfrentaram o desafio de iniciar um trabalho
de RH em empresas de ônibus, num tempo em que muita gente
achava que psicólogo era "médico de maluco"
e não podia entender direito o que esse profissional pretendia
longe dos manicômios, invadindo empresas de setores diversos.
Ele conta como foi instituído, pelo Detro, o processo de
escolha do Rodoviário Padrão, que vigorou entre 1978
e 1982 e aumentou muito a auto-estima de profissionais que passaram
a se perceber valorizados. A Fetranspor, no intuito de estimular
esses rodoviários, premiava-os com viagens. Isso provocou
uma transformação. Os funcionários começaram
a se integrar mais, a se sentirem parte importante das transportadoras.
À essa época, já a Eval evoluíra para
um programa de integração com os funcionários,
realizando passeios com eles e suas famílias, nos ônibus
em que trabalhavam. A Evanil (onde Sérgio Chaves passara
a trabalhar, enfrentando o desafio de atender também à
outra empresa do grupo, Cidade do Aço), implantou sistema
de premiação aos funcionários que apresentassem
desempenho acima da média com viagens de fim de semana em
cidades como São Lourenço e Poços de Caldas.
Esse tipo de ação deu tanto resultado que a transportadora
teve de buscar outras formas de estímulo aos colaboradores,
pois o número daqueles que faziam jus à premiação
passou a inviabilizá-la.
Em 1980, foi a vez da Regina's implantar seu setor de RH. Em 1981,
criou-se, na Viação Cidade do Aço, uma associação
de funcionários, contando com injeção de recursos
feita pela transportadora. Passeios culturais, encontros de casais,
comemoração de datas especiais e a valorização
da empresa como local para se trabalhar foram os resultados imediatos.
Esse sucesso ia despertando o interesse das demais transportadoras
em implantar aquelas medidas, que ainda pareciam muito novas e até
um pouco estranhas, mas que estavam levando o rodoviário
a "viver" a sua empresa que, por sua vez, passava a vê-lo
de forma diferente. Sérgio explica que, como tudo o que é
novo, também havia quem encarasse as mudanças com
reserva e até resistência. Mas esses foram os primeiros
passos que levaram a toda uma transformação. Olhando
para trás, o psicólogo diz que encontrou grandes alegrias
e conquistas nesse caminho, em que contou com rica troca de experiências
com profissionais que, em grande parte, continuam a trabalhar no
segmento de transporte, como Rosa Maria Maia, Dalva Prado, Edinalva
..., Mônica Lessa. Outros nomes também são lembrados,
como Waldéa Repani e Solange...., falecida recentemente.
Um acontecimento apontado como marcante foi a Olimpíada do
Trabalhador Rodoviário, promovida em 1981, pela Fetranspor,
com apoio do Detro. Realizada no Estádio Sérgio de
Barros, teve competições de futebol de salão,
natação, corrida rústica e outras. Foi vencedora
a Evanil, que até hoje incentiva a prática de esportes
entre seus profissionais e dá apoio a atletas da comunidade.
Como lição aprendida nesses anos de trabalho no segmento
de transporte por ônibus, Sérgio destaca que "o
psicólogo não deve ficar numa sala, fechado. Ele precisa
ir a campo para sentir o ambiente de trabalho do rodoviário,
saber o que ele enfrenta no seu dia-a-dia". Só assim,
acredita, poderá cumprir da melhor forma seu papel de intermediário
entre esses funcionários e a diretoria, de maneira que todos
saiam ganhando.
Alguns depoimentos
Waldéa Repani
Tendo implantado o setor de Recursos Humanos nas empresas
Luxor Transportes Ltda. e Anatur Turismo e Transportes Ltda, Waldéa
lembra desses tempos pioneiros com a saudade de quem sabe que realizou
um bom trabalho. O setores que compunham o seu DRH, já àquela
época, mostram o avanço alcançado (que colocou
a Luxor como destaque nessa área): Recrutamento e Seleção;
Movimentação e Registro; Treinamento; Cargos e Salários;
Benefícios; Higiene e Segurança no Trabalho; Acompanhamento
e Aconselhamento; e Assistência. Ela registra a elaboração
de manual para os rodoviários, em parceria com a Fetranspor,
e trabalho de treinamento, em parceria com o Detro. Waldéa
diz que teve a sorte de trabalhar para um empresário que
sempre acreditou numa política de Recursos Humanos e lamenta
que a crise nas empresas tenha diminuído o ritmo pujante
de investimento no bem mais precioso que elas têm, o seu pessoal.
Acredita que, se esse ritmo tivesse se mantido inalterado até
hoje, teríamos reflexos positivos no transporte e no trânsito.
Rosa Maria Maia
Ainda trabalhando no segmento, Rosa Maria Maia é hoje
responsável pelo RH do Setransduc (...). Tem grande preocupação
com a educação do trabalhador e procura incentivar
e implementar cursos através de convênios com universidades
e outras instituições de ensino, a fim de promover
o aprimoramento do setor. Cita, dos primórdios da implantação
desse trabalho nas empresas de ônibus do Rio de Janeiro, além
da união entre os profissionais em torno de um objetivo comum,
"um avanço de 40 anos", que chegava a detalhes
como se contar, na Evanil (?), com nutricionista para elaborar os
cardápios dos rodoviários. Pesquisas relacionando
o tipo de alimentação e a qualidade de vida dos trabalhadores,
premiações, ações, enfim, que valorizavam
o ser humano e aumentavam a auto-estima do trabalhador, todas muito
modernas para a época. Para Rosa, que reconhece o enorme
esforço feito pelo segmento nesse sentido, uma mudança
é necessária. Ela acredita que, apesar de todos os
investimentos, os resultados não têm sido os esperados.
Mas permanece confiante; "Não consigo ver a situação
com pessimismo. Precisamos mudar. Podemos melhorar. E vamos continuar
trabalhando para isso", conclui.
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