A empresária rememora os tempos
de cobradora
Ser mulher nos dias atuais
não é tarefa das mais fáceis. Afinal, para
serem reconhecidas, elas precisam desempenhar, com a mesma competência,
as funções de mãe, esposa, profissional de
sucesso, amiga, orientadora, algumas vezes de avó participativa
e companheira dedicada. Sem falar naquelas que ainda enfrentam o
preconceito por exercerem atividades tipicamente masculinas. Se
hoje já é complicado ser essa super mulher, imagine
na década de 60, em que se esperava que elas fossem apenas
boas mães, esposas fiéis e donas-de-casa zelosas.
Não era aconselhável que fossem profissionais de sucesso
e muito menos concorrentes no mercado de trabalho. Muito poucas
tiveram a audácia e a coragem de romper tradições
e enfrentar os preconceitos. Therezinha Morgado foi uma delas. A
hoje empresária de transporte coletivo, de 68 anos, foi tudo
isso e um pouco mais - com o agravante de viver numa cidade pequena,
tipicamente interiorana.
Nascida em Pau Grande, perto de Magé, no Estado do Rio de
Janeiro, no dia 11 de novembro de 1934, numa família de 17
irmãos, Therezinha Menezes Morgado começou a trabalhar
aos 14 anos de idade, na Companhia América Fabril, onde seus
pais também trabalhavam. Lá, fez de tudo um pouco:
fiação, tecelagem, trabalho na cooperativa de alimentos
e no açougue da fábrica, além de secretária
do chefe de seção. Aos 19 anos, casou-se com Luiz
Carlos Morgado, que conhecera num carnaval em Pau Grande. "Ele
morava no Rio e trabalhava num colégio em Jacarepaguá,
como inspetor. Foi amor à primeira vista. Namoramos durante
um ano e nove meses e casamos", lembra. Ele foi morar em Pau
Grande, onde lecionava Matemática. Ela continuou na fábrica.
Mais tarde, já com três filhos - Maria Cecília,
hoje com 48 anos, Eduardo Jorge, 46, e Sandra Helena, 44 - o casal
recebeu a proposta tentadora de montar uma empresa de ônibus
para atender aos operários da América Fabril.
Tudo começou em 1959. A empresa que fazia esse transporte
falira e o então diretor da fábrica, Carlos Alberto
da Rocha Faria, além de fazer a proposta a Luiz Carlos Morgado,
emprestou-lhe a quantia necessária para dar entrada em dois
ônibus. "Ele nos emprestou Cr$ 100,00 e nós pagávamos
Cr$ 5,00 por mês. Foi um grande amigo", conta Therezinha.
Assim nasceu a Rápido Paugrandense, que começou a
operar em 1960. Na empresa, Therezinha fez de tudo um pouco. Forrava
os bancos dos ônibus, lavava os ônibus e ao mesmo tempo
ajudava a administrar o capital. Mas uma das atividades que mais
marcou a vida profissional da empresária foi a de cobradora.
Com seis meses de operação, a Rápido Pau Grandense
enfrentou uma difícil situação. Houve um grave
acidente com um dos dois ônibus e, tanto o motorista quanto
o cobrador, ficaram hospitalizados. Therezinha e o marido tiveram
de substituí-los.
A empresária ignorou os comentários e preconceitos,
vestiu uma calça comprida - "mulher naquela época
não usava calça comprida. Isso era coisa de homem",
conta - e enfrentou a situação. "Não existia
ainda a cadeira do cobrador. A gente tinha que ficar em pé
dentro do ônibus e ir de pessoa em pessoa cobrar a passagem.
E tinha que ser rápida, pois quando chegava num lugar chamado
'Paradinha', descia muita gente, mesmo se não tivesse pago
a passagem", lembra. Quando o cobrador se restabeleceu e voltou
a trabalhar, Therezinha passou a ser um curinga na função.
"Quando um cobrador faltava, eu assumia", conta. Essa
profissão, ela ensinou pessoalmente ao filho Eduardo Jorge,
conhecido no setor como Morgadinho. "Ele tinha entre 9 e 10
anos e eu ia junto para orientar", revela a mãe orgulhosa.
Outras situações surgiram como um teste do talento
e garra da empresária. A ameaça dos lotações
foi uma delas. Algum tempo depois que a Rápido Pau Grandense
foi inaugurada, surgiu uma linha de lotação que concorria
com ela no transporte dos operários da América Fabril.
Therezinha não se deu por vencida. Foi para a porta da fábrica
vender passagem fiado. "Fiz uns talões com 100 passagens
e vendia para os funcionários. Eu anotava numa caderneta
o nome das pessoas e, no dia do pagamento, entrava no ônibus
para cobrar. Tinha gente que ia na minha casa comprar. Com isso,
os lotações não agüentaram e sumiram",
lembra emocionada.
O papel de esposa e companheira, Therezinha também exerceu
com total dedicação. Nos finais de semana acompanhava
o marido em suas apresentações como cantor em churrascarias,
bares e restaurantes. "Ele cantava na noite. Era o seu hobby.
Gostava de cantar, de preferência bolero. Em alguns lugares,
como na Maloca, em Petrópolis, ele se apresentava ser receber.
Em outros, recebia um cachê, muitas vezes simbólico",
explica. Ela era a fã mais fervorosa e não perdia
sequer um show. Hoje, Therezinha, Luiz Carlos Morgado e o filho
Eduardo Jorge são sócios na Transportadora Primavera,
empresa com frota de 49 veículos e 300 funcionários,
sediada em Piabetá, no município de Magé. Morgado
está afastado da administração, por motivo
de doença. Mãe e filho comandam juntos a Primavera,
que, como a maioria das empresas de transporte coletivo, sofre o
que no passado sofreu a Rápido Pau Grandense com os lotações.
Agora, a Prefeitura regularizou o transporte alternativo em Magé
e nós estamos voltando a respirar e tentando atravessar a
crise", conta a empresária.
No alto de seus 68 anos de idade, Therezinha Morgado continua com
a garra e determinação da juventude. "Tenho muito
orgulho de tudo o que fiz. Não pude estudar. Minha faculdade
foi a minha vida", afirma. Esta é Therezinha Morgado.
Mãe, esposa, companheira, avó de sete netos, empresária
e, acima de tudo, mulher. Ou melhor, acima de tudo, uma mulher feliz,
como ela mesma se define.
Nota da Redação: Escolhemos a pessoa e o exemplo de
Terezinha Morgado para homenagearmos o trabalho dedicado de tantos
rodoviários, estejam em que níveis estiverem, de cobradores
a dirigentes de empresas, colaborando, com seu esforço, para
que toda a população possa se deslocar, diuturnamente,
no cumprimento de suas rotinas de trabalho, lazer e compromissos
sociais.
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