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Fomos buscar, para
os leitores saudosos do talento de José Carlos Oliveira,
uma crônica de sua autoria, que mostra história bem
carioca a bordo de um ônibus. O texto, publicado no volume
7, da coleção “Para Gostar de Ler” (Editora
Ática), está na íntegra. Para quem não
o conheceu, José Carlos de Oliveira (ou simplesmente Carlinhos
Oliveira), foi repórter de “Noite Ilustrada”
e de “Manchete” e se tornou um cronista dos mais lidos.
Morreu em 1986.
Lá vou eu, num ônibus,
pensando as minhas coisas. No Morro da Viúva, o cobrador
dá aqueles gritos que chateiam todo mundo: “Vamos chegando
para frente! Tem lugar na frente! Não acumula aqui atrás!”
Como estou sentado, contemplo com distante solidariedade os meus
semelhantes, de ambos os sexos, que obedecem automaticamente, avançando
para os espaços ainda vazios no corredor do veículo.
Entre eles está uma jovem loura que esconde os olhos atrás
de grandes óculos escuros. Ela foi empurrada e por sua vez
empurrou, de modo que conseguiu ficar perto do motorista, em situação
melhor de que os demais, dispondo de espaço para continuar
lendo o jornal que traz na mão. Não me é estranha.
Mas de onde a conheço? Estou pensando nisso quando justamente
ela pára de ler, move a cabeça na minha direção
e me cumprimenta sorrindo. Respondo à saudação
com esta fórmula sem sentido: “Tudo bem?”
– Tudo bem – diz ela, achando graça – mas
eu acho que você não está me reconhecendo.
Isso me desarmou. Sorri amarelo, não disse mais nada e lhe
dei as costas. Fui olhando a paisagem pela janelinha, preocupado
em saber: 1) de onde a conhecia; 2) se devia ceder-lhe o lugar,
mesmo antes de saber de quem se tratava. Mas não: talvez
ela também não soubesse com quem estava falando, e
nesse caso seria penoso, para nós dois, qualquer inicia-tiva
minha. Lembrava-me de uma loura de belos olhos azuis com quem saí
uma noite, mas era bem mais alta e além do mais alguma coisa
ocorrera naquela noite – uma aventura de pessoas adultas,
agradável e sem drama ou compromisso. Não, não
podia ser a mesma pessoa.
No Flamengo, alguém desceu e ela sentou. Dobrou o jornal,
apanhou papel e lapiseira na bolsa, escreveu um bilhete e me entregou:
Você é o J.C.O., ou estou confundindo?”
No mesmo papel respondi:
“Sou eu mesmo. E você eu conheço do Jangadeiros,
certo?”
Ela examinou a resposta, sorriu com ar de zombaria e me enviou nova
mensagem:
“Eu sabia que você não estava me conhecendo.
Uma vez, você me deu um livro no bar do Hotel Carlton”.
Ah! Mas é claro! A namorada do Flávio! Aliás
noiva! Ele passara a tarde em outro bar, tentando esquecer em minha
companhia, a minha atual colega de viagem de ônibus. Estava
gamado, mas ela parece que preferia casar com um belga, daí
a dor de cotovelo que o consumia. Mas tinha sido há tanto
tempo... E agora? Decidi esclarecer a situação:
“Já me lembrei de você. Como vai o Flávio?
Ela apanhou outro pedaço de papel, porque o primeiro estava
coberto de mensagens, e telegrafou:
“Não tenho visto”.
Coração, caçador infatigável, detém-te!
O Flávio pode ser um caso antigo, mas ainda há outro
na história. Mandei nova pergunta:
“Eu sabia que aquilo não ia dar certo. O Flávio
é muito inconstante. E o belga como vai?”
Resposta: “Também não deu certo”.
Evidentemente, levantei-me e ancorei ao seu lado. Confessei que
havia esquecido o seu nome. Ela se identificou. E eu logo comuniquei,
como quem não quer nada: “Aliás, hoje vou ao
Jirau. Não quer ir?”
Não, tinha outro programa. O ônibus parou e eu saltei.
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