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Já faz muito tempo
que o menino Gelson fitava a paisagem urbana da janela do apartamento
de Copacabana onde sua mãe trabalhava como empregada doméstica.
Os olhos bisbilhoteiros se fixavam nos números pintados sobre
os ônibus, nas formas e cores dos coletivos, que lhe pareciam
o componente mais encantador daquela vista.
Em casa, buscava fotos dos coletivos em jornais e revistas, para
recortá-las e colá-las em papelão. Dessa forma,
construía suas “cidades”, dando asas (ou seriam
rodas?) à imaginação fértil de criança.
A cidade grande, com suas cores e ângulos, seus contrastes
sociais expostos nas paredes grafitadas sempre foram um atrativo
para Gelson. Hoje, aos 42, transformada em arte, a paisagem urbana
quase grita em cores de suas telas, muitas delas premiadas.

O artista
Nascido em Saracuruna, município de Duque de Caxias (RJ),
Gelson Luiz da Silva foi laminador de lã de vidro e apontador
de construção civil. Até que a crise por que
passou este setor deixou-o sem emprego. A arte, que ocupava apenas
as horas vagas, passou a ser meio de vida, ganhou todos os horários
do seu dia – que começa às 10h e só termina
às 4h da manhã seguinte.
Um curso na Colméia de Pintores do Brasil, no Jardim Zoológico
do Rio, em 1981, deixou-o um tanto frustrado, um tanto feliz e muito
surpreso. Buscava aprender técnicas acadêmicas, mas
foi aconselhado pelo professor: “continua trabalhando assim,
que está bom.” Ele mal tinha segurança de manejar
o pincel, mas seguiu o conselho. Ao representar uma paisagem do
Jardim Botânico, achou que as palmeiras mereciam destaque.
Acostumado ao uso do plastic, a ele recorreu para fazer sobressair
os troncos. Ao acabar a obra, ela foi imediatamente adquirida por
um visitante da Colméia. Este foi um grande incentivo para
o espantado Gelson, que quase não acreditava no que acontecia.
De lá para cá, passou a usar cada vez mais o relevo
nas placas de eucatex pintadas a óleo, começou a freqüentar
feiras de artesanato, foi convidado para exposições,
ganhou algumas medalhas.
As obras
Apesar de todas as dificuldades a que está sujeito qualquer
artista que, no Brasil, pretenda viver de sua arte, Gelson vem conseguindo
esta proeza. Utilizando técnica mista e pintura a óleo
sobre eucatex, consegue forte expressividade, através do
relevo e das cores. Retrata cenas do cotidiano e se reporta muito
ao passado próximo. Suas ruas mostram muros cobertos por
inscrições que situam o apreciador numa determinada
época. Os modelos de veículos, sempre presentes, completam
o trabalho de situação geográfico-temporal.
Gelson é um cronista do seu tempo. Algumas de suas obras
estiveram em exposição na Noruega até 5 de
novembro deste ano, e de lá devem seguir para participarem
de mostra na Alemanha. Ele teve telas premiadas no Salão
de Pintura da Coléia de Pintores do Brasil (1984); no II
Salão do Clube dos Sargentos e Oficiais do Rio de Janeiro
(1995), no I Salão da Primavera e no I Salão de Inverno
do Centro Cultural Joaquim Lavoura (ambos em 2000); no Salão
do Comando Militar do Leste (2001). Este ano, participou de mostra
no MAC com “2002 Niterói Arte Hoje” (depois estendida
para o Teatro João Theotonio, Centro Cultural Cândido
Mendes); de coletiva da Regional Metropolitana (Casa das Artes),
e teve sua primeira individual, na Sala José Cândido
de Carvalho, em São Gonçalo (RJ).
O traço característico é o mesmo dos primeiros
desenhos, feitos por volta dos 7 anos: a cidade e o transporte coletivo
– algumas mostram o transporte ferroviário, mas a maioria
traz imagens de ônibus. Ao conceder entrevista para esta revista,
Gelson só fez um pedido: o de poder registrar seu reconhecimento
ao pessoal da Associbus, entidade informal que, no Rio de Janeiro,
reúne colecionadores de material referente ao transporte
por ônibus, pelo incentivo que vem recebendo, especialmente
de Rafael Avelar e Rodrigo Santiago. O recado está dado.
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