Projeto resgata memória do transporte
em três estados brasileiros
No Pódio


Nesta edição, “Ônibus” traz, como projeto campeão para subir ao Pódio, algo que não se reflete diretamente na operação do transporte em si, nem consiste em algum projeto de planejamento urbano. Mas, como sempre, é um trabalho que traz melhoria ao sistema como um todo. Desta vez, nossos olhos vão estar voltados para o passado, embora como forma de melhorar o futuro. Falaremos de uma novidade repleta de velhos documentos, cheirando a saudade, com um certo traço de lirismo e muita vontade de contribuir para o aprimoramento do transporte, da vida de nossas cidades, de suas populações. É um belo exercício de cidadania.


Ônibus papa-fila - Ceará

Se o leitor está curioso, vamos esclarecer já o mistério: a federação que reúne os transportadores do sistema de ônibus dos estados de Ceará, Piauí e Maranhão está investindo na memória do transporte. Num trabalho minucioso, que implica pesquisa de documentos em acervos públicos e privados, coleta de fotos, compilação e organização do material e que reverte para o auto-conhecimento do setor, resgata parte da história do transporte e, conseqüentemente, dos nossos espaços urbanos.


Ônibus - Piauí

Para David Lopes de Oliveira, presidente da Cepimar, a ação tem um profundo cunho de cidadania, e tem representado uma luta intensa, que vem rendendo bons frutos, através de dois projetos: o Memorial Fotográfico e o Banco de Dados. Os internautas de plantão, todos os que têm interesse na nossa história, os aficcionados por ônibus e transporte ou os apenas curiosos podem encontrar, no endereço da entidade na internet (http://www.cepimar.org.br), curiosidades, fotos de ônibus (artesanais e industriais), e a história do transporte nesses estados, dividida em décadas a partir de 1920. Mas tem muito mais. É uma viagem interessante, que vale a pena experimentar.
Você sabia?


Ônibus Zepelim - Maranhão

O conhecido modelo de almana-ques antigos e velhos programas de rádio que começavam com esta pergunta caberia como uma luva em vários dos assuntos contemplados no site da Cepimar. Dentre eles, o fato de que, das muitas fotos do início do século passado que mostram motoristas ao lado de ônibus, a grande maioria veio das mãos de garotas de programa. Pode parecer estranho, mas o fato é que, àquela época, o coletivo era um sinal dos novos tempos, modernidade pura e, conseqüentemente, dava um status de quem está em dia com o novo. Daí, a vaidade de motoristas em se exibirem ao lado dos veículos que dirigiam, e de suas eventuais companheiras de guardarem esses registros, como forma de se sentirem também parte do progresso que chegava, em forma de transporte coletivo.

Outra curiosidade é o nome pelo qual ficou conhecido o bonde de Teresina, implantado em 1927, com trilhos afixados diretamente ao chão, pois não havia ruas calçadas com paralelepípedos, e motor adaptado, já que não existia suprimento de energia elétrica suficiente para sustentar o serviço. O bondinho era chamado de “poeira lobato”, pois levantava nuvens de poeira à sua passagem. O “lobato” era alusivo ao intendente Anfrísio Lobão, em cuja época houve a implantação do modal.
Para conhecer melhor esse programa, a revista “Ônibus” ouviu o presidente da Federação, David Lopes de Oliveira.

R.O.: A Cepinar tem tido uma preocupação com o resgate da memória do setor. Desde quando isso acontece e que ações já foram realizadas em prol desse resgate?

David Lopes de Oliveira: O resgate e a preservação da memória histórica do transporte coletivo de passageiros nos estados de atuação da Cepimar tem sido uma de nossas maio-res lutas. Ainda é muito difícil conscientizar as pessoas de que, observando os bons exemplos do passado, poderemos construir um presente e um futuro, mas estamos colaborando para mudar este quadro. Desde 1998, a Cepimar vem trabalhando na criação e implantação de dois projetos que julgamos fundamentais para atingir os objetivos explicados acima. Os Memoriais Fotográficos do Transporte Coletivo de Passageiros são exposições fixas abertas à população e que trazem registros históricos de acervos públicos e particulares, contando a história do transporte através de fotos. Já os Bancos de Dados do Transporte Coletivo de Passageiros são espaços de pesquisa também gratuitos e que disponibilizam milhares de informações, desde listas de empresas e empresários, a leis e decretos, matérias antigas de jornais, entre outros dados.

R.O.: Sendo a base territorial da Cepimar composta por três Estados (Ceará, Piauí e Maranhão), não deve ter sido fácil a reunião de um acervo histórico da atividade. Como foi feito esse trabalho?

D.L.O.: A Cepimar contratou uma equipe multidisciplinar de pesquisa, com-posta por profissionais e estagiários de áreas como geografia, biblioteconomia e história, para coletar e organizar estas informações da maneira ideal. Esta equipe percorreu arquivos e bibliotecas públicas, acervos particulares e colheu dados com entidades e associações do setor de transportes. De posse deles, organizou-os sob a forma de um amplo banco de dados de fácil acesso, dividido em várias seções.

R.O.: Houve colaboração de algum outro órgão, na pesquisa e coleta de dados?

D.L.O.: A equipe de pesquisadores da Cepimar contou com o apoio de praticamente todos os órgãos públicos do setor de trânsito e transporte, os sindicatos, a maioria deles filiados à Federação, e ainda tivemos uma grande colaboração de empresários e seus familiares, por meio de acervos particulares.

R.O.: O que levou essa Federação a realizar esse trabalho?

D.L.O.: Um desejo inegável de valorizar a figura dos pioneiros dos transportes em cada um dos Estados, que enfrentaram muitas dificuldades, mas construíram esta realidade de grandes e organizadas empresas que vemos hoje. Além do mais, estamos contribuindo para resgatar uma parte da história das nossas cidades, que cresceram em paralelo ao desenvolvimento do transporte coletivo de passageiros.

R.O.: Quais são as maiores dificuldades encontradas no resgate da memória do transporte e quais são os benefícios já verificados por esse resgate?

D.L.O.: A principal dificuldade é encontrar material inédito em boa qualidade de exposição. Consideramos como benefício maior a possibilidade que oferecemos a muitas pessoas de tomar contato com a história de seu bairro, de sua cidade, através de imagens de cotidiano do setor dos transportes. Muitas praças e logradouros onde existem flagrantes dos primeiros ônibus que rodaram nas cidades desses três Estados ou não existem mais, ou estão modificadas. E temos em nossos Memoriais imagens de como elas eram. E isso é uma forma de resgate da história não só do setor, mas das próprias cidades.


Por Tânia Mara
   
Clique aqui para Imprimir !
Voltar a página anterior !