| Urquiza
Nóbrega
Ônibus
é pau pra toda obra. Serve para transportar pessoas –
são 60 milhões de brasileiros, aproximadamente, que
embarcam todo dia em algum coletivo urbano ou rodoviário
no Brasil – cria oportunidades de companheirismos e amizades,
enseja flertes, namoros e até romances e casamentos. Em ocasiões
especiais, o espaço do interior do ônibus é
usado para comemoração de aniversários, festividades
de Páscoa e de Natal e no período do Rei Momo se ouve
freqüentemente colega de trabalho a cantar os sambas de época.
Serve ainda o ônibus para fazer propaganda de produtos, serviços.
O “busdoor”, segundo especialistas, só perde
para a televisão em seu poder de propaganda. Nessa multiplicidade
de funções, o ônibus tem servido de maternidade
improvisada, consultório médico-odontológico,
auditório, sacolão-volante e até de gabinete
forense, como se experimentou no Rio de Janeiro.
Nessa última greve em São Paulo, tão divulgada
pela imprensa, li inusitado pretexto envolvendo ônibus, mesmo
naquelas dramáticas cenas de interrupção de
grandes avenidas e viadutos, com todo caos provocado pelo movimento
de motoristas e cobradores que reivindicavam pagamentos de salários
atrasados. Em meio a matérias tão graves, lá
estava registro pitoresco. Mulher nem tão jovem, nem ainda
envelhecida, na altura dos seus 36 anos, entrevistada pela reportagem,
sorridente dizia que aquela greve de ônibus a “obrigou”
a dormir na casa do namorado e que no dia seguinte perdeu uma hora
de trabalho.
Olha o ônibus se metendo até na vida íntima!
Fico a imaginar a felicidade daquela possivelmente exuberante mulher
a usar o pretexto da greve para curtir romance com seu namorado
em noite que se espera haja sido bela e romântica, a ponto
de fazê-la dormir mais um pouco e chegar atrasada no seu escritório.
Assim vai o ônibus, com greve ou sem greve, entrando na vida
das pessoas, na história das cidades, marcando itinerários
no presente e no futuro.
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