Professora leva maquetes de ônibus para sala de aula
Educação

A professora Bárbara Cristina Ribeiro Salles, 32 anos, 12 de magistério na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, descobriu, no ônibus, uma ótima ferramenta de educação. No CIEP Presidente Agostinho Neto, no Humaitá, onde leciona para 32 alunos do primeiro segmento, que abrange da Educação Infantil até a 4ª série, Bárbara criou, em agosto deste ano, o Projeto “Ônibus Mágico no Rio”, que utiliza miniaturas de ônibus em sala de aula para trabalhar conceitos como espaço, cidadania e ensinamentos de todas as disciplinas. A Revista Ônibus conversou com Bárbara:

Revista Ônibus: Como surgiu a idéia de utilizar as miniaturas de ônibus em sala de aula com seus alunos?

Bárbara: Eu já faço com eles, há algum tempo, um trabalho sobre as partes da cidade, o que compõe uma cidade. Em 1996, fiz um Projeto chamado “Construção é Vida”, que fala das moradias das crianças, trabalha questões ligadas às comunidades onde elas vivem, fala sobre os vários bairros existentes no Rio de Janeiro, enfim tudo o que existe na cidade. E uma das coisas que faz parte da cidade é o ônibus. Fizemos, inclusive, uma pesquisa para apurar onde nossas crianças residem e como vão para a escola. A maioria mora nas comunidades da Rocinha ou do Vidigal e vai para a escola de ônibus. Pelo que sabemos, não apenas os alunos, mas a maioria da população do Rio utiliza o ônibus como meio de transporte. Foi aí que surgiu a idéia de fazer um trabalho específico com os ônibus, percebemos que o transporte seria um outro gancho para se desenvolver um projeto e nasceu o Projeto “Ônibus Mágico no Rio”.

R.O.: Por que esse nome?

Bárbara: A criança precisa sempre de algo mais lúdico para chamar a sua atenção. Então, comecei o trabalho com a história de um livro chamado “Ônibus Mágico no Sistema Solar”. É a história de um grupo de crianças que é levado pela professora para conhecer o Planetário. Chegando lá, eles encontram o local fechado. Então, o ônibus que os levou, que era mágico, os transporta direto para o Sistema Solar e as crianças, que foram conhecer o local de onde se vê o Sistema Solar, fazem uma viagem ao próprio Sistema Solar. Depois de contar essa história para eles, como forma de despertar seu interesse para o assunto, comecei a trabalhar a realidade, o ônibus real. Começamos montando uma exposição com as maquetes e falamos dos ônibus que existem na cidade, das empresas, da importância desse meio de transporte. Fizemos até uma visita real, num ônibus real, ao Planetário. Por causa do livro, o Projeto foi batizado com esse nome.

R.O.: Como a senhora conseguiu miniaturas de ônibus com a pintura de empresas da cidade?

Bárbara: Meu marido*, que também é professor do segundo segmento e do Ensino Médio, em Guarulhos, São Paulo, sempre gostou de ônibus. Desde pequeno, ele coleciona fotografias, vídeos sobre o assunto, matérias de jornal, freqüenta feiras... Esse é o hobby dele. Há muitos anos ele faz maquetes de ônibus. Então, eu pedi que fizesse algumas de empresas do Rio. Hoje, já tenho em sala de aula 11 maquetes de ônibus urbanos e rodoviários, do Rio** e de outros lugares. Tem até uma do trólebus, de São Paulo, para mostrar a eles os diversos tipos desse -veículo que existem.

R.O.: Seu marido também utiliza maquetes de ônibus nas aulas?

Bárbara: Como a turma dele é de crianças maiores, ele utiliza não só as maquetes, mas os vídeos e as fotos que tem. Ele é um estudioso sobre o assunto e também escreve artigos sobre ônibus. Então, costuma levar esse material para seus alunos, para discutir sobre a importância do serviço de transporte na vida das pessoas e das cidades, e por que esse serviço tem que ser bom, com qualidade, e como isso influi no bem-estar das pessoas.

R.O.: E a senhora, além das miniaturas de ônibus, utiliza outro material sobre ônibus em suas aulas?

Bárbara: Utilizo publicações para pesquisa, inclusive a Revista Ônibus, que meu marido recebe, a revista “Na Poltrona”, da Itapemirim, entre outras. É importante a gente ter isso para que eles possam pesquisar e para poder trabalhar com eles a leitura também.

R.O.: Que tipo de conhecimento pode ser explorado através das maquetes e em que disciplinas?

Bárbara: Em todas as disciplinas elas podem ser aplicadas para trabalhar vários conceitos. Em Estudos Sociais, por exemplo, trabalhamos a questão da localização, do espaço que o ônibus integra, da sua importância para a população por ser um meio de transporte, das linhas, itinerários, bairros que são atendidos. Trabalho com eles a questão da cidadania também, falando da importância de se conservar o ônibus, não pichar, não rasgar os bancos, não colocar fogo... Em Ciências, trabalhamos a parte ambiental, destacando que os ônibus devem estar bem cuidados para não poluírem o ar com a fumaça negra. Em Matemática, discutimos o valor da passagem, a utilização do sistema monetário, o número de passageiros transportados, o ônibus cheio e o ônibus vazio, os números que identificam as linhas dos ônibus. Na Língua Portuguesa, passamos textos para eles escreverem sobre o assunto e ali podemos trabalhar ortografia, como por exemplo o fato dos bairros serem nomes próprios e por isso escritos com letra maiúscula. Em Artes, eles fazem colagem, pintura, desenhos de ônibus, reproduzindo as pinturas das empresas.

R.O.: Esse Projeto terá continuidade em 2003?

Bárbara: Claro que sim. Não pretendo mais parar, será contínuo. E, ainda este ano, como trabalho final, eles próprios vão produzir suas maquetes de ônibus em caixas de pasta de dente.

Notas da Redação:
*Waldemar Pereira de Freitas Junior, professor na rede estadual de ensino de São Paulo há cerca de nove anos, lecionando atualmente na cidade de Guarulhos.
** Bárbara tem miniaturas de ônibus da Amigos Unidos, que atende a comunidade da Rocinha, onde mora a maioria de seus alunos, da Real, da Auto Diesel e da São Silvestre.

   
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