Transporte coletivo eficiente gera desenvolvimento
urbano

“Em que medida o transporte
coletivo é um instrumento de melhoria de qualidade de vida?”
Com esse questionamento, a coordenadora geral do Grupo Executivo
de Transporte Urbano da Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano
da Presidência da República, Ieda Maria Lima, iniciou
sua palestra, na tarde de quinta-feira, dia 7 de novembro. Salientando
que o transporte coletivo possui características como dividir
espaço com outras pessoas, deslocamentos a pé, transporte
de bagagem de mão e paradas indesejadas, que a princípio
parecem contraditórias com a melhoria de qualidade de vida,
o transporte individual ocupa desordenadamente o espaço urbano
e reduz a mobilidade das pessoas, gerando impactos negativos como
perda de tempo, desperdício de combustível e aumento
da poluição, da falta de segurança na circulação
de pedestres e ciclistas, além de prejudicar a eqüidade
no uso do espaço público e a inclusão social.
Neste sentido, nos últimos dois anos, a Secretaria Especial
de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República
– Sedu-PR, debateu a questão com a sociedade em geral
e, segundo a palestrante, a proposta de Desenvolvimento e Mobilidade
para o Brasil, foi incorporada ao Programa de Governo do novo Presidente,
Luiz Inácio Lula da Silva. “É o que a sociedade
deseja. A sociedade tomou consciência de que é necessário
partir para uma política pública de prioridade ao
transporte coletivo, como a única saída para as nossas
cidades. E que esse transporte coletivo seja efetivamente uma alternativa
real de deslocamento, de acessibilidade”, enfatizou.
Para Ieda, o que se precisa agora é ultrapassar as limitações
físicas, técnicas, de comunicação, planejamento
e gestão: o transporte coletivo ainda está sob um
sistema operacional de baixíssima velocidade, comprometendo
a regularidade e rapidez por conta de falta de prioridades no sistema
viário, resultando inclusive em aumento dos custos operacionais.
É necessário também um canal constante com
o usuário para que o setor entenda as mudanças no
perfil de deslocamento e esteja sempre ajustando a oferta de horário,
de itinerário e de acessibilidade às necessidades
dos usuários. Um planejamento dos serviços e a gestão
competente dos contratos de concessão também precisam
de atenção.
Ieda Maria Lima citou distorções que precisam ser
corrigidas: viabilizar a integração dos programas
de governo para o setor, eliminando a existência de um programa
para transporte rodoviário urbano e outro para transporte
ferroviário urbano no Plano Plurianual; rever as concessões
de gratuidade, que têm se demonstrado nefastas para todos;
rever a carga tributária que encontra-se num patamar muito
alto, resultando em tarifas elevadas para os usuários; e
a falta de regras gerais para concessões.
Debates
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Bezerra Leite: 115.000 ônibus contra
32.000.000 de automóveis. |
Jurandir Ferreira: país tem os
projetos,
os técnicos e a tecnologia. |
O presidente da Associação Nacional de Transportes
Públicos – ANTP, Jurandir Fernandes, iniciou os debates
afirmando que, independente de questões partidárias,
o importante é acabar as obras iniciadas e implantar projetos
viáveis: “precisamos pensar com os pés no chão,
baixar os custos, sempre baixar custos, racionalizando, procurando
tecnologias mais modernas.”
Lembrando que nosso País possui não somente os técnicos
e os assessores, como também veí-culos nacionais,
chassis e carroçarias brasileiras, o presidente da ANTP enfatizou
a capacidade do País de implantar corredores de ônibus
capazes de transportar de 12 a 15 mil/passageiros/hora por sentido.
“Com material rodante incluído, com estações
modestas, dá para fazer por 4 a 6 milhões de dólares
o quilômetro. Os projetos existem, a tecnologia existe. Precisa
o quê? Persistência, perseverança, política
para o setor e recursos financeiros.”
O presidente da ANTP enumerou a necessidade de criação
de corredores de ônibus, a abertura de canais seguros e permanentes
de recursos para financiamento ou a fundo perdido, dar estabilidade
jurídica e econômica ao setor com uma política
bem definida e influir na política do uso do solo, com um
planejamento urbano para as cidades com mais de 30, 40 mil habitantes,
como fundamentais para equacionar os problemas do setor.
O diretor regional (PE) da Associação Nacional das
Empresas de Transportes Urbanos – NTU, Alfredo José
Bezerra Leite, enfatizou a capacidade que o setor de transporte
tem de se auto-financiar e que “por conta disso deixa de ser
prioridade política dos governos”. Para ele, “as
mazelas do setor, como gratuidade, ocupação espacial
desordenada, falta de direcionamento político para infra-estrutura,
acabam sendo pagas única e exclusivamente pelo usuário,
e o governo usa isso com muita proficiência porque, das atividades
essenciais que o governo tem responsabilidade ou deveria ter, a
única que funcio-na efetivamente no Brasil é o transporte”.
“Precisamos ver a magnitude desse processo. Se levarmos em
consideração dados da ANTP, temos diariamente no Brasil
200 milhões de deslocamentos, 50% feitos a pé ou de
bicicletas e dos outros 50%, ou seja, 100 milhões de deslocamentos,
60% são feitos por ônibus, 5% por trens e metrôs,
1% por motos, e o restante são os automóveis. Nessa
divisão, temos a participação de aproximadamente
115 mil ônibus contra 32 milhões de automóveis
e aproximadamente 3 milhões de motos. Então, realmente
é preciso encarar de outra forma a questão da prioridade
do transporte.”
Alfredo José Bezerra Leite apontou a necessidade urgente
de desoneração de tarifas para o setor, sob pena de
perda cada vez maior de usuários, aumento do transporte clandestino
e do número de automóveis. “Se nós desonerássemos
as tarifas de transportes públicos hoje no Brasil destas
mazelas sociais e dos custos tributários imputados, com certeza
teríamos uma tarifa 50% mais barata, com redistribuição
de renda anual para os usuários diretos do transporte, da
ordem de 5 bilhões e 644 milhões de reais”.
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