
Laurindo Junqueira: plano do PT abre oportunidade de
opção pelo transporte coletivo.
Transporte coletivo sustentável e de boa qualidade
é a solução
Para o ex-secretário
de Transportes de Campinas e de Santos, o consultor da ANTP Laurindo
Junqueira, o fato do Plano de Governo do Partido dos Trabalhadores
enquadrar o setor de transporte urbano por ônibus como essencial
para o processo produtivo e como indutor de desenvolvimento, abre
“imensa oportunidade” para que empresários, governo
e socie-dade encontrem soluções conjuntas para a crise
enfrentada pelo setor. O consultor iniciou sua palestra destacando
que “pela primeira vez” se insere “num Programa
de Governo, em nível federal, aquilo que está na Constituição.”
Segundo Laurindo, outros pontos são fundamentais no Plano:
coloca o Estado como planejador do desenvolvimento; estipula parcerias
públicas e privadas e visa reverter o modo de transporte
individual pelo coletivo.
Salientando que o Programa prevê também diversos incentivos
financeiros, como o ICMS de automóveis, e a disponibilidade
de 50% do IPVA para os municípios, revertidos para o setor,
além de incentivos ao vale-transporte e outros mecanismos
de financiamentos, Laurindo Junqueira apresentou slides explicitando
problemas que o setor precisa ultrapassar em relação
ao transporte ilegal, aos problemas energéticos, à
poluição, à facilidade de aquisição
de automóveis e motocicletas e a conflitos de capital público
e privado.
Apontando a necessidade urgente de racionalização
do transporte público para sobrevivência das cidades,
tendo como única saída o transporte coletivo, sustentável
e de boa qualidade, o palestrante evidenciou as funções
do setor, os critérios de eficiência e as dimensões
da tecnologia necessária para isso. Como sugestão,
apresentou cinco tipos de ações: normativa, estratégica,
operacional, ação e monitoração. No
Plano Normativo, citou a necessidade de defesa dos direitos trabalhistas,
direitos do consumidor, direitos ambientais, de trânsito,
tributários e constitucionais. No Plano de Ação,
identificou pontos fracos como desgaste e esgotamento dos mecanismos
de financiamento, falta de representação política
do setor e imagem pública ruim. E apresentou, como pontos
fortes, a economia do País mais dependente do setor, tecnologia
empresarial desenvolvida e mercado regulamentado.
A experiência de Belo Horizonte

Ricardo Mendanha: vontade política é fundamental
para resolver questões do transporte ilegal.
Em prosseguimento à palestra, o presidente da Empresa de
Transporte e Trânsito de Belo Horizonte, BHTrans, Ricardo
Mendanha, narrou a experiência de combate ao transporte clandestino
na capital mineira. Mendanha caracterizou o transporte ilegal como
“precário, sem controle, com impactos negativos sobre
a organização do setor público, causando redução
de receitas do sistema e erosão da autoridade do poder público”.
E explicou que, entre 1997 e 2001, em Belo Horizonte, ocorreu um
aumento do número de clandestinos acarretando perda de 15%
na quantidade de passageiros transportados pelo sistema regular.
Cerca de três mil vans e kombis trafegando no centro do município
e a concessão de 2.500 liminares, baseadas no princípio
de que a Constituição assegura o direito ao trabalho,
levaram a cidade ao caos.
De acordo com Mendanha, a posição do governo de Belo
Horizonte de regulamentar o sistema através de licitações
e regularização de contratos, e a “mudança
de paradigma – ao invés de ficar procurando o perueiro
na rua, o centro dos debates mudou para direito individual versus
direito público, interesse individual versus interesse do
Estado” – possibilitaram a solução do
problema. “O Estado entrou com uma ação ordinária
de tutela antecipada”, ou seja, acabou com as liminares.
Foram implementadas ações estratégicas que
levaram a aumento da velocidade operacional do transporte coletivo
regular, mais recursos para o setor, segmentação dos
serviços, aumento da acessibilidade em todas as áreas
da cidade e melhoria da imagem do transporte coletivo regular com
a problematização do transporte clandestino. Entre
as chamadas ações táticas, além da tutela
antecipada, o presidente da BHTrans salientou a operação
de fiscalização e apreensão dos veículos
ilegais, com apoio da Polícia Militar, e um processo de licitação
para operação de serviços de transporte suplementar
em locais onde o ônibus não seria a melhor opção.
Mendanha classificou o sucesso desse modelo como um “planejamento
estratégico buscando ações que atuassem nas
causas diversas do problema e vontade política de querer
resolver. Sem vontade política não tem como resolver,
ela é fundamental”.
“Ordem e Progresso”

Urquiza: caminhamos dentro da ordem, rumo ao progresso?
“Esta Nação, neste momento, caminha dentro
da ordem e caminha para o progresso? Com tristeza de cidadão,
eu vejo a expansão da informalidade no Brasil, a pirataria
atingindo diversos setores da vida brasileira, um desrespeito afrontoso
à ordem jurídica, ao estado democrático de
direito”. Com essas palavras, o superintendente da Fetranspor,
Luiz Carlos de Urquiza Nóbrega, deu continuidade aos debates
lembrando que a demanda para o transporte coletivo tende a crescer
e que existe não só uma indústria capaz de
atender as necessidades deste crescimento, como também empresas
muito bem administradas, com grandes empresários.
“O grande gargalo está na falta de uma política
pública corajosa; os políticos desconhecem que o transporte
coletivo é um bem da sociedade”, avaliou.
Fortaleza

Pessoa Neto: regulamento do transporte
“suplementar” não é cumprido.
Pessoa Neto, assessor técnico do Sindiônibus, de
Fortaleza, explicou que o sistema urbano daquela capital passou
por uma regulamentação do transporte chamado alternativo
no final de 1997, que culminou com uma licitação,
em 1998, quando 320 vans foram autorizadas legalmente a operar.
Após salientar que o regulamento do transporte possui alguns
méritos, mas que “infelizmente, não é
cumprido em absolutamente nada”, Pessoa Neto citou, entre
as irregularidades existentes, 90% de sobreposição
do itinerário das linhas de ônibus. O serviço
é concorrencial e não suplementar, não respeita
a distância mínima de 100 metros do ponto de parada
dos ônibus, os veículos não são vistoriados
regularmente e transportam pessoas em pé, entre outros problemas.
De acordo com o palestrante, apesar da licitação realizada
em 1998 ter como prazo de encerramento o ano de 2003 e ser improrrogável,
já existe uma liminar prorrogando o serviço por mais
cinco anos.
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