Virou uma sopa na Rua da Matriz
Crônica

Tânia Mara Gouveia

– Mãe, virou uma sopa na Rua da Matriz!
– Meu Deus! Tem gente ferida?
– Não, mas o garçom ficou todo molhado...

Quem não é da velha guarda pernambucana não consegue entender essa piada, da qual minha mãe, caruaruense, ainda ri, lembrando das peças que gostava de pregar na infância. Mas quem anda pela casa dos 60, 70, e é daquelas plagas nordestinas, sabe que "sopa", antigamente, era palavra que designava ônibus.

Povo criativo e gozador, o brasileiro tem apelido pra tudo. E o ônibus, figura tão presente na vida da população, não poderia ficar de fora. Por isso ganhou nomes pitorescos como "sopa", "marinete", "cata-pobre", "busum". Alguns fazem referência a determinados modelos: "chopp duplo", "papa-fila"... e certamente muitos outros, por esse Brasil de Deus – como estão de prova Cacá Diegues e Antônio Fagundes, Ele é brasileiro.

Urbano, rodoviário, modelo novo ou antigo, o ônibus é parte da paisagem de qualquer das nossas cidades, de ponta a ponta do Brasil enfrentando roteiro no asfalto ou na poeira das estradas, levando nossa gente simples, de tipos tão variados. Ônibus não é coisa só nossa. Mas é coisa muito nossa. É como o café e o futebol, que vieram de fora, mas têm gosto de Brasil.

Nossas cidades se formaram, em sua grande maioria, ao longo das vias, férreas ou rodoviárias. Não foi à toa que Washington Luís considerava que "governar é abrir estradas". A cada via construída, multiplicavam-se casas e pequenos comércios em suas margens, formavam-se novos povoados. O transporte levando o progresso, abrindo caminhos. Os veículos levando gente e seus teréns, carregando junto sonhos, dores, decepções, esperanças. Num ônibus qualquer, de qualquer das nossas cidades, vilas ou metrópoles, quantas histórias de vida passeiam, numa única viagem?

Muita gente tem essa percepção, no nosso país de dimensões continentais. Estão aí os busólogos que não me deixam mentir. Eles buscam preservar a memória do nosso transporte rodoviário coletivo, sabendo que esta é uma forma de preservar a memória das nossas cidades. E se empenham nisso, com dedicação, carinho e persistência.

É pena que, na contramão dessa via da preservação, agora deliqüentes resolvam comandar ataques a ônibus, atos de vandalismo, depredações, incêndios – até mesmo com pessoas a bordo. Esta é mais uma forma de violência que precisa acabar, em nossas cidades. Caso contrário, em vez de histórias pitorescas, nossos filhos e netos ouvirão de nós relatos de terror.

   
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