Torres de Londres e civilização
Editorial

José Carlos Reis Lavouras
Presidente do Conselho de Administração da Fetranspor

O jornal "O Globo", em sua edição de 18 de fevereiro corrente, sob o título "Pedágio contra engarrafamentos", deu ampla divulgação à medida adotada pela prefeitura de Londres, que, pelas suas positivas conseqüências, terá repercussão mundial.

O prefeito Ken Livingstone instituiu pedágio urbano – seu mais ambicio-so projeto de administração – com o objetivo de desafogar o trânsito de Londres. Em área de 21 km2, que inclui o caótico fluxo entre o West End e a City Londrina, o novo pedágio urbano cobra taxa de cinco libras (R$ 29) a motoristas que desejam trafegar naquele perímetro. Setecentas câmeras, de 7h às 18h30min, de segunda a sexta-feira, farão a fiscalização eletrônica. A multa pelo não pagamento do pedágio será de 80 libras (R$ 464).

A corajosa decisão do prefeito londrino possui forte caráter civilizatório. É inconcebível que, no atual estágio de desenvolvimento urbano, áreas de densas atividades e servidas pelo transporte público, se tornem intransitáveis, pelo excesso de fluxo de automóveis, em grande parte com um único passageiro, acarretando perda de tempo, desperdício de combustível, poluição ambiental, sonora e visual, afetando fortemente a qualidade de vida.

Pelo que está registrado na imprensa britânica, antes do pedágio circulavam naquele perímetro cerca de 250 mil veículos. Esse número já foi reduzido para 115 mil, que pagam pedágio, e assim geram preciosa fonte de recurso, que será investido na melhoria dos transportes públicos. O governo de Livingstone espera arrecadar o correspondente a R$ 800 milhões anualmente.

Que o simbolismo da Torre de Londres ecoe no Brasil, especialmente nas duas grandes metrópoles, São Paulo e Rio de Janeiro, e gradualmente se propague para outros grandes aglomerados urbanos.

O Brasil se acha carente de recursos orçamentários. As questões sociais como fome, pobreza, miséria, exigem extraordinário esforço do governo e da sociedade. Os transportes públicos se acham órfãos de dinheiro para investimentos na infra-estrutura. O valor das tarifas é elevado, entre outras razões pela forte tributação das empresas operadoras e pelos altos índices de gratuidade sem fonte de custeio.

Um pedágio urbano à semelhança do de Londres poderia ser uma medida oportuna, econômica e socialmente, inclusive como mecanismo de redistri-buição de renda e, através de redução do valor das tarifas, funcionar também como elemento de inclusão social dos milhões de brasileiros que vencem a pé longas distâncias por não ter como pagar a condução.

   
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