| Otávio Vieira da Cunha Filho |
Por Silvio Rabaça |
Otávio Vieira da Cunha Filho, presidente da Associação
Nacional das Empresas de Transportes Urbanos – NTU –,
atua no setor de transportes desde 1965. Foi diretor do Sindicato
das Empresas de Transportes de Passageiros de Belo Horizonte (Setransp/BH);
presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros
de São Luís (SET); vice-presidente da Federação
das Empresas de Transportes Rodoviários dos Estados do Ceará,
Piauí e Maranhão, de onde é atualmente diretor
para assuntos jurídicos. Participou de Comissão Especial
criada pela Presidência da República para reduzir as
tarifas e melhorar o serviço de transporte coletivo nas cidades
brasileiras e do Comitê Temático “Modernização
das Relações Institucionais entre Órgãos
Gestores e Empresas Operadoras”, instituído pela Sedu/PR
(Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano da Presidência
da República).
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Otávio Cunha: NTU quer atuação
mais enérgica
do poder público
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Revista Ônibus: Como vai o setor de transporte coletivo
urbano?
Otávio Cunha: O setor de transporte público
urbano por ônibus não vai nada bem. Atravessamos uma
crise que já dura alguns anos, consubstanciada por uma perda
contínua de passageiros e queda de produtividade. As causas
dessa crise são diversas e passam pelo crescimento do transporte
ilegal de passageiros, aumento dos congestionamentos urbanos, aumento
dos preços dos insumos e perda da capacidade de pagamento
pelos usuá-rios do transporte público.
R.O.: Quais as necessidades do setor?
O.C.: Precisamos de uma atuação mais
enérgica do poder público no combate à ilegalidade
no setor, prioridade ao transporte coletivo no sistema viário
com a implantação de faixas e corredores exclusivos
e, principalmente, a deso-neração das tarifas do transporte
público urbano, como única forma de evitar a já
constatada exclusão social desse serviço público
essencial para a vida no ambiente urbano.
R.O.: O que representa o setor na economia nacional?
O.C.: Somente os ônibus urbanos têm um faturamento
anual da ordem de R$ 15 bilhões, o que representa cerca de
1% do PIB. Entretanto, do ponto de vista da geração
de empregos, o setor ocupa posição de destaque com
a geração de 500.000 postos de trabalho, cinco vezes
mais que a indústria automobilística.
R.O.: Como o setor vê a eleição de
Luís Inácio Lula da Silva?
O.C.: Entendemos que toda alternân-cia de poder é
salutar na medida em que possibilita a renovação de
idéias, prioridades e práticas de administração
pública. Dessa forma, vemos a eleição do presidente
Lula com muita expectativa e torcemos para que ele tenha sucesso
no seu mandato.
“Apoiamos a prioridade
do governo Lula aos
programas sociais.”
R.O.: E o governo, qual a sua opinião?
O.C.: O PT é um partido formado por várias
correntes ideológicas, que exerce a prática de debater
abertamente todas as questões polêmicas antes de decidir.
Acredito que, por esta característica, o governo enfrentará
algumas dificuldades para deslanchar nesses primeiros momentos.
Mas isso é apenas uma questão de tempo. As alianças
políticas feitas antes e depois das eleições
também precisam ser consolidadas, visto que esta é
praticamente a primeira experiência do PT com alianças
sem identidade ideológica. Aplaudimos ainda a criação
do Ministério das Cidades que irá dar prioridade aos
problemas urbanos.
R.O.: Quais as reivindicações do setor ao
governo Lula?
O.C.: Defendemos a consolidação de uma política
nacional para o transporte urbano, com a edição de
uma legislação específica para o setor que
regule as relações institucionais entre o poder público
e a iniciativa privada.
Precisamos contar com a Contribuição de Intervenção
de Domínio Econômico (Cide) como fonte de financiamento
perene para investimentos na infra-estrutura viária, pois
os municípios não têm como assumir estes encargos
sozinhos.
Entendemos ainda que o governo Lula deve corrigir a grande injustiça
social que caracteriza a concessão de gratuidades e benefícios
tarifários no setor onde a rea-lidade mostra que a camada
mais pobre da população está muitas vezes subsidiando
idosos e estudantes de classe média.
R.O.: Que mudança o setor gostaria de propor ao
governo?
O.C.: No âmbito da Reforma da Previdência defendemos
que os encargos sociais trabalhistas devem incidir sobre o faturamento
total das empresas e não sobre a folha de pagamento. Na situação
atual os setores que empregam mão-de-obra maciça são
os grandes prejudicados. No que se refere à reforma tributária,
buscamos o tratamento diferenciado para os componentes da cesta
básica e para os serviços públicos essenciais,
como é o caso do transporte público urbano.
R.O.: Em função das mudanças introduzidas
pelo governo Lula, a NTU alterou algum de seus projetos para 2003?
O.C.: Basicamente não. Os projetos prioritários
da NTU continuam os mesmos definidos por ocasião do Planejamento
Estratégico já elaborado. Talvez o que possa ocorrer
são adaptações na forma de conduzir os projetos,
considerando as inovações do governo Lula, como a
criação do Ministério das Cidades e a própria
forma do novo governo dialogar com a sociedade organizada.
R.O.: Qual a sua opinião sobre o plano social do
governo Lula, e de que forma a NTU estaria em condições
de ajudar?
O.C.: Consideramos da máxima importância a redução
das desigualdades sociais existentes atual-mente no Brasil. Dessa
forma apoia-mos a prioridade do Governo Lula aos programas sociais.
Apesar da crise atual que assola as empresas do setor, não
nos furtaremos em participar de qualquer iniciativa dentro de nossa
área de atuação.
R.O.: O transporte ilegal vem causando transtornos em muitas
cidades brasileiras, gerando grandes prejuízos ao transporte
regular e criando caos no trânsito, focos de violência
e inúmeros outros problemas. A NTU vem lutando para mudar
essa situação. Qual sua avaliação dos
resultados obtidos até o momento?
O.C.: Os resultados até o momento nessa luta contra
o transporte ilegal são pontuais e, na maioria dos casos,
baseiam-se na vontade política dos administradores públicos
municipais ou estaduais em resolver a questão. A NTU vem
trabalhando em soluções de médio prazo como
a formação de opinião pública sobre
o problema e a criação de ferramentas legais que facilitem
a atuação do poder público.
R.O.: Nos últimos anos a NTU tem se preocupado em
realizar pesquisas, incentivar ações de marketing
no setor, dialogar com todos os seus públicos. No plano de
trabalho para este ano, que ações estão previstas
nessas áreas?
O.C.: De uma maneira geral, a NTU vai continuar buscando
incluir o setor no debate social. Entendemos que somente com a mobilização
da sociedade poderemos obter soluções para os graves
problemas estruturais que afetam os transportes públicos
urbanos.
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