Cobrador domina a arte da pirogravura em madeira
Rodoviário de Talento


Peixes e flores estão entre as especialidades de Eduardo Lebre

A Região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro, é famosa por suas praias e dunas, que atraem milhares de turistas durante o verão. Além de desfrutarem de muito sol, beleza natural e da agitação noturna comum nas cidades que integram a região, os turistas também se deleitam com o artesanato local, exposto nas “feirinhas” e em pequenas lojas. Numa delas, em Cabo Frio, estão à venda os trabalhos do cobrador da Viação São Pedro D’Aldeia, Eduardo Pereira Lebre, 35 anos. A especialidade de Lebre, como é mais conhecido, é a pirogra-vura em madeira. São desenhos feitos com um aparelho chamado pirógrafo, uma espécie de caneta, cuja ponta em brasa e a habilidade de quem a opera fazem belos riscos na madeira ou no couro. Entre os trabalhos de Lebre expostos na loja da artesã Denise Lobato, estão peixes, patos, porta-retratos, porta-toalhas de papel, porta-guardanapos, girassol e outras flores.

O cobrador, que trabalha há nove meses na empresa, fazendo a linha São Pedro D’Aldeia – Balneário das Conchas, descobriu seu dom para a arte aos 13 anos. “Minha mãe trabalhava na casa do artesão Glauco Brasil, um paulista que veio para Cabo Frio e ficou famoso por fazer pirogravura de mapas da região, em couro. O ateliê dele era em casa. Eu cuidava do jardim, mas estava sempre observando a arte dele. Quando ele saía, eu pegava o pirógrafo escondido e começava a rabiscar uns pedaços de couro. Um dia, ele me deu um flagrante. Eu pensei que ele ia brigar comigo, mas ele gostou do meu traço e me chamou para trabalhar no ateliê. A gente participava de feiras, exposições... Chegamos a vender os trabalhos na Feira de Ipanema, no Rio. Fiquei no ateliê até os 18 anos, quando fui convocado para servir o Exército”, lembra o cobrador. “Quando dei baixa, comecei a fazer alguns trabalhos em madeira, mas não deu certo”, completa.

O sonho de ser motorista

Lebre casou cedo, aos 20 anos, deixando a casa dos pais, em Cabo Frio, onde nasceu, para viver com a esposa em Itaperuna. De sua união nasceu Monrally, seu único filho, hoje com 12 anos. Durante muitos anos, sua arte ficou adormecida. Já separado, voltou para a cidade natal, onde trabalhou como gerente de hotel e, nas horas vagas, fazia alguns “bicos”, como pintor de parede, pedreiro, eletricista e bombeiro hidráulico para aumentar a renda. Certo dia, foi pintar a loja onde hoje expõe seus objetos em madeira. “Vi os trabalhos que eram vendidos ali, gostei e propus à dona fazer outros trabalhos. Ela concordou. Deixei o hotel, peguei meu pirógrafo, levei para o ateliê dela, que fica em cima da loja e comecei a riscar as peças. Foi assim que voltei para a minha arte”, conta.

A falta de estabilidade financeira, porém, preocupava Lebre. Dois meses após voltar a fazer pirogravuras em madeira, ele resolveu procurar um emprego que lhe desse maior segurança. Bateu na porta da Viação Sali-neira e conquistou uma vaga de cobrador na Viação São Pedro D’ Aldeia, do mesmo grupo. Durante algum tempo, conseguiu conciliar a arte com a nova profissão. “As duas coisas me dão prazer, pois gosto de trabalhar com o público e a pirogravura me relaxa, é uma terapia”, explica. Mas ele acalenta outro sonho: tornar-se motorista. “Entrei para essa empresa porque sei que ela dá oportunidade da gente crescer e eu pretendo ser motorista de ônibus. Já recebi uma proposta, porém minha carteira não estava adequada à classe. Mas sei que terei uma segunda chance e não vou deixar escapar”, conta esperançoso.

   
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