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Só em fevereiro deste ano, 58 ônibus
foram atacados no Rio.
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As imagens estampadas, com espantosa freqüência, nos
jornais do Rio e a que os cariocas, infelizmente, parecem começar
a se acostumar, poderiam ter saído de um filme de guerra. Ônibus
ardendo em chamas, passageiros amedrontados, às vezes deitados
em plena via, tentando se proteger de balas ou bombas. Na TV, as
matérias levam ao ar rodoviários que têm medo
de mostrar o rosto, as vozes alteradas por recursos eletrônicos,
dando depoimentos nervosos.
Enquanto isso, autoridades tentam demonstrar à população
que suas medidas para coibir essa violência, comandada, a
maior parte das vezes, pelo tráfico, são a causa
dessas ações – o que não chega a ser
um consolo, muito menos um alívio, mesmo que se reconheça
que, nesta guerra, bravos combatentes têm tombado em defesa
da população.
O fato é que, além do medo a que o povo está submetido,
todo o segmento de transporte rodoviário de passageiros
do Estado encontra-se em alerta vermelho, com conseqüências
muito sérias para a qualidade do serviço, a auto-estima
de profissionais e clientes e para a saúde financeira das
transportadoras. Os prejuízos, só este ano, chegam
a R$ 8,24 milhões.
Os ataques a coletivos, nos últimos 5 anos, chegaram a mais
de 400 veículos atingidos.
Só neste primeiro quadri-mestre, 62 ônibus já foram
queimados e mais de 20 depredados. Ninguém agüenta
mais. A população pede socorro, enquanto as transportadoras
temem ver chegar a hora em que não terão como con-ti-nuar
prestando serviços. Já abaladas pela concorrência
desleal do transporte ilegal (que, segundo declaração
do próprio secretário de Transportes do Estado, Augusto
Ariston, em matéria veiculada em 16 de abril no Jornal do
Commer-cio, tem ligações com o tráfico de
drogas), com as frotas reduzidas pelos seguidos atos de vandalismo,
sem garantias de segurança nas ruas, onde, em alguns casos
são proibidos de colocar seus veículos pelos marginais,
os em-pre-sários encontram-se num impas-se.
Garotinho: incêndio de ônibus
será crime inafiançável
A partir de agora, suspeitos de incêndio e depredações
contra ônibus que forem presos serão indiciados por
associação ao tráfico, crime inafiançável.
Esta é uma das primeiras determinações do
novo secretário de Segurança Pública do Estado,
o ex-governador Anthony Garotinho, que tomou posse em 28 de abril último.
O policiamento ostensivo em linhas expressas como a Avenida Brasil
e as Linhas Amarela e Vermelha e a ocupação de favelas
no entorno dessas artérias são prioridade para Garotinho.
O fortalecimento das áreas integradas de segurança
e a criação de um banco de telefones suspeitos, que
poderão ser grampeados com autorização judicial,
além de ações realizadas em parceria pelos
setores de inteligência das polícias Civil e Militar
também foram anunciados.
Na cerimônia da posse, Anthony Garotinho ressaltou que dará o
melhor para não decepcionar a governadora Rosinha Matheus
e nem a população do Estado, que tem demonstrado
carinho por ele, em 20 anos de vida pública. Em sua primeira
entrevista como secretário, afirmou que a Secretaria será normatizadora,
gestora, fiscalizadora e integradora entre os órgãos
executores – a Polícia Civil e a Polícia Militar.
Esses órgãos já teriam recebido, segundo ele,
orientação quanto às diretrizes de sua gestão,
em reunião ocorrida na véspera da posse.
Rodoviários: o medo faz parte da rotina
Em sua rotina profissional, o medo está no itinerário
de motoristas e cobradores, vítimas constantes de ameaças,
assaltos e agressões. Os depoimentos falam por si mesmos.
"Não queria ficar à mercê dos
bandidos"
"
Sempre saio de casa temerosa, pensando se alguma coisa vai acontecer
no carro que eu trabalho, se vão apedrejar ou incendiar. É um
medo muito grande que a gente está vivendo. O terror está plantado.
Eu fico triste porque não queria ficar à mercê dos
bandidos, mas sei que todos nós estamos. Os ônibus
não têm mais seguro e a empresa tem que obedecer o
que eles mandam.
Márcia Maria Souza de Sá Rego, 42 anos, cobradora,
trabalha na linha 184 (Laranjeiras – Central), da Transportes
São Silvestre, onde está há seis anos e meio.
"O terror psicológico é a pior coisa"
"
Eram 5h30min do dia 24 de fevereiro e estávamos indo para
o Méier. A rua ainda estava escura quando surgiram cerca
de 30 elementos mandando o motorista parar. No início, pensamos
que era para levar alguém que estava passando mal. Mas,
depois vimos que estavam armados. Eles entraram no ônibus,
um deles colocou a arma no meu rosto e não deixou eu pegar
o dinheiro no caixa. Jogaram gasolina na minha calça e na
de outros dois passageiros, fazendo um terror psicológico
com a gente. Depois mandaram todo mundo descer, menos o motorista.
Aí atearam fogo no ônibus e só quando o fogo
começou a subir é que deixaram o motorista sair.
Só sobrou a carcaça do ônibus.
Esse dia não sai da minha mente. Fiquei com um trauma muito
grande. Pensei que ia morrer e naquela hora só lembrava
dos meus filhos. Tenho sete filhos, a mais nova tem apenas um ano.
Passou pela minha cabeça que eu nunca mais veria meus filhos.
Quando tudo acabou, agradeci a Deus por ter salvado a vida de todo
mundo que estava naquele ônibus. Os passageiros, que costumam
viajar naquele horário todo dia, até hoje, quando
passam no local comentam. Dá um frio na barriga. O terror
psicológico que a gente sofre é a pior coisa. Depois
disso, pensei em parar de trabalhar em ônibus, mas sei que
toda profissão tem seus perigos.
Simone Rodrigues da Silva, 41 anos, cobradora da linha 679
(Méier – Grotão),
da Viação Nossa Senhora de Lourdes.
Após esse fato, a empresa recolheu todos os veículos
que estavam rodando mantendo a frota inteira parada na garagem
durante todo o dia 24 e parte do dia 25.
"Consegui apagar o fogo"
"
Eram exatamente 6h50min, do dia 24 de fevereiro, quando o ônibus
que eu dirigia encostou na Praça do Rio Comprido e dois
homens se aproximaram. Um deles trazia uma garrafa na mão
e a jogou dentro do ônibus. A garrafa caiu embaixo da cadeira
da cobradora e imediatamente o ônibus ficou cheio de fumaça.
Era uma bomba caseira. Ela não explodiu, mas começou
a pegar fogo e as pessoas entraram em pânico. A cobradora
estava muito nervosa e chorando. Dentro do ônibus, tinha
muito estudante que estava indo para a faculdade. Estávamos
todos apavorados, com medo que a bomba explodisse. Todo mundo correu
e desceu do ônibus. Foi tudo muito rápido. Passou
muita coisa na minha cabeça ao mesmo tempo. Pensei em correr
como as outras pessoas, com medo que o ônibus explodisse
e incen-diasse comigo lá dentro. Mas, fiquei ali e corri
para pegar o extintor. Tirei o lacre, fiquei em pé no capô e
acionei o extintor. Consegui apagar o fogo.
Logo depois que a bomba foi atirada pela janela, uma viatura da
polícia que estava no local se aproximou e os policiais
ajudaram a tirar um estudante que estava paralisado dentro do ônibus
e também a cobradora, que não conseguiu sair, de
tão nervosa que estava. Aquele dia marcou.
Edmilson Silva Araújo, 44 anos, motorista da linha 607 (Cascadura – Estácio),
da Viação Acari.
"Nossa defesa é pedir a Deus que nos proteja"
"
Em meus 35 anos de trabalho como motorista, nunca vivi dias como
os de hoje, de insegurança e medo. No dia em que teve aquela
grande queima de carros, eu tinha saído para trabalhar.
Saí, mas fiquei impedido de voltar para a garagem. Eu e
outros dois carros que tinham saído. O restante da frota
ficou todo dentro da garagem. Ninguém mais pôde sair.
Foi um prejuízo enorme. Passei o dia trabalhando com medo.
Quando cheguei no Leblon e vi as portas do comércio fechando,
fiquei apreensivo. O risco que a gente corre no nosso trabalho é muito
grande. A gente fica exposto a todo tipo de perigo e não
tem como se defender. Nossa única defesa é pedir
a Deus que nos proteja, porque não tem como a gente ficar
trancado dentro de casa.
Isaías Monteiro de Oliveira, 48 anos, motorista da linha
511 (Urca – Leblon), da São Silvestre. Isaías
representou, durante alguns anos, o personagem Prudêncio,
considerado um motorista exemplar, de campanha educativa desenvolvida
pela Fetranspor.
Empresários: clima de guerra
É comum, entre os empresários do setor, a utilização
da palavra “guerra” para expressar como se sentem,
no dia-a-dia, ao colocarem seus funcionários e veículos
nas ruas violentas do Rio de Janeiro.
“Eles jogam combustível nos rodoviá-rios,
para evitar que eles tentem apagar o fogo”
“
Este ano já perdemos três ônibus. No ano passado,
foram nove. Isso significa perda de 8% da frota da empresa, num
período de 16 meses. O prejuízo financeiro é de
cerca de R$ 150 mil por veículo, o que equivale a R$ 1,8
milhão. Psicologicamente falando, o estresse também é grande,
pois passamos por três áreas consideradas perigosas
e todo o dia, todo o tempo, estamos em estado de alerta. Hoje mesmo,
(22 de abril) já soubemos de um ônibus da Breda que
foi incendiado na Vila São João. Já tivemos
funcionários que preferiram sair do emprego a correr risco
de passar novamente por situação desse tipo, pois,
antes de atearem fogo ao ônibus, eles jogam combustível
nos rodoviários, para impedir que eles tentem apagar o incêndio.
Um funcionário nosso chegou a queimar o pé dessa
forma.”
Francisco Abreu, diretor da Viação Vila Real.
“Estamos em guerra e não sabemos quem é o
inimigo”
Nós estamos em guerra. O Rio de Janeiro está em guerra.
A nossa guerra é mais antiga do que a do Iraque, mas ainda
não foi declarada formalmente. Ela não está nos
jornais ou TVs com o destaque ou espaço da outra, porém é muito
mais presente, real, e por que não dizer, mais sanguinária
que a cruzada de Bush e Blair. Nossa guerra se faz com paus, pedras,
bombas caseiras, coquetéis Molotov, AR 15, corrupção,
impunidade, barricadas, incêndios, inércia, burocracia,
leis caducas e balas, muitas balas perdidas. Nossos profissionais
trabalham com medo, a população vive com medo, e
nem ao menos sabemos quem é o nosso inimigo.
Humberto Valente, diretor da Viação Nossa Senhora
de Lourdes, empresa que, este ano, teve dois ônibus queimados
(um no dia 24 de fevereiro e outro no dia 10 de abril) e durante
quase dois dias inteiros (24 e 25 de fevereiro) não pôde
colocar sua frota a serviço da população.
Usuários: às vezes, o melhor remédio é ficar
em casa
A qualquer sinal de ação dos traficantes, a opção
de muitos usuários é a de permanecer em casa ou,
caso já estejam na rua, voltar imediatamente. Dessa forma,
sentem-se mais seguros.
“Acho estranho esses ataques aos ônibus”
Já cansei de entrar em ônibus e achar que tem alguma
coisa estranha e saltar em seguida para pegar outro. Eu fico sempre
atenta. E quando começa essa coisa de fechar tudo, eu tranco
o escritório e vou para casa na mesma hora. Eu acho muito
estranho esses ataques aos ônibus. Por que só queimam ônibus,
não queimam carros, não queimam vans? Engraçado
isso, né? Acho isso um absurdo.
Libânia Gregório, 48 anos, contadora.
“Não existe perspectiva de melhorar”
“
Todas as vezes em que há qualquer ameaça de fecharem
o comércio, eu não saio para atender meus clientes.
Fico trabalhando em casa. Ultimamente, quando entro num ônibus,
já fico com um olho no padre e outro na missa. Se entra
alguém que me cause qualquer desconfiança, eu calmamente
faço sinal e desço no ponto seguinte. O que está acontecendo
no Rio é alarmante, é preocupante e não existe
perspectiva de melhorar. Essa história de incendiar ônibus
afeta diretamente à população, que fica presa
dentro de casa, sem poder usar seu direito de ir e vir”.
Ney Moura, 42 anos, professor e técnico de informática.
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