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Gratuidade: governos instituem, mas não
pagam a conta.
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O sistema de transporte urbano por ônibus do Estado do Rio
de Janeiro está vivendo em crise há vários
anos. Uma crise sem precedentes. Já são muitas as
empresas que estão fechando seu balanço mensal com
prejuízos. Já são muitas as empresas que,
ano após ano, não conseguem apresentar resultados
que permitam novos investimentos. Já são muitas as
empresas cujas frotas começam a se deteriorar. Já são
muitas as empresas que estão demitindo funcionários.
Algumas já entregaram concessões de linha, outras
pretendem fazê-lo. No município de Campos dos Goytacazes,
a situação não é diferente. Ao contrário, é ainda
mais grave. As 14 empresas que operam no transporte municipal e
intermu-nicipal, sendo a maior parte – 80% – de linhas
municipais, estão em situação “caótica”.
O adjetivo foi usado pelo presidente do Sindicato das Empresas
de Transportes de Passageiros de Campos (Setranspas), Gilson Alves
Menezes, para explicar a grave crise do transporte no município,
que hoje emprega cerca de duas mil pessoas.
Gratuidade
Segundo um estudo da Prefeitura de Campos realizado em 2000, são
quatro os principais fatores que aceleraram essa crise: gratuidade,
transporte clandestino, tarifa baixa e alta carga tributária. “O
mais grave problema é o excesso de gratuidade sem qualquer
controle ou fiscalização”, afirma Me-nezes.
Em Campos, além dos idosos, deficientes com acompanhantes
e estudantes da rede pública municipal, estadual e federal
viajarem de graça, também têm direito à gratuidade
policiais em geral, professores da rede municipal, entre outros.
Mas, o problema vai além da gratuidade permitida por lei. “Em
virtude da falta de controle, basta ter um uniforme de estudante,
facilmente comprado numa loja, e uma carteirinha, que também é facilmente
adquirida, que se está autorizado a viajar de graça.
Grande parte da comunidade viaja gratuitamente com carteiras falsas.
Já houve caso de uma instituição educacional
vender a carteira. E há muitos casos de pessoas que se matriculam
numa escola no início do ano apenas para obter a carteira
e depois abandonam os estudos, mas continuam fazendo uso da gratui-dade
na categoria de estudantes”, esclarece o presidente. Por
isso, a gratuidade em Campos está em torno de 52% a 55%,
acima da média do Estado do Rio, que é de 40%. “Tem
linhas que chegam a transportar 65% de passageiros não pagantes”,
completa Menezes.
Transporte clandestino
O transporte clandestino feito por kombis e vans, segundo problema
apontado pelo estudo da prefeitura sobre a situação
do transporte coletivo na cidade, também tem implicações
que vão além da simples concorrência ilegal.
Em 1997, por força de lei municipal, as empresas e a Prefeitura
assinaram um contrato de concessão das linhas por 20 anos
a partir daquele ano e pagaram caro por isso. “A prefeitura
cobrou o equivalente a 3,422 mil dólares das empresas para
dar a elas o direito à operação das 135 linhas
do município. Esse mesmo município, através
de portarias, tem colocado o transporte clandestino particular
nas linhas das concessioná-rias”, afirma o presidente
do Setranspas. Menezes acredita que, só no serviço
municipal, já existam entre 150 e 200 kombis e vans operando,
sendo que apenas 30% estão autorizadas pelo poder público. “Sem
falar nos carros particulares que também fazem as famosas
lotadas”, lembra.

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“Há empresas que, para abastecer,
precisam primeiro arrecadar".
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Tarifa baixa e impostos altos
O terceiro problema, considerado um dos vilões da crise
em Campos, é o baixo valor da tarifa. Em março deste
ano, era de R$ 0,90 a tarifa básica, para um raio de 12
quilômetros percorridos. “De acordo com nossa última
planilha, o custo da tarifa é de R$ 1,73. Ou seja, em virtude
do baixo número de passageiros pagantes, se a tarifa for
rateada, seu custo será de
R$ 1,73. A conta é simples, quanto mais pessoas pagando
a passagem, menor o seu valor”, explica Me-nezes. Isso quer
dizer que, na verdade, quem está custeando a gratuidade
são as próprias empresas, já que o valor da
tarifa é de apenas R$ 0,90. Fechando a lista dos problemas
identificados pelo estudo da Prefeitura está a alta carga
tributária. “Pagamos 8,5% de impostos municipais,
que são basicamente o ISS e o Fundo de Trânsito – Funtrans”,
revela o presidente.
Frota velha e salários atrasados
Todos esses fatores aliados estão levando as empresas de
Campos ao que Menezes chamou de estado “caótico”.
Um dos principais sintomas é o envelhecimento da frota.
Em 2000, a vida útil dos 370 veículos que operam
o transporte municipal era de 6,2 anos em média. Hoje já chega
a 7,5 anos. A conseqüência disso é um custo de
manutenção cada vez mais alto para as empresas. Para
a população, a conseqüência é um
serviço que não apenas perdeu em qualidade, mas que
corre o risco de não poder mais ser operado. “As empresas
estão em estado pré-falimentar. Temos empresas que
estão com os salários de seus funcionários
atrasados há cerca de quatro meses. No final do ano passado,
uma delas enfrentou greve de trabalhadores devido à falta
de pagamento dos salários. Há empresas que, para
abastecer, precisam primeiro arrecadar, pois não têm
dinheiro sequer para encher de diesel os tanques dos ônibus.
E quando uma empresa chega a uma situação dessas é porque
já está repactu-ando o pagamento de outros compromissos,
especialmente de fornecedores. A persistir este quadro, dentro
de mais alguns meses, algumas empresas podem deixar de operar por
absoluta falta de condição”, prevê.
“
Empresas estão quebradas”
O Setranspas calcula que, de 1992 até hoje, as empresas
vêm perdendo cerca de 5% de passageiros pagantes ao ano.
O Sindicato já travou duras batalhas na justiça,
esperando obter, do poder público, definição
de fonte de custeio para suporte dos encargos de assistência
social, como é do dever constitucional. A Prefeitura do
município já deu um primeiro passo, reduzindo o ISS,
porém o valor, segundo avaliação do segmento
empresarial, está muito aquém do necessário
(0,5% do ISS, para cobrir gratuidade que hoje atinge a 55%). A
gente vive lutando na justiça para tentar mudar essa situação,
mas nada tem adiantado. As empresas de Campos estão quebradas”,
conclui.
Magé: sociedade se une para tentar evitar que população
fique sem ônibus
Os números falam por si: uma queda no número de
passageiros de 1 milhão/mês, em 1995, para atuais
555 mil. Quatro linhas a menos e frota que diminuiu de 54 ônibus,
com idade média de dois anos e meio, para 44, com idade
média de 8 anos.
Nesse meio tempo, o que mudou? O transporte clandestino surgiu,
foram criadas gratuidades no transporte sem a criação
de uma fonte de custeio que cobrisse o benefício e o sistema
de transporte, como um todo, passou a apresentar claros sinais
de doença que, se não tratada, pode matar o paciente.
Este quadro, em graus de maior ou menor gravidade, existe em todo
o país.
Em Magé, em meio à situação de quase
naufrágio, o empresário Eduardo Jorge Morgado resiste
bravamente. Em reunião ocorrida em 31 de março último,
numa comunidade carente da região, eram reivindicados mais
horários de ônibus, para atender os estudantes da
localidade. Após explicar que a linha atendia quase que
exclusivamente usuários que não pagam passagem, ele
obteve a concordância dos próprios reclamantes, que
Perceberam a inviabilidade do que pleiteavam. Mas concordou mesmo
assim. Com a voz traindo a emoção e o semblante preocupado,
explica suas razões: “boa parte dos estudantes vai
ficar sem aulas. Somos um país pobre, e a educação é a
solução para a maior parte dos nossos problemas.
O transporte coletivo cumpre um papel social muito importante.”
O empresário alerta que o transporte tem de ser visto como
um todo, um sistema, e que precisa funcionar de forma técnica.
Ele reconhece que o atual governo do município busca soluções
por esse caminho, e que organizações locais, como
a Asso-cia-ção Comercial, entenderam a relevância
da responsabilidade social que o transporte coletivo detém
(a Primavera, empresa dirigida por Morgado, tem 58% dos seus passageiros
usufruindo de gratuidade). Só não sabe se ainda dá tempo
de salvar o barco – no caso, os ônibus. E acrescenta:
ou o sistema muda, ou acaba. Na tentativa de salvar esse sistema,
a prefeita Narriman Zito, o empresário, dirigentes do sindicato
dos rodoviários local, da Associação Comercial,
funcionários da Primavera e representantes do transporte
complementar operado por kombis no município têm participado
de reuniões e unido esforços. Todos querem evitar
que Magé repita a situação de Cachoeiro de
Macacu, que conta hoje apenas com precário serviço
operado pela Prefeitura, porque a empresa transportadora que atendia à população,
depois de alguns anos no vermelho, entregou as linhas ao poder
público. As vans e kombis ilegais percorrem apenas os trechos
interessantes economicamente e a empresa governamental passa pelas
dificuldades que a iniciativa privada não conseguiu superar.
Consciente da gravidade da situação, Morgado não
perde a visão do todo: “precisamos chegar a uma solução
para o problema global. Salvar minha empresa é conseqüência.
A necessidade é salvar o sistema, afirma questionando se
a sociedade vai esperar que aconteça com os ônibus
o mesmo que aconteceu com os trens, que chegaram a um nível
de degradação insustentável, até que
se voltasse a investir no modal.
Lamentando profundamente a situação de seus funcionários,
com salários atrasados, ele desabafa: o dono do meu negócio é o
poder público. A ele cabe operar o transporte, a ele cabe
definir as regras. Eu sou um delegatário, mais um funcionário
desta empresa, só que com muito mais responsabilidade do
que os demais. O problema que atravessamos não é um
problema da empresa, mas do poder público, da comunidade
e de toda a sociedade civil organizada”. Se a iniciativa
privada não tem condições de oferecer transporte à população,
a quem caberá essa enorme responsabilidade social?, questiona,
lembrando, mais uma vez, que, não estivesse a Primavera
assumindo o ônus de manter uma linha apenas para estudantes
que não pagam, esses menores estariam sem acesso ao estudo.
Para isso, ressalta, é preciso que se mantenha o equilíbrio
nas linhas mais rentáveis. É preciso que o transporte
alternativo funcione respeitando as regras do jogo, sem clandestinidade,
e que todos cumpram seu papel à risca.
Diante da gravidade da situação e da importância
do transporte no processo de educação do município,
onde existem instituições de primeiro e segundo graus,
a Prefeitura tenta reordenar a oferta de transporte, tendo feito
algumas reduções de horários.
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