| Luiz
Carlos de Urquiza Nóbrega -
Superintendente da Fetranspor

Entre as coisas mais habituais na
vida cotidiana do povo brasileiro, o ônibus certamente
deve ocupar papel destacado.
Com
efeito, desde as grandes metrópoles, como São
Paulo e Rio de Janeiro, às mais longínquas vilas
e aldeias espalhadas pelos sertões e até por algumas
cidadezinhas nas florestas ligadas pelas transamazônicas
da vida, ali está o ônibus na rua ou na estrada,
a apanhar crianças, mulheres, homens, gente de todas as
raças
e idades, cada qual embarcando para um destino, muitos para um
sonho. É tão comum essa presença desse veículo
de locomoção coletiva, que às vezes o associo
ao jumento, mamífero que o Aurélio define como “animal
facilmente domes-ticável, muito difundido no mundo e utilizado
desde os tempos imemoriais como animal de tração
e carga”. Não que eu esteja a usar a comparação
naquele sentido que também o vernáculo contenta
como indivíduo muito bruto ou burro. Emprego a comparação
em tentativa de mostrar que, sendo tão úteis, ônibus
e jumentos muitas vezes são incom-preen-didos, injustiçados,
açoitados.
Deixemos de lado, contudo, essa comparação aparentemente
despropositada, para lembrar algumas historinhas que marcam situações
tão correntes, tão comuns, a bordo de ônibus.
Comadre Severina, recém chegada a São Paulo, vinda
dos sertões paraibanos, embarca com o menino José,
de seis anos, no ônibus da linha 46, da então CMTC,
e o cobrador, atento à cobrança da passagem, logo
indaga:
–
De quem é esse menino?
Comadre Severina, repetindo costume nordestino de uso do plural,
responde, para espanto de muitos passageiros:
– É nosso.
O cobrador, assustado, brinca com a pobre nordestina:
–
Moça, nunca dormi com você!
Há também aquela história em ônibus
no Rio, de Cascadura para o Centro, em que aquele velhinho, no
conforto do seu banco, se constrange em ver aquela bela moça
em pé ao seu lado e não se contendo pergunta:
–
Moça, quer sentar no meu colo?
A jovem, meio encabulada, mas estando assediada por tantos homens
ao seu redor, discretamente senta no colo do velhinho e segue
a viagem em zig-zag pelas ruas cariocas. Mas chega o momento
em que
o velhinho, meio sem jeito, bate no ombro da moça e diz:
–
Menina, por favor se levante, que já não estou tão
velhinho assim!
E aquele cearense, muito educado, viajando em ônibus, na
bela Fortaleza, de repente tem ao seu lado elegante senhora, vamos
dizer “perua” pelo seus exageros e que de pé se
coloca ao lado daquele passageiro. E este, procurando ser gentil,
diz para a senhora:
– Madame, sente aqui no meu lugar!
A mulher, orgulhosa, diz sobre os ombros do educado cearense:
– Deixe esfriar para eu sentar.
A resposta vem de imediato:
–
Então dona, enquanto esfria, vou aproveitar para sentar
mais um pouco!
E assim, milhões de pequenas histórias são
vividas a bordo do ônibus-jumento, tão incompreendido
e tão útil.
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