"O incêndio de ônibus é decorrente de um processo anárquico que está se instalando em nosso país"
Entrevista
  Por Sílvio Rabaça e Suzy Balloussier

Arolde de Oliveira: transporte tem lado social e lado empresarial.

 

O secretário municipal de Transportes, Arolde de Oliveira, não tem dúvidas quanto à necessidade de racionalização do sistema de transportes do Rio de Janeiro. Em sua opinião, qualquer mudança terá de ser feita de forma negociada, por meio de uma gestão complexa, que exige tanto o aprimoramento tecnológico quanto a melhoria da fiscalização e a integração intermodal. “As empresas de transporte precisam ter saúde financeira para investir na renovação e na melhoria da frota”, afirma, reconhecendo, no entanto, que a conjuntura não é favorável.

Tarifa política

O transporte público não é o que a maioria das pessoas imagina. Ele possui uma característica social essencial, mas precisa ser visto também do ponto de vista empresarial. Hoje, não só no Rio de Janeiro, mas em outros lugares, há uma série de circunstâncias agravantes. O índice de passageiros por quilômetro cai cada vez mais. Há o problema do aumento desenfreado dos combustíveis. A transição de um passado, em que as tarifas cobriam as despesas, para um presente, no qual se verificam a perda de passageiros e um aumento contínuo dos insumos, cria transtornos. E por conta do impacto social dos transportes, a tarifa não pode acompanhar. A tarifa é política.

Gratuidades

As empresas de transporte estão sofrendo uma concorrência predatória com o surgimento das kombis e vans ilegais, que já ocupam de 25% a 30% do mercado. As gratuidades são outro fator de desequilíbrio para as empresas, pois o seu custo não está previsto nas passagens. A quantidade em que elas são dadas no Rio Janeiro é excessiva. Hoje, quem paga as gratuidades são as próprias empresas de ônibus.

Racionalização

A racionalização do sistema de transporte por ônibus terá de ser feita através de um entendimento amplo de todas as partes envolvidas. Temos de instituir corredores segregados para ônibus, com obras, fiscalização eletrônica e outras melhorias. Na questão do transporte clandestino, que é um problema real, é preciso circunscrever esse universo. Na medida em que regularizarmos as kombis e vans, elas passarão a ser aliadas no combate à clandestinidade.

Fiscalização

Nossa maior dificuldade é a fiscalização. O clandestino não paga imposto, não tem compromisso nem encargos sociais, não é controlado por nada. Estamos fazendo um esforço enorme de repressão, apreendendo mais de 1.000 veículos ilegais por mês em nossos depósitos. Temos 6 mil kombis e vans sendo regulamentadas no Rio de Janeiro, mas, em compensação, há duas vezes esse número em veículos que vêm dos municípios vizinhos.

Incêndio de ônibus

O incêndio de ônibus é decorrente de um processo anárquico que está se instalando em nosso país, em uma total inversão de valores. O ônibus tem forte impacto sobre a sociedade, pois mexe com necessidades imediatas. Se uma pessoa não pode se deslocar, ela se sente desconfortável. Que melhor maneira de gerar uma reação contra as autoridades constituídas do que queimar ônibus? Essas coisas fazem com que o custo do serviço colocado à disposição da população do Rio de Janeiro se torne ainda mais alto.

Montadoras

As montadoras de automóveis estão entupindo as cidades com um produto que não agrega valor tecnológico ou econômico. Geram empregos, é verdade, mas cada vez menos. Elas são o lixo da globalização. Em matéria de criar problemas para os países em que se instalam, são tão danosas para a sociedade quanto o lixo atômico. Qualquer ambien-talista sabe disso, mas essa é uma questão ideológica: hoje, somos escravos do petróleo e do motor a combustão.

Corredores de ônibus

Estamos dando prioridade ao corredor Ilha-Centro. Haverá uma estação terminal no bairro da Portuguesa de onde partirá uma via segregada para ônibus expressos passando pelo Fundão, que sairá na Avenida Brasil e virá para o Centro da cidade. Em Deodoro temos a previsão de um outro terminal para as pessoas que vêm da Zona Oeste. Todo o sistema de controle eletrônico já está contratado.

Integração

A integração é fundamental. Temos conversado com o Governo do Estado sobre uma parceria para instalar um terminal rodo-ferroviário na Leopoldina, o que ajudaria a revitalizar a área. Este terminal receberia os passageiros dos ônibus e dos trens e, a partir dali, eles contariam com um sistema de bondes ou de ônibus circulares.

Panamericano

A Prefeitura fez uma proposta ao Governo do Estado para construir a linha 6 do metrô, visando aos Jogos Panamericanos de 2006, mas não houve concordância. Como alternativa, o Prefeito determinou que se fizesse um estudo para o transporte de superfície, partindo provavelmente da Penha até a Barra da Tijuca. Estamos no momento realizando o estudo de viabilidade e preparando a modelagem da concessão. Deveremos lançar até maio também a licitação da Via Light, que começa em Nova Iguaçu e vai até a Pavuna.

Carga e descarga

Está em fase de estudo uma plataforma logística para aliviar o trânsito da Av. Brasil. Seria um ponto de reorganização das cargas no porto do Caju, onde elas passariam de caminhões pesados para veículos menores. Aí poderemos racionalizar a carga e descarga em nossa cidade.


   
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