Livia Fernandes
Pereira (engenheira de produção UFRJ,
Mestre em Ciências COPPEAD-UFRJ)
Willian Aquino (engenheiro civil, Mestre
em Ciências, Diretor da ANTP – Associação
Nacional de Transportes Públicos)
Nara Mothé Antonio Maia (engenheira
civil, MBA IME, Diretora da PROATIVA Estudos e Projetos Ltda)
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Na primeira quinzena de março de 2003,
realizou-se em Quito, no Equador, reunião da União
de Cidades Capitais Ibero-Americanas, com propostas para melhoria
da qualidade de vida, especificamente no que tange aos transportes
urbanos.
Notou-se tendência, da maior parte das capitais latino-americanas,
de implantar corredores com faixas ou pistas de prioridade para
os transportes públicos, assim como de regulamentar e controlar
as linhas de ônibus, principalmente pela adoção
do chamado "modelo brasileiro de transporte público",
cujo maior destaque internacional ainda é a cidade de Curitiba.
Várias cidades vêm apontando Quito (corredor estrutural
com pista exclusiva e sistema integrado tronco-alimentado) e Bogotá
(Transmi-lênio) como novos exemplos de sucesso a serem seguidos.
Alguns países ressaltaram as dificuldades enfrentadas para
restaurar seus sistemas urbanos, após processos de desregulamentação
cuja reversão tem levado a enormes custos urbanos, advindos
de congestionamentos e da disputa de espaço nas vias pelos
veículos, em detrimento dos cidadãos.
As capitais européias destacam-se pela adoção
de medidas buscando mobilidade e acessibilidade para melhor qualidade
de vida para a população urbana. Exemplos de sucesso:
Londres, com o pedágio para automóveis na área
central; Barcelona e Madri, com ambiciosos planos para melhoria
da mobilidade; e Genebra, com altos padrões de transportes
públicos, mobilidade e qualidade de vida.
Observa-se que existem três grandes enfoques:
• Aqueles que estão parados face à crise do
setor, angustiados, perplexos e sem saber o que fazer, em função
da perda de demanda nos transportes públicos, aumento dos
congestionamentos e da quantidade de veículos privados nas
ruas.
• Os que estão correndo atrás de uma solução,
procurando implantar corredores para aumentar a fluidez dos transportes
públicos e reduzir os acidentes.
• E os que correm à frente do problema, considerando
o transporte urbano como uma questão de mobilidade da população
e de qualidade de vida, respeitando o meio ambiente, sem visar apenas
ao aumento da velocidade dos veículos.
• Conclui-se que, de um novo conjunto de linhas de atuação,
poderá surgir uma nova cidade, com transporte mais humano,
mais próximo daquilo que a ANTP tem defendido. A sugestão
é de adoção de medidas que, em curto prazo,
possam melhorar as nossas cidades e suas áreas de entorno.
Dentre estas medidas, destacam-se:
• Transporte coletivo integrado e de qualidade, mantendo-se
as velocidades de deslocamento e melhorando-se a do transporte público
de superfície;
• Aumento da superfície e da qualidade do espaço
urbano dedicado aos pedestres.
• Aumento do número de lugares para estacionamento
e melhoria da qualidade destes espaços.
• Melhoria da informação e comunicação
aos usuários da via pública.
• Regulamentação adequada à mobilidade
na cidade.
• Aumento da segurança viária e do respeito
entre os usuários dos diferentes modos de transporte.
• Uso de combustíveis menos poluentes e controle da
poluição causada pelo tráfego.
• Incentivo do uso da bicicleta como modo habitual de transporte.
• Distribuição urbana de mercadorias ágil
e ordenada.
Em síntese, é imprescindível a mobilização
dos vários setores envolvidos, para que o transporte possa
ser visto como um importante instrumento de política urbana.
O automóvel tem seu espaço e importância, mas
a necessidade de se reduzir as perdas advindas dos deslocamentos
nas cidades é premente. O transporte desorganizado, ou mal
planejado, é como um ovo de serpente em casa. Com o passar
do tempo, vai surgir dali um monstro de difícil convivência
ou eliminação.
Muitas já são as cidades com situações
praticamente insuportáveis, devido à grande deterioração
dos transportes. Os custos e qualidade de vida em tais cidades mostram
até onde se pode decair pela falta de previsão dos
problemas a que está sujeito o setor de serviços urbanos.
Não devemos nos desviar da preocupação com
a melhoria dos transportes urbanos, já que testemunhamos
mudanças de hábitos da população, que
tem modificado seus deslocamentos por uma série de motivos,
como o uso de internet e a realização de atividades
de lazer, estudo e trabalho mais próximos de casa.
Para alguns, podemos estar sendo como Dom Quixote, atacando moinhos,
pensando em monstros inexistentes, já que as prioridades
atuais parecem ser outras.
Mas para aqueles que, todos os dias, precisam sair de casa para
o trabalho e gastam 3 horas dentro dos transportes, estes moinhos
existem e moem, não os grãos para fazer farinha, mas
suas vidas e as de suas famílias.
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