| Nazareno Stanislau Affonso
|
Por Marcos Machado
e Gabriela Guimarães |
Exclusão social e má
qualidade de vida nas cidades, estes são os resultados da
falta de investimentos em transportes públicos, denuncia
o vice-presidente da ANTP – Associação Nacional
dos Transportes Públicos. Vans ilegais, gratuidades indevidas
e o crescimento do uso do automóvel estão refletindo
nas tarifas, que poderiam ser mais baratas. Nesta entrevista, Nazareno
defende que impostos já existentes, como o IPVA, que incide
sobre automóveis, e a Cide (Contribuição de
Intervenção no Domínio Econômico), sobre
combustíveis, sejam utilizados para reverter esse quadro
e aponta exemplos bem sucedidos, como o dos trens metropolitanos
em São Paulo.
R.O.: Fatores como desemprego,
preço alto das tarifas, concorrência do transporte
ilegal e facilidades crescentes para aquisição de
automóveis têm tirado passageiros do transporte público.
A Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano
(NTU) tem defendido o barateamento da tarifa como forma de reconquistar
passageiros. Qual a opinião da ANTP?
N.S.: O barateamento
é uma medida urgente que tende a acontecer. Há oito
anos não se discutia isso, pois não havia, por exemplo,
o transporte clandestino, que fez agravar o rateio dos custos dos
transportes com a perda de passageiros. O poder público tem
que regulamentar esse tipo de transporte para que não haja
concorrência. Também existem novas gratuitades aumentando
o custo do transporte. Mas pensar no barateamento da tarifa não
é pensar apenas na redução de gratuidades.
Envolve uma medida global com ações integradas de
municípios, estados e governo federal. A ANTP tem trabalhado
para unificar as propostas do setor e no ano passado, em conjunto
com a NTU, procurou o governo federal propondo correções.
O transporte por ônibus é um dos setores que mais emprega
e é um serviço essencial. Ainda assim não tem
nenhum tipo de isenção de impostos. A NTU reivindica
que as empresas sejam liberadas ao menos das taxas de gerenciamento
cobradas por órgãos públicos.
A Taxa de Gerenciamento Operacional (TGO) costuma ser de 2% a 5%.
Em algumas cidades chega a 6%. Mas outros itens teriam maior impacto
no barateamento da tarifa, como o diesel e a redução
das gratuidades. Também existem os impostos sobre veículos
-individuais e a Cide-Combustíveis que podem ser utilizados
para subsidiar o transporte. Sem a TGO, os órgãos
gestores ficariam enfraquecidos.
R.O.: A NTU defende que usuários
de automóveis particulares sejam sobretaxados no preço
da gasolina para subsidiar o diesel do transporte público.
Essa é uma solução para a questão do
diesel?
N.S.: A Cide tem esse
papel, pois parte de seus recursos é direcionada para a infra-estrutura
de transportes. Mas eles estão centrados na recuperação
de rodovias, que estão realmente em situação
grave. E o transporte rodoviário não é o único
prejudicado pela política energética. A tarifa de
eletricidade aumenta nos horários de pico, o que prejudica
a operação dos trens e do metrô.
R.O.: Os empresários de transporte
do Rio de Janeiro argüiram na Justiça a constitucionalidade
da lei estadual que concede gratuidade a idosos e estudantes. O
Tribunal de Justiça do Estado derrubou a Lei, por 17 votos
a 1 e os empresários e o governo do Estado buscam de forma
conjunta uma forma de custear essas gratuidades. De que forma os
benefícios da gratuidade podem ser preservados sem tornar
a tarifa mais cara?
N.S.: Não é
justo o usuário pagar pela gratuidade. É necessária
uma política de custeio. A saúde e a educação,
por exemplo, recebem recursos com destinação permanente,
enquanto que do transporte é o mercado que cuida. O transporte
também é um serviço social. Já o automóvel,
que é individual, recebe investimentos na forma de novas
vias e estacionamentos, como se fosse um direito social. Os governos
estaduais podem destinar parte do IPVA para uso no transporte público,
como foi feito em São Paulo para recuperação
dos trens metropolitanos.
R.O.: Em Londres, o pedágio
urbano instituído pela prefeitura no centro da cidade reduziu
os congestionamentos em 20% e colocou 300 ônibus a mais em
circulação no horário de pico. Apesar de cheios,
o atraso caiu pela metade. Cerca de R$ 493 milhões arrecadados
com o pedágio e multas serão reinvestidos no transporte
público. O prefeito londrino, de início severamente
criticado, começa a receber elogios. Esta é uma boa
alternativa para cidades brasileiras?
N.S.: O pedágio urbano utiliza melhor a frota,
mas seria necessário primeiro se abrir um debate sobre sua
aplicação. Em São Paulo está sendo discutida
a implantação do corredor monitorado. São faixas
exclusivas com câmeras e, ao avançar, o carro é
multado. Isso retira espaço dos automóveis, que chegam
a ocupar 90% das vias. Mas os políticos têm medo de
mexer com os privilégios do automóvel. Existe o projeto
de implantar 170 quilômetros de corredores monitorados até
o final deste governo com recursos do BNDES. Mas já existe
o "Via Livre" que consiste no mesmo projeto, só
que monitorado por fiscais, enquanto os recursos não são
aplicados para a instalação de câmeras e divisórias.
R.O.: Muitas pessoas estão
fazendo seus deslocamentos a pé, de bicicleta ou dormem durante
a semana nas ruas da cidade, indo para casa só aos fins de
semana. As tarifas estão causando exclusão social?
N.S.: Estão causando exclusão social,
é óbvio. Técnicos do IPEA mostram, baseados
em dados do IBGE, que as pessoas que ganham um salário mínimo
não têm condições de usar o transporte
público. O máximo que podem pagar é uma tarifa
na segunda-feira e outra na sexta. Em São Paulo, quem não
tem emprego não pode usar o transporte público e se
torna o que chamamos de andarilho urbano, com menos chances de vender
sua força de trabalho. É um círculo vicioso
porque a família não sai por dificuldade de locomoção.
Pesquisas mostram que muitas pessoas que moram na região
metropolitana de São Paulo não conhecem o centro da
cidade.
R.O.: Apresentando-se como uma alternativa
de transporte, as vans e Kombis lotearam as ruas das cidades. O
senhor acredita que exista um espaço para este tipo de transporte?
N.S.: O transporte alternativo tem que ser alimentador
do sistema e não concorrente, com áreas próprias
de atuação. Em Porto Alegre existe esse modelo. As
propostas para definição de áreas de atuação,
geralmente, estão marcando áreas que não são
prioritárias. Retrocedendo na história, vemos os prejuízos
causados à coletividade pela concorrência entre os
modais, como ocorreu no Rio de Janeiro entre ônibus e bondes
e, em Porto Alegre, entre trens e ônibus. O transporte alternativo
não pode ter esse posicionamento, deve ser semi-integrado,
ou o transporte público fica fraco.
R.O.: O senhor é conselheiro de uma ONG que procura conscientizar
as pessoas para abandonar o automóvel e usar o transporte
público. Por que o automóvel faz mal às cidades?
N.S.: O Instituto
Rua Viva é um instituto de mobilidade sustentável
filiado à ANTP. O automóvel tem gerado mazelas com
custos crescentes em poluição, congestionamentos,
acidentes e mortes. Apesar de pertencerem à minoria, continuam
tendo prioridade em investimentos que são pagos pela coletividade.
Os acidentes são um flagelo na vida do país. As mortes
no trânsito são em quantidade igual ou superior às
causadas pela violência urbana. Os custos na saúde
pública com acidentes estão na ordem dos bilhões.
São milhares de brasileiros feridos por ano, alguns com deficiência
permanente. Isso é o resultado de uma política pública.
É necessária análise do veículo, do
tipo de via e punição dos delinqüentes. Os responsáveis
por mortes de pessoas em acidentes de carro são criminosos
que merecem punição.
A saúde pública também é afetada pelos
custos com a poluição. Claro que nossas grandes cidades
não chegam ao nível da Cidade do México, onde
a poluição é escabrosa. Mas novamente há
desigualdade no uso da via pública, por onde o pedestre passa
e se contamina, desenvolvendo complicações respiratórias
sem ter culpa do excesso de poluição.
O Rua Viva coordenou a Jornada Brasileira Cidade Sem Meu Carro,
este ano em sua 3ª edição. Essa jornada foi uma
criação da União Européia para criar
o Dia Nacional da Cidade Sem Meu Carro, a ser comemorado em 22 de
setembro, quando se diminuiria o número de carros nas ruas.
O uso correto do automóvel é o que não causa
ocupação desigual do espaço público
nem recebe privilégio de investimentos. A imprensa pode cooperar
dando maior importância à cobertura das questões
do trânsito e do transporte público. |