Pátria
sobre rodas
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Artigo
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Cláudio de Senna Frederico
Vice-presidente da Associação Nacional de Transportes
Públicos
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 “É
hora de aplicar bem o dinheiro público no ‘coletivo’, esse grande
distribuidor de renda” |
Há tempos cunhou-se a expressão "pátria de chuteiras" que procurava identificar a distorção entre a popularidade do futebol e percepção dos reais problemas brasileiros e suas soluções. O estado de espírito, a auto-estima e o nível de esperança dos brasileiros flutuava, por essa teoria, junto com os resultados da seleção ou do time preferido.
Hoje pode-se observar algo semelhante quando se trata do nível de produção e emprego na indústria automobilística, que tem sempre o poder de mobilizar o governo a abrir mão de seus impostos, com os quais poderia melhorar outros setores e serviços, para possibilitar a sustentação de um volume maior de vendas dos automóveis e conseqüentemente dos empregos em suas fábricas.
Ora, se todos os seus custos forem calculados, o automóvel
já é um dos produtos mais subsidiados do planeta, com
conseqüências negativas sociais e deformações
urbanas estarrecedoras. Pelos cálculos mundiais, seu comprador
desembolsa de 10 a 20% do total de seus custos e o restante é
pago coletivamente por toda a sociedade, sendo que no Brasil nem sequer
a maioria possui renda suficiente para ter o privilégio desse
subsídio volumoso.
Ruas e estradas precisam ser construídas, exércitos
de policiais precisam ser mantidos para reduzir seus danos e para
garantir sua propriedade. Hectares de terra precisam ser separados
para utilização esporádica da frota e para que
fique parada aguardando o próximo congestionamento. Grande
parte da rede hospitalar pública existe para atender sua legião
de acidentados, sendo que no Brasil 80% são pedestres, e não
motoristas. São os maiores responsáveis pela poluição
urbana e mudanças climáticas terrestres e são
a forma mais ineficiente de utilização da energia para
obter o deslocamento, além de constituírem a forma mais
insegura de viajar.
Politicamente, por serem accessíveis às camadas mais bem remuneradas da população, seu direito de uso é confundido com o direito constitucional de ir e vir. Se isso fosse verdade, teriam que ser distribuídos gratuitamente, assim como a educação e a saúde pública, para que todos pudessem utilizar. Felizmente, esse absurdo ainda não foi pleiteado em qualquer local do mundo e tampouco seria viável atendê-lo.
Outro aspecto interessante é que a indústria dos automóveis
cada vez mais emprega menos pessoas para realizar a sua produção,
fato claramente perceptível até mesmo em seus anúncios,
que hoje brincam com cenas internas de fábricas em que a única
forma humana perceptível é das lindas modelos abraçadas
por robôs humanizados e simpáticos.
Só para ilustrar, vamos lançar uma campanha pela redução
dos impostos sobre os cigarros e bebidas alcoólicas? Esses
sim são produtos infelizmente populares, poderíamos
então incentivar seu consumo e o aumento de empregos. O resultado
certamente seria rápido inclusive nas áreas de saúde
e de segurança, também muito "beneficiadas"
pelo aumento da frota de automóveis.
Enquanto isso, o transporte público, que realmente realiza
o transporte do brasileiro, muitas vezes em condições
precárias, o faz em mais de 80% dos casos utilizando as mesmas
ruas ocupadas pelos automóveis e por eles congestionadas. Estes
veículos particulares ocupam mais de 50 vezes o espaço
viário por passageiro que os coletivos, fazendo parecer que
o tal direito de ir e vir dos proprietários vale 50 vezes mais
que o dos outros.
Os ônibus pagam todos os impostos – sem benefícios
especiais em épocas de crise – e, por serem públicos,
precisam operar em dias e horas em que não existem passageiros
suficientes para remunerar seus custos. Por sinal, em função
do congestionamento mencionado acima, seus custos crescem cada vez
mais, o combustível consumido aumenta, a frota precisa ser
maior por causa da baixa velocidade e, exatamente por esses motivos,
tornam-se cada vez menos atraentes, perdendo passageiros.
Embora essa indústria empregue muito mais do que a automobilística
e cumpra um papel social relevante, com impacto ambiental e urbano
muito menor, ninguém se lembra dela e de seus desempregados.
Novamente, motoristas, cobradores ou mecânicos de transporte
público parecem valer socialmente muito menos do que os funcionários
da indústria automobilística.
Venho, desde abril deste ano, fazendo parte de um grupo de nove a
dez pessoas de todo mundo que está formulando as recomendações
e a visão desejável para o transporte público
em todo o planeta. Esse trabalho deverá ser apresentado no
Congresso Mundial de Roma da União Internacional de Transportes
Públicos em 2005. As dificuldades e distorções
que enunciei acima também aparecem em outras partes de nosso
planeta mas, de forma geral, são mais marcantes conforme descemos
a escala de bem estar social e econômico. Mesmo no caso dos
Estados Unidos, notório em abraçar e difundir o modelo
do transporte individual, está havendo um renascimento dos
investimentos em transporte público, principalmente em suas
maiores cidades.
Não há duvida de que nas maiores metrópoles,
como Rio de Janeiro e São Paulo, a solução passa
necessariamente por uma rede básica de metrôs e trens.
No entanto, outras soluções já existem para serem
aplicadas com vantagens econômicas em determinados traçados
dessas cidades. Há três anos, em Bogotá, foi implantada,
com forte participação de técnicos brasileiros,
uma das mais bem sucedidas inovações em transporte público,
com enorme aceitação entre seus usuários e a
um custo 4 vezes inferior ao previsto anteriormente para uma linha
de metrô com a mesma capacidade. Trata-se do corredor de alta
capacidade de ônibus chamado Transmilênio, que hoje está
sendo visto mundialmente não como substituto de trens e metrôs
mas como uma nova alternativa a ser utilizada quando vantajosa.
Que tal pensar em São Paulo na ligação do Centro
com o aeroporto de Guarulhos utilizando uma solução
como esta? Ou, no Rio, uma solução semelhante do centro
para o aeroporto e a Baixada? E Brasília, com seu projeto já
concebido favorecendo o transporte rodoviário?
Não se pode continuar a ignorar a desigualdade com que se tratam
não somente os passageiros do transporte coletivo em relação
aos ocupantes de automóveis, mas também seus trabalhadores.
Cada vez em que a indústria automobilística é
favorecida com incentivos, está-se aplicando mal o dinheiro
público. Mal aplicado, pois aumenta os problemas e custos urbanos.
Mal aplicado, por gerar menos empregos por real aplicado do que outras
alternativas no transporte público. Mal aplicado, por favorecer
os mais aquinhoados segmentos da população. Mal aplicado,
porque favorece a tendência de termos cidades cada vez mais
individualistas, insensíveis, violentas, feias, segregadas
e humanamente inadequadas.
Parece até trocadilho, mas é hora de aplicar bem o dinheiro
público no "coletivo", esse grande distribuidor de
renda. |
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