| Que
os usuários busquem os seus direitos sem restrição |
Entrevista
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| Desembargador Roberto Wider |
Por Giampaolo Braga |
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Decisão do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado do Rio
de Janeiro, em 1º de julho último, julgou inconstitucional a chamada
Lei do Passe-Livre, que concedia, no Estado, gratuidade no transporte
coletivo intermunicipal para maiores de 65 anos, deficientes físicos
e estudantes da rede pública. Informações incompletas divulgadas pela
mídia, interpretações errôneas por parte dos beneficiados pela lei
– que entendiam que a Fetranspor entrara na Justiça reivindicando
o fim do passe-livre quando a entidade luta por uma fonte de custeio
para essas gratuidades – provocaram manifestações de rua, brigas entre
grupos de estudantes e muita manipulação política. Nesta edição, Ônibus
reproduz entrevista publicada pelo jornal Extra, edição de 02/08,
em que o desembargador Roberto Wider explica o porquê da decisão.
– O Órgão Especial do TJ decidiu, em 1º
de julho, que a Lei 3.339/99 não respeita a Constituição.
A Lei do Passe-Livre é realmente inconstitucional apesar de
apresentar uma fonte de custeio no lucro com a venda do vale-transporte?
R. W.: A lei é completamente inconstitucional.
A alegação da fonte de custeio é falsa, não
existe aquilo. É vedado, por lei federal, o lucro com a venda
do vale-transporte. Então, é fictício, foi uma
forma fictícia, criada para tentar superar esse obstáculo,
que é insuperável, a meu ver.
– Por quê?
R. W.: Existe um dito popular que diz o seguinte:
não se deve fazer caridade com o chapéu alheio. É
bom que fique claro que o Tribunal não é contra esses
benefícios. Acho que eles devem existir, são justos.
Como existem em outras unidades da Federação, como existem
outros benefícios suportados pelo governo federal. Sempre criando
a fonte de custeio. Porque não podemos ser eu, você ou
um terceiro que vamos pagar um benefício social que atinge
um grande grupo de cidadãos necessitados. Então, a questão
é muito simples. São Paulo é um exemplo disso:
tem gratuidade, mas é o governo que arca com isso. Parece-me
que, no Rio de Janeiro, houve muita politicagem em cima disso. Ou
seja, determinados políticos, querendo faturar isso politicamente,
criaram a gratuidade. Vejo outros exemplos no noticiário. Gratuidade
para portadores de HIV, para entrar no teatro. Tudo isso tem um custo.
São empresas que precisam ter uma atividade econômica
equilibrada. Deve existir a gratuidade, mas a forma como foi feita
é inconstitucional. É um ônus do Estado e da sociedade.
– Mas as linhas de ônibus são concessões.
Esse ônus da gratuidade já não estaria previsto?
R. W.: São concessões, serviços
públicos indiretos, ou seja, terceiros executam isso mediante
uma contraprestação, que é a tarifa. Se a tarifa
previsse, se o edital previsse o ônus, que ia ser coberto dessa
ou daquela maneira... Mas não é isso que foi feito.
Faz-se um edital, licitação, e depois começa-se
a se criar esse ônus em cima das empresas. Então, eu
acho que não são as empresas que têm de bancar
a gratuidade. Nem são os próprios usuários. Foi
até uma situação que se discutiu no Órgão
Especial, no dia da votação: um desembargador com mais
de 65 anos que venha para o Tribunal poderia exibir sua carteira de
identidade e ter gratuidade, enquanto a empregada dele, que pega duas,
três conduções, tem que pagar. E quem é
que está pagando a gratuidade para o desembargador? A empregada
dele, porque a tarifa teria esse componente. É uma falta de
bom senso.
– O senhor diria, então, que a lei é populista?
R. W.: É evidente que a lei tem um viés
populista. É uma maneira de dizer o seguinte: "Vou fazer
caridade para você, vou pegar o chapéu do outro, faço
caridade e sou bonzinho". Então, alguns políticos
fazem isso, dão benefícios para os eleitores e eles
dão votos. Mas os políticos pensam: "Eu não
vou dar benefício nenhum, quem vai dar benefício vão
ser as empresas, os demais usuários, que têm de pagar
passagem. Estes dão benefício mas o bonzinho sou eu".
É a forma de fazer uma política menor, a meu ver. A
maneira correta de fazer é como acontece em outras unidades
da Federação. Existe o benefício, ele é
justo, tem que ser dado.
Os beneficiários do passe-livre têm protestado
contra a decisão do TJ.
O que eles estão fazendo, erroneamente, é fazer pressão
sobre o Judiciário, como se tivéssemos tirado um direito
legítimo. O Poder Judiciário só disse que a forma
de fazer não é essa. Não é assim que se
faz um benefício social.
– Os estudantes estão reclamando no lugar errado?
R. W.: As pessoas não têm noção
disso. Elas deverão, em vez de fazer manifestações
na porta do TJ, fazê-las na porta do Legislativo e do Executivo,
que são os poderes que devem solucionar o problema.
– O governo estadual, ao contrário da Fetranspor, não
mandou nenhum representante para a sessão do Órgão
Especial que derrubou a gratuidade. O senhor acredita que isso influenciou
a decisão dos desembargadores?
R. W.: Absolutamente. É evidente que o dr.
Siqueira Castro (advogado da Fetranspor, que fez a sustentação
oral do processo diante dos desembargadores), que é um constitucionalista
respeitado, é um profissional ouvido por todos nós.
Diante de uma matéria em que havia razão, um bom direito
a ser sustentado, ele cresceu em função disso. Mas não
foi a ausência de representantes do Estado que mudou a nossa
conclusão.
– Apesar disso tudo, haverá um impacto social
com o fim do passe-livre. O que o senhor acha que vai acontecer?
R. W.: Eu acredito que isso não vai -realmente
acontecer. A publicação do acórdão deverá
acontecer nos primeiros dias de agosto (na verdade, o acórdão
da decisão do Órgão Especial só deve ser
publicado em setembro). Lamentavelmente, eu ouvi no noticiário
que vão (o governo estadual e a Alerj) interpor embargos de
declaração (recursos em que se pede esclarecimento sobre
um detalhe da sentença) para ganhar tempo, o que é uma
forma feia de se trabalhar como advogado. De qualquer forma, faz-se
os embargos de declaração, ou então faz-se o
recurso necessário ao Supremo Tribunal Federal e obtém-se
uma suspensão da decisão.
– E se não houver efeito suspensivo no STF nem
tempo, o que acontece?
R. W.: Não posso raciocinar em termos de suposições.
A minha responsabilidade está diluída por muitos. Há
uma responsabilidade do Tribunal, que cumpriu a sua parte, e não
foi friamente, só pela letra da lei. Foi uma questão
de bom senso, direito é, antes de tudo, uma questão
de bom senso. Há uma responsabilidade do Supremo Tribunal Federal,
que certamente terá sensibilidade e apreciará isso.
Há uma sensibilidade política da governadora do Estado,
há uma consciência dos deputados estaduais. Enfim, há
uma série de coisas. O que não se pode dizer é
que o Tribunal de Justiça é culpado, porque interrompeu
a gratuidade.
– Sabemos que há motoristas que estão barrando estudantes,
idosos e deficientes.
R. W.: Isso é ignorância, é uma má orientação. Acredito
que os empresários sérios não darão essa orientação aos seus funcionários.
E, se derem, vão sofrer repressão. Não têm o direito de agir ilegalmente,
na expectativa de uma decisão que ainda será confirmada.
– O que o senhor diria para um usuário do passe-livre?
R. W.: Que os usurários busquem os seus direitos, façam valer
os seus direitos sem nenhuma restrição. E busquem a confirmação de
seus direitos com as autoridades competentes. Cobrem dos deputados,
se manifestem diante do governo do Estado, para que se solucione esse
problema que vinha sendo empurrado com a barriga, de qualquer maneira,
sem ter uma solução séria. Agora, têm que resolver definitivamente
o problema.
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