Clientes fazem Abaixo-assinado para manter motorista na linha
Profissional Modelo

Milca: responsabilidade e cortesia + batom e salto alto

A motorista Milca Gomes Chaves, de 38 anos, que trabalha na Transportes Estrela Azul, empresa da cidade do Rio de Janeiro, virou notícia de jornal recentemente. Tudo começou quando Milca resolveu comunicar a seus clientes que deixaria as linhas 503 (Gávea – Botafogo) e 505 (Engenho da Rainha – Gávea). Essas são linhas atendidas por microônibus, que agora serão dirigidos por motoristas juniores. Os profissionais com maior tempo de experiência, como é o seu caso, motorista há quatro anos e meio, trabalharão nos veículos maiores, de acordo com o que foi aprovado por rodoviários e empresários no último dissídio coletivo.

Logo que souberam da transferência da motorista, os clientes resolveram fazer um abaixo-assinado pedindo sua permanência nas linhas. Conseguiram 150 assinaturas. O fato foi noticiado pelo colunista do jornal O Globo, Ancelmo Góis, no dia 14 de julho. No dia 15, os jornais O Povo, O Globo e Extra – estes dois na seção Transporte para Todos – publicaram matérias falando sobre o abaixo-assinado, traçando perfil da motorista e destacando sua relação com os passageiros.

Com justificado orgulho, Milca tentou explicar a reação dos clientes à notícia de sua transferência: “Tenho meus clientes fixos na 505, no horário das 6h30min, em direção à Gávea. Quando chego no ponto final, pego o ônibus da 503, saindo da Gávea para Botafogo – e esse pessoal também é fixo. Conheço todo mundo pelo nome, nos tornamos amigos, eu freqüento a casa deles e eles a minha. Quando eles ficaram sabendo da minha transferência, se juntaram e fizeram o abaixo-
-assinado. O pessoal da 505 começou e levou para os clientes da 503 assinarem. Tinha gente que queria levar para casa e pedir aos parentes para assinar também, e assim aumentar o número de assinaturas”.

Divorciada, com quatro filhos, Milca trabalha há cinco anos e meio na Estrela Azul. Entrou como cobradora e no ano seguinte foi promovida a motorista. “Foi meu primeiro emprego. Antes eu era dona de casa. Mas, quando me separei do meu primeiro marido precisei trabalhar para sustentar meus filhos”, conta. Apelidada pelos colegas de trabalho de Penélope Charmosa – “porque eu nunca esqueço de colocar meu batom e meu salto alto” – e pelos clientes de Loura – “sou loura disfarçada”, Milca acredita que todo esse apreço dos passageiros é reflexo de um comportamento muito simples de sua parte. “É só educação e carinho. Tem que saber dizer um bom dia com um sorriso. As pessoas estão muito carentes. Ninguém gosta de entrar num ônibus e ver um motorista de cara feia”, explica.

Festa no ônibus

Com seu bom-humor e alegria, Milca conquistou seus clientes e fez deles amigos. Sem falar no seu lado “terapeuta”. “Eles me fazem confidências, falam dos seus problemas, há entre nós uma troca de energia maravilhosa. Eu termino meu dia de trabalho cansada, mas volto para casa levando comigo muita energia positiva”, afirma. Os clientes não se cansam de demonstrar sua afeição pela motorista. “No meu aniversário, trouxeram bolo, bolas, cantaram parabéns, foi uma festa dentro do ônibus. Eu vivo ganhando presente deles. Às vezes, são pessoas que não têm condições, mas fazem questão. Eu fico até com vergonha”, revela. Até obra em casa Milca já ganhou de presente, de dois pedreiros seus clientes. “Eles não me cobraram nada pelo serviço. Fizeram a obra do meu banheiro nos seus dias de folga”, lembra.


Outro aspecto interessante da relação entre a motorista e seus clientes é o fato de Milca, sempre que encerra uma viagem, checar dentro do ônibus se alguém esqueceu alguma coisa. Se isso acontece, ela leva o objeto para casa e devolve no dia seguinte. “Teve uma vez que um cliente esqueceu um celular e a mulher dele ligou e eu atendi. Ela ficou desconfiada por ser uma mulher, mas quando eu falei que era a motorista do ônibus, ela já me conhecia de nome. Outra vez, os pedreiros que estavam fazendo minha obra esqueceram uma ferramenta caríssima e eu guardei para eles”, conta.

Milca se orgulha ainda de já ter transportado artistas famosos, como a atriz Laura Cardoso – “batemos o -maior papo, ela é uma pessoa maravilhosa”, o diretor de novelas, Roberto Talma, o autor da novela “Mulheres Apaixonadas”, Manoel Carlos, entre outros. “Uma vez vi o Francisco Cuoco no ponto. Ele ia pegar um táxi. Aí, parei o ônibus e falei – Oh! Chico, entra aí que eu te levo. E ele entrou. Quando desceu do ônibus me agradeceu e disse que eu era gente boa”.

É bem provável que o pedido dos clientes de Milca não possa ser atendido pela empresa. Mas, uma lição fica de toda essa história: o trabalho, feito com amor, sempre rende bons frutos.
   
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