Brasil perde dinheiro na exportação de petróleo
Petróleo exportado é mais barato que o importado

A Refinaria é Nossa

Wagner Victer: perda anual chega a bilhões de dólares

Nossas refinarias não atendem à situação atual da produção nacional de petróleo. A construção imediata de pelo menos uma refinaria no país, com capacidade para refinar o tipo de petróleo extraído aqui, é de suma importância. O secretário de Energia da Indústria Naval e do Petróleo do Estado do Rio de Janeiro, Wagner Victer, explica aos leitores de Ônibus por que isso é urgente e os motivos que levam o Estado a reivindicar sua construção no Norte Fluminense.

R.O.: Por que se diz freqüentemente que mesmo sendo auto-suficiente na produção de petróleo, o Brasil vai continuar sendo um grande importador de derivados de petróleo?

Wagner Victer: Porque nossas refinarias foram construídas numa época em que o Brasil importava mais de 80% do petróleo que consumia. Principalmente do tipo árabe leve, motivo pelo qual nossas refinarias foram projetadas para refinar aquele tipo de petróleo de padrão internacional e produzir derivados (gasolina, diesel, gás de cozinha e querosene, entre outros). Ocorre que, desde 1978, época do início da produção de petróleo da Bacia de Campos (RJ), a produção nacional de petróleo vem crescendo fortemente, sendo que recentemente a maior parte do petróleo produzido é do tipo pesado. Frente a tal problema, as refinarias brasileiras foram adaptadas, no possível, ao longo do tempo, para processar um mistura do petróleo nacional mais pesado, com petróleo importado, mais leve, o chamado "blended".

R.O.: É verdade que atualmente o Brasil está exportando um razoável volume de petróleo?

W.V.: Sim, é verdade. Estamos exportando na faixa de 300.000 barris de petróleo/dia (bpd) do tipo pesado, principalmente em função do Campo de Marlim, na Bacia de Campos. Este petróleo pesado não pode ser processado em toda a sua quantidade no país, em vista das características técnicas de nossas refinarias. Portanto, temos que exportar parte do petróleo extraído por um baixo valor, e acabamos por importar um óleo mais leve, de maior valor, para fazer a mistura (blending), adequando o petróleo à capacidade técnica das refinarias nacionais.

R.O.: O Brasil tem auferido bons lucros com a exportação de petróleo?


W.V.: Esta é realmente uma questão bastante complexa. Estamos exportando petróleo pesado, que é barato no mercado internacional, e importando petróleo leve, que tem cotação bem mais alta. O pior é que estes negócios são cotados em moedas fortes. Ou seja, são transações que representam uma perda de bilhões de dólares por ano para o País, o que é um péssimo negócio.

R.O.: Existe algum planejamento oficial para os próximos anos sobre o consumo e produção de derivados de petróleo para o país?

W.V.: Sim, existe um importante estudo elaborado no ano 2001 pela ANP – Agência Nacional do Petróleo –, com o apoio de importantes empresas internacionais de consultoria especializada, onde se prevê que até o ano 2010, com o país crescendo a míseros 2,8% a.a. (PIB) e o consumo a apenas 3% a.a., haverá um déficit na produção nacional de derivados da ordem de 670.000 bpd, representando um dispêndio de US $ 5,2 bilhões por ano, o que, convenhamos, não poderá ser adequadamente atendido apenas com a expansão das refinarias existentes, conforme tem sido noticiado. O estudo também faz referência à dependência externa do País, no que diz respeito ao abastecimento do mercado interno de derivados de petróleo, que está na faixa de 17% e deverá aumentar para 35% até 2010. Enquanto isso, práticas internacionais recomendam a dependência de, no máximo, 10% a 20%. Portanto, o abastecimento nacional garantido, de forma competente, pela Petrobras nos seus 50 anos de existência, poderá correr sérios riscos nos próximos anos, até porque o prazo de implantação de novas refinarias, por seus aspectos ambientais e complexidade construtiva, é de 4 a 6 anos.

R.O.: Quais são os refinados mais importados pelo país atualmente?

W.V.: Estamos importando em grandes quantidades o GLP (gás de cozinha) e o diesel, que impactam diretamente a vida do cidadão comum e o principal modal de transporte nacional, que é o rodoviário, como o transporte por ônibus, que tem no diesel um dos seus principais custos e que tem variado, por não termos refinarias, muito acima da inflação. Ressalta-se que estes dois derivados tiveram variação de preços, em 2002, superior a 40%, impactando na inflação e no custo de vida da sociedade, demonstrando a sua relação direta com a questão cambial. Além destes produtos, o Brasil também é importador de nafta (uso petroquímico e indústria plástica) e de querosene de aviação (QAV).

R.O.: Qual a justificativa técnica do Estado do Rio de Janeiro pleitear a construção de uma dessas novas refinarias de petróleo?

W.V.: O Estado do Rio produz mais de 82% do petróleo brasileiro, cerca de 1,3 milhão de barris de óleo por dia, além de dispor de mais de 80% das reservas nacionais medidas, refinando apenas 13% do total nacional. Cabe destacar que a exploração de petróleo naquela região, o norte fluminense, vem ocorrendo desde 1978, sem que efetivamente tenha havido uma compensação à altura por tamanha geração de riquezas, mesmo com os investimentos efetuados pela utilização dos royalties. Sabe-se que, ainda hoje, aquela é uma das regiões mais pobres do país e que a implantação do complexo permitiria a geração de 30 mil empregos diretos e indiretos, além da dispersão em diversos municípios do Norte e Noroeste.

R.O.: Sob a ótica da justiça social, não seria mais interessante para o país a construção da nova refinaria de petróleo em algum Estado do Nordeste?

W.V.: É muito importante ressaltar que o projeto de uma nova Refinaria no Estado do Rio de Janeiro não compete em sua área de influência, ou é excludente em vista da construção de uma outra unidade de refino no Nordeste. Muito pelo contrário, a realização dos dois projetos em conjunto (Estado do Rio e Nordeste), poderia propiciar ganhos de escala e aprendizado, o que permitiria reduzir investimentos em ambos projetos, além de facilitar a distribuição da produção de derivados em nível nacional. Nesta linha, as possíveis novas descobertas de petróleo no Nordeste, como anunciada para Sergipe, por serem de óleo do tipo leve, favorecem a nova refinaria no Estado do Rio de Janeiro, pois deslocam o óleo pesado, produzido na bacia de Campos, para a nova refinaria do Norte Fluminense. Cabe sempre ressaltar que a implantação de refinarias para petróleo pesado no país permitirá agregar valor ao óleo produzido na região de Campos (RJ), no processo de refino, ou ainda, adequando-o para exportação, em forma de derivados ou óleo tratado, o que será ainda mais reforçado em caso de novas e expressivas descobertas de petróleo na região.

R.O.: Por que é importante a participação da Petrobras no empreendimento da nova refinaria do Norte Fluminense?

W.V.: Caberia também à Petrobras se incorporar neste esforço, visto que não é possível pensar em novas refinarias no Brasil, sem a presença articuladora e a capacidade viabilizadora da Petrobras, até pelo fato de ser concentradora de cerca de 98% da capacidade de refino nacional, além da posição de maior produtora de petróleo nacional e, principalmente da existência de grandes volumes de petróleo pesado, que, teoricamente, seriam processados nesta nova unidade no Norte Fluminense.

R.O.: Mais alguma informação sobre a refinaria do Norte Fluminense?

W.V.: A nova refinaria no Norte Fluminense será batizada de Refinaria Barbosa Lima Sobrinho, em homenagem a um grande nome da história brasileira, que sempre esteve à frente das batalhas em defesa do desenvolvimento da indústria do petróleo brasileira e que passou grande parte de sua vida política no Estado do Rio de Janeiro.
 
   
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