"Num
pedaço de madeira eu desenhei um violão"
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Rodoviário
de Talento
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José Carlos Soares de Santana, 42 anos, é ajudante de mecânico montador na Auto Viação Vera Cruz, empresa de Belford Roxo, onde trabalha há dois anos. Divorciado, pai de quatro filhos, Santana entrou na Vera Cruz como faxineiro e seu sonho é se profissionalizar como mecânico montador. Quem lê estas informações deve estar pensando que se trata de um rodoviário como muitos outros, que acalentam o sonho de crescer na profissão. Na verdade, ele é, sim, um rodoviário como muitos dos cerca de 100 mil que trabalham nas empresas de ônibus do Estado do Rio de Janeiro. Porém, possui um dom que poucos têm: é músico. E não se contenta em dominar apenas um instrumento. Toca violão, cavaquinho, guitarra, contrabaixo, teclado e bateria. E, ainda por cima, canta.
José Carlos lembra que sua paixão pela música
começou quando ainda era um menino de seis anos. “Eu
tinha um vizinho, seu Zezinho, que gostava de tocar e tinha um grupo
de forró, com sanfona, zabumba e triângulo. Eu adorava
ficar na casa dele vendo eles tocarem”, revela. O fascínio
que a música exercia no menino José Carlos era tão
grande que ele resolveu fazer seu próprio violão, que
ele considera como seu primeiro instrumento musical. “Era um
pedaço de madeira, onde eu desenhei um violão e ficava
brincando, fingindo que estava tocando”, conta.
Pelos bares da vida
Tempos depois, José Carlos experimentou dedilhar pela primeira
vez as cordas de um violão de verdade. O filho do “Seu
Zezinho”, alguns anos mais velho que José Carlos e também
músico, pegou o menino no flagrante tentando tocar seu violão
escondido. “Ele brigou comigo, mas depois passou a me emprestar
o violão e eu tentava tocar. Fui aprendendo sozinho. Eu os
via tocando e queria fazer igual. Todos os dias, eu chegava da escola
e ia direto para lá”, conta. E foi assim, de ouvido,
que José Carlos começou a tocar seu primeiro instrumento.
Não teve professor, aprendeu observando. Costuma dizer que
seus mestres foram “Seu Zezinho” e o filho, que sempre
o incentivaram.
Quando realmente aprendeu a tocar, começou a participar de
serestas, quando descobriu o seu lado de cantor. Aos 18 anos, após
servir o quartel, ganhou seu primeiro violão. A partir daí,
juntou-se com alguns amigos e começou a tocar e cantar em churrascarias,
barzinhos, festas de casamento, de 15 anos e serestas. Todo final
de semana tinha show. Muitas vezes não recebiam, mas nem por
isso deixavam de se apresentar. Foi nessa época que José
Carlos aprendeu a tocar guitarra e contra-baixo. “Nós
tocávamos vários estilos de música. As mais pedidas
eram as de Nelson Gonçalves, mas eu só sabia cantar
três: “Negue” (Adelino Moreira e Enzo de Almeida
Passo), “Meus Tempos de Criança” (Ataulfo Alves)
e “Amada Amante” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)”.
De pai para filho
O teclado e a bateria chegaram um pouco mais tarde em sua vida. Foi
quando entrou para a igreja evangélica, há sete anos.
“Desde que eu comecei a freqüentar a igreja, só
canto e toco música evangélica. Toda segunda, quinta
e domingo, me apresento. No início, acompanhava outros colegas
tocando teclado ou bateria. Agora, só tenho tocado guitarra,
pois estou cantando sozinho”, explica. Apesar da preferência
pelas músicas gospel, José Carlos abre sempre uma exceção,
quando está reunido com alguns amigos, para interpretar “Negue”.
“Foi a música que eu mais cantei na noite e até
hoje os colegas pedem”, diz.
Esse ajudante de mecânico conseguiu despertar o amor pela música
também nos filhos. Carlos Henrique, 18 anos, está aprendendo
a tocar cavaquinho, Lidiane, 13, não perde oportunidade de
tentar tocar o teclado do pai. Até a mais nova, Laudilane,
de apenas seis anos, diz que quer tocar guitarra e pediu ao pai para
comprar uma de plástico, que pretende levar para a igreja para
acompanhá-lo em suas apresentações. A única
que ainda não manifestou vontade de aprender algum instrumento
é Katiane, a mais velha, com 19 anos. Mas, ainda é muito
cedo para afirmar que ela não herdará o dom paterno.
“A música está na nossa vida”, diz José
Carlos. |
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