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Tânia Mara Gouveia - Jornalista
Lembro-me
de uma amiga baiana, alto astral, que me dizia sempre: “até
para se ser cachorro, na vida, é preciso ter sorte”.
E se prolongava, mostrando que, enquanto existem cães sarnentos
abandonados pelas ruas, há aqueles adotados por donos de
açougues, churrascarias ou por madames que lhes proporcionam
idas a salões de beleza e até a hotéis para
cães.
Mas, o que tem isso a ver com uma revista voltada
para transporte, especialmente para o modal ônibus? –
perguntará o leitor desavisado, pensando talvez que a cronista
enlouqueceu ou está sem assunto que tenha alguma correlação
com os temas normalmente aqui tratados. Por incrível que
pareça, leitor, foi exatamente o transporte que me levou
a pensar no cachorro e, de quebra, na amiga, que já não
vejo – infelizmente – há muitos anos. Há
boas amizades, das quais nos separamos, ou melhor, das quais literalmente
nos perdemos, sem saber para onde a vida levou quem nos é
tão importante ao coração. Ops! Agora estou
mesmo fugindo ao assunto. Voltemos ao cachorro.
A série “A História
do Transporte”, que vimos publicando desde a última
edição, tem exigido pesquisa, para a qual tenho contado
com a ajuda do empresário Eurico Galhardi, grande conhecedor
da história do transporte, estudioso incansável e
colecionador apaixonado.
Tem sido um trabalho dos mais gostosos,
porque a sensação que a gente tem é de quem
está viajando pela história do Homem, de sua criatividade
na solução de problemas, desde a utilização
de galhos de árvores como alavancas, até a utilização
da roda presa a um eixo, chegando-se aos veículos. Principalmente
quando sabemos que, partindo lá da alavanca, se chegou a
alcançar a Lua, e que o sonho do Homem não pára
por aí.
Há detalhes curiosos, também.
Ao reparar, no acervo do empresário, em pequena escultura
que reproduz imagens de um quadro de Debret, elogio a obra e pergunto
sobre os detalhes. A peça retrata pequeno cortejo, em que
dois escravos conduzem um cavalheiro refestelado numa rede. Ao lado,
um negrinho carrega imenso guarda-chuva, seguido por um vira-latas
(até que enfim, cheguei no cachorro!).
Conhecedor de todos os detalhes, Eurico
explica a presença do personagem canino: era costume, à
época, o senhor, sempre que os escravos cometiam alguma besteira,
dar-lhes umas lambadas. Estes, para se “vingarem”, batiam
no moleque do guarda-chuva. O qual, sem ter nenhum animal dito racional
para transmitir as pancadas, fazia-se acompanhar por um cachorro,
cuja finalidade era servir-lhe de válvula de escape. Ou seja:
a cada castigo infringido pelo senhor a um dos escravos, acabavam
todos apanhando. Até o pobre do cão, que nada tinha
com as sandices dos humanos, muito menos com a escravidão
e menos ainda com a comodidade de que gozavam alguns, de se deslocar
a bordo de uma rede, puxada por braços escravos.
A vida é engraçada.
Foi preciso pesquisar a história do transporte, para saber
que no Brasil colonial, ao lado do transporte por rede, desenvolveu-se
a “cachorroterapia”, que evitava aos negrinhos escravos
maiores traumas, quando apanhavam sem ter culpa no cartório.
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