Tornar-se-ão as cidades inabitáveis?
Editorial
José Carlos Reis Lavouras
Presidente do Conselho de Administração




Foto: Jornal O Globo - 07/10/2003

O Globo, em sua edição do dia 7 de outubro, caderno de Economia, página 17, publica gravíssima advertência da ONU sobre o agravamento da urbanização descontrolada que se observa no mundo, reproduzindo situação em todo aplicável ao Brasil. Alerta de que, se novas políticas públicas não forem adotadas urgentemente, nossas cidades poderão se tornar inabitáveis nesta primeira quadra do século 21:

“O número de pessoas vivendo em favelas vai dobrar até 2030, chegando a dois bilhões de pessoas, em conseqüência da urbanização acelerada e do aumento da pobreza, afirmou o relatório do Programa de Assentamentos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU-Habitat) ‘O desafio das favelas´, divulgado para marcar o Dia Mundial do Habitat. Segundo o ONU-Habitat, com sede em Nairóbi (Quênia), um sexto da população mundial – ou 924 milhões de pessoas – vive em favelas. Na introdução ao relatório, o secretário-geral da ONU, Kofi Anan, lembrou que a população pobre está se movendo do interior para a cidade, um processo chamado ‘urbanização da pobreza´.

– Até 2050 estimamos que a população mundial seja de nove bilhões de pessoas, seis bilhões das quais viverão nas cidades. Destas, 3,5 bilhões (38%) estarão vivendo em favelas se não fizermos alguma coisa radical para resolver esse problema – disse a diretora-executiva do ONU-Habitat, Anna Tibaijuka.

O diretor de Análises de Políticas do ONU-Habitat, Naison Multizwa-Mangiza, resumiu o problema:

– É uma bomba-relógio.

Apesar de o crescimento acelerado das favelas ser evidente, o relatório ressalta que há pouco ou nenhum planejamento para acomodar a população que se desloca para as cidades em busca de uma vida melhor. A falta de habitação, água, saneamento e emprego abrem caminho para a explosão de criminalidade”.


A Fetranspor destaca esse importante noticiário e a aplicabilidade da grave advertência da ONU aos governantes brasileiros, para chamar a atenção para o fenômeno da desagregação do sistema de transporte público nesta capital, sua Região Metropolitana e alguns municípios fluminenses, com a expansão da pirataria. Trata-se de verdadeira afronta do transporte ilegal, ante a sociedade e suas instituições públicas, com uso de fraude e de ameaças. Agrava-se ainda com fortes indícios, em depoimentos das próprias autoridades de segurança pública, de conexão do chamado transporte alternativo, pelo menos em boa parte, com o crime organizado. Laurindo Junqueira, da ANTP, em artigo que O Globo publicou em sua edição do dia 7 de março de 2003, sob o título "O Rio não Merece", demonstrou esse fenômeno, posto que – e isto é de senso comum – o transporte ilegal pode permitir lavagem de dinheiro do narcotráfico, circulação de armas e drogas, condução de bandidos passando-se por inocentes passageiros, corrupção do mecanismo policial e outras graves seqüelas.

Tamanha é a amplitude, hoje, da ilegalidade do transporte coletivo, no Rio de Janeiro, com estimativa de que 19 mil vans e kombis transitam sem qualquer permissão e controle das autoridades – essa estimativa é da SMTU e do Detro e foi tornada pública na edição de O Globo do dia 21 de setembro – que, a persistir esse curso, muito em breve inviabilizará as empresas permissionárias do serviço de ônibus, que entregarão progressivamente as concessões – algumas delas já o fizeram, como a Cachoeirense, em Cachoeira de Macacu, a Montes Brancos, em Araruama e outras na Zona Oeste, na capital do Rio de Janeiro – sem garantias de que eventuais novas empresas, habilitadas pelo Detro ou pela SMTU nessas regiões, não venham também, no curto prazo, a sofrer colapso, posto que as causas da degradação continuarão. Ou seja: a destruição do sistema de transporte público formal e a conseqüente expansão descontrolada do emprego de vans e kombis pela informalidade e pela criminalidade neste Estado, será forte contribuição para que nossas cidades, a partir da querida cidade do Rio de Janeiro, se tornem inabitáveis. Não merecemos, não podemos, não suportamos tamanho desastre!

 

   
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