Congresso da ANTP defende mobilidade para todos e discute exclusão social
Eventos

Por Tânia Mara


A partir da esquerda, o ministro Olívio Dutra, o prefeito de Vitória, Luís Paulo Veloso Lucas,
e o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung receberam, das mãos de Nazareno Affonso,
diretor da ANTP e coordenador do MDT, o livro Mobilidade Cidadania

O governo federal, através do Ministério das Cidades, colocou um ponto final na omissão quanto ao transporte público de passageiros”, afirmou o ministro Olívio Dutra, das Cidades, durante sessão de abertura do 14º Congresso Brasileiro de Transporte e Trânsito, que lotou o auditório Pedra Azul, do Centro de Convenções de Vitória, no dia 13 de outubro. Olívio Dutra afirmou o compromisso do governo de disponibilizar R$ 250 milhões do FAT ( Fundo de Amparo ao Trabalhador) para utilização em novos programas, através da CEF e do BNDES. A proposta é a realização de novos acordos com estados e municípios para a integração metropolitana no transporte e retomada de obras importantes que se encontram paralisadas ou em ritmo lento. O ministro declarou também sua preocupação com a questão tarifária. Ele acredita que o preço das passagens contribui para o esvaziamento dos ônibus e para o crescimento do “malfadado transporte clandestino”, criando círculo vicioso insustentável.

Autoridades de transporte e trânsito de todo o país, empresários, técnicos do setor, políticos e imprensa participaram do evento, entre os dias 13 e 17. O presidente da ANTP, Jurandir Fernandes, aludiu ao significativo crescimento do país, mostrado na última estatística do IBGE, salientando que, apesar disso, ainda somos um país de excluídos. O prefeito da capital capixaba, Luís Paulo Veloso Lucas, membro da Frente Nacional de Prefeitos, disse que “não podemos permitir que o sistema seja erodido pelo transporte clandestino e pelas gratuidades”. Veloso informou que o transporte público em Vitória é bem avaliado pela população e que os governos estadual e municipal pretendem continuar investindo em infra-estrutura, a fim de que se continue conseguindo resistir ao transporte clandestino.

O governador Paulo Hartung também enfatizou o comprometimento do seu governo com as questões de mobilidade e da implantação de uma política de transporte público. “O viés populista histórico não nos tirou do lugar”, declarou. Segundo Hartung, um dos caminhos viáveis é a utilização da Cide destinada a estados e municípios. “Nós queremos participar desse esforço para trazer o pobre, o deserdado, o excluído para esse serviço, essencial para o seu direito de ir e vir”.

Empresários querem tarifa mais barata

Um dos assuntos mais debatidos durante o Congresso foi a necessidade do barateamento da tarifa. Segundo recente pesquisa realizada pelo Ipea e pelo Itrans, enquanto os meios de transporte público perdem passageiros, a população de baixa renda se desloca a pé, cada vez mais, por falta de recursos. A falta de acesso ao transporte acaba por gerar dificuldade de acesso a trabalho, cultura, saúde e lazer, criando o círculo vicioso de que falou o ministro Olívio Dutra.

Fatores como o excesso de gratuidades sem fonte de custeio, concorrência predatória do transporte clandestino e a violência contra os ônibus foram apontados como causadores da debilidade financeira em que se encontram inúmeras empresas de ônibus em todo o país. O superintendente da Fetranspor, Luiz Carlos de Urquiza Nóbrega, falando sobre o tema, alertou para os recentes episódios ocorridos em Salvador, mostrando os danos que políticas equivocadas têm trazido ao sistema no Rio de Janeiro. Sua exposição foi apoiada em filme, oferecido em seguida à ANTP. A criação de uma frente parlamentar voltada para a questão dos Transportes, o lançamento do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte de Qualidade para Todos (MDT) e do Pró-Transporte foram vistos com alívio e esperança pelos empresários, por sinalizar movimentos da sociedade como um todo para salvar o sistema de transporte público do país.

Exposição sobre história do transporte foi atração em shopping de Vitória

A NTU realizou exposição que atraiu a atenção dos freqüentadores de um dos shoppings de Vitória, em evento paralelo ao 14º Congresso. Ônibus antigos, de vários modelos e um bonde permaneciam no pátio externo, abertos à visitação pública, enquanto, no térreo, vários painéis mostravam fotos de veículos antigos e, no segundo piso, grande quantidade de selos, moedas, medalhas, pratos, miniaturas e réplicas mostravam a atividade do transporte como uma indutora do progresso, desde a utilização da roda em seus primórdios até os veículos de hoje.

Gestão de qualidade premiada

Durante a sessão de abertura, foi feita entrega dos troféus aos vencedores do Prêmio ANTP de Qualidade, pela diretora regional da ANTP e coordenadora do Prêmio, Denise Cadete. Na categoria “operador rodoviário”, venceram a empresa de Transportes Flores, do Rio de Janeiro, e a Expresso Medianeiro, de Rio Grande do Sul. A BH Trans foi a ganhadora na categoria “órgão gestor”. Outra empresa do Rio de Janeiro, a Saens Peña, ficou entre as cinco finalistas.


Fernando Aurélio Moreira Neto, da Viação Saens Peña, e Carlos César Toledo,
da Empresa de Transportes Flores: Prêmio de Qualidade ANTP


Londres e Bogotá: dois exemplos de priorização
do transporte público que deram certo

Londres e Bogotá, duas cidades com características distintas, que adotaram projetos também distintos para priorizar o transporte público, podem servir como modelo para as grandes cidades brasileiras. Foi isto que mostrou a Conferência Internacional, realizada dia 13 de outubro, pelo Instituto de Políticas de Desenvolvimento e Transportes, Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e ANTP, no auditório do IAB, no Rio.

“Uma nova Bogotá – Transmilênio e Reforma Urbana” foi o tema apresentado pelo ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa. O palestrante explicou como restringiu o uso do automóvel na cidade a partir de mudanças como a implantação do Transmilênio, um modelo de transporte baseado no Ligeirinho, de Curitiba, e a recuperação do espaço público para o lazer e uso de pedestres, com aumento das calçadas, diminuição das baias para estacionamento e criação de ciclovias e áreas verdes. “Se uma cidade é boa para as crianças brincarem e se moverem livremente, é boa para todos”, afirmou. Peñalosa criticou os investimentos em mais infra-estrutura viária. “Isso só fará o problema piorar”.

O ex-prefeito de Bogotá explicou que hoje no Rio de Janeiro seria viável os 20% das pessoas que utilizam o automóvel passarem a utilizar o transporte público. No entanto, seria impossível se os 80% que utilizam o transporte público resolvessem andar de carro. “Isso destruiria a cidade”, disse. Peñalosa informou que a solução do Transmilênio, adotada em Bogotá, contou com técnicos e engenheiros brasileiros como consultores. O palestrante disse ainda que apesar de estar funcionando bem, o Transmilênio sozinho não é suficiente para que a população deixe o carro em casa. “É preciso restringir o uso do automóvel particular de alguma maneira, seja diminuindo o número de estacionamentos, aumentando o preço do combustível ou proibindo o uso do carro como forma de conscientizar a população” afirmou.

O caso de Londres foi trazido pelo ex-coordenador do Pedágio Urbano na cidade, Derek Turner, que falou sobre “A Gerência da demanda e o pedágio urbano”. O palestrante falou sobre o sistema de pedágio no centro de Londres, implantado há cerca de seis meses. A idéia era reduzir a demanda pelo uso de carros e fazer com que as pessoas pensassem no custo do seu deslocamento de automóvel. A meta inicial era diminuir o trânsito entre 10 e 15% todos dias. Foi tomado como parâmetro o período de férias escolares, quando a população, assim como na cidade do Rio, elogia o trânsito. Com a introdução do pedágio, cujo valor cobrado é de cinco libras, o que se conseguiu foi uma redução de 20% no trânsito no centro de Londres e de 10% nas áreas vizinhas.

Para implementar essa mudança foram necessários dois anos e meio de trabalho. “O sistema de ônibus teve um incremento de 14% de pessoas e os atrasos por causa de trânsito e congestionamentos caíram pela metade. Porém, foi necessário alterar toda a programação de ônibus de Londres”, afirmou Turner. O importante, segundo o palestrante, é encarar o pedágio não como um tributo, mas como uma estratégia de financiar melhorias para o transporte público. “Em qualquer cidade do mundo é possível introduzir alguma coisa que parece impossível”, finalizou.

 

   
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