Nesta segunda matéria da série,
damos prosseguimento à viagem que iniciamos na edição
anterior, quando embarcamos na narrativa do empresário e pesquisador
Eurico Divon Galhardi (cujo acervo e o da ONG que preside são
nossas principais fontes de consulta), rumo aos primórdios
do transporte no planeta. Retomamos a viagem na França do século
XVII.

Blaise Pascal |
Da filosofia ao transporte
Paris, França, ano de 1662. O filósofo e matemático
Blaise Pascal, precursor das máquinas de calcular, acaba
de criar serviço de carruagens com capacidade para oito pessoas.
Lacaios com libré azul e branca – as cores do rei –
dão um tom chique ao transporte. Cinco linhas passam a cruzar
a capital francesa, sendo uma delas turística. Os veículos
costumam andar lotados, mostrando que o grande filósofo é
também perspicaz empreendedor e tem bom tino empresarial.
Seus veículos a tração animal são conhecidos
como carruagens de “cinq sols” (cinco sóis),
preço da tarifa de então.
Infelizmente, Pascal não sobreviveu muito ao lançamento
do novo serviço. Tendo-o iniciado em março, faleceu
em agosto. Deixou seu nome gravado na história da humanidade
nos capítulos da Filosofia, da Matemática, da Religião
(católico extremado, foi contemporâneo de Descartes
e seu opositor no campo das idéias) e – quem diria
– do Transporte Coletivo.
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Além de contribuir para a Filosofia, Matemática
e Religião,
Pascal criou um serviço de carruagens para oito pessoas,
com lacaios usando as cores do rei de França
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Versailles: um transporte “sujo”
Ainda no século XVII, um tipo de transporte fazia o “serviço
sujo”, digamos assim, para a nobreza. Existiam naquela época
os carregadores de fezes, que portavam baldes, a fim de transportarem
os excrementos da nobreza ao local de despejo. Um anteparo circular
impedia que eles tivessem contato direto com a carga. Outro tipo
de carregador conduzia baldes para que os nobres pudessem deles
se servir em horas de aperto. Havia ainda os “peniqueiros”
(a palavra até hoje é utilizada no Nordeste brasileiro
de forma pejorativa), encarregados de recolher, em armários
palacianos específicos (tinham portas na frente e nos fundos,
de forma que os serviçais pudessem trabalhar sem adentrar
os aposentos dos nobres) onde ficavam armazenados os penicos usados
durante a noite. Era o início de um transporte, por tração
muscular, de carga sanitária.

Stanilas Baudry: a origem da palavra ommibus |
Omnes Omnibus
Quase todos já ouvimos a explicação de que a
palavra “ônibus” é derivada do latim omnibus,
que significava “para todos”. Certo. A forma como se originou,
no entanto, é que é bastante curiosa e pouco conhecida.
O comerciante francês Stanilas Baudry tinha uma casa de banhos
em Nantes, que, por ser distante do centro, era pouco procurada. Baudry
cria um serviço de diligências, em 1826, para deslocar
seus fregueses. O ponto final dessas diligências ficava na praça
Port-au-Vin, em frente à loja de um chapeleiro cujo nome era
Omnes, e que adotara, fazendo um trocadilho, o lema “Omnes Omnibus”
(tudo para todos). O povo logo adota o termo omnibus para denominar
as diligências que ali apanhavam e deixavam seus passageiros.
O curioso é que Baudry, notando que muitos se utilizavam de
seus veículos apenas para se locomover, sem freqüentar
a casa de banhos, solicitou autorização oficial para
implantar um serviço de viaturas públicas, criando uma
linha de “omnibus” entre Richebourg e Salorges. Bom empreendedor,
como Pascal, de uma dificuldade em seu negócio, cria outro,
mais rentável.
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