Crise nas empresas de ônibus afeta transporte no Rio
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No dia 25 de novembro, rodoviários da transportadora Primavera (Magé, Rio de Janeiro) paralisaram os serviços e usaram ônibus da própria empresa para bloquear o trânsito em frente à Prefeitura. Juntaram-se a eles os operadores de vans que fazem transporte alternativo legalizado no município. Motivo: todos estão sendo prejudicados pela pirataria no transporte que, fora do controle das autoridades, mina a saúde financeira de operadores, ameaça de desemprego os rodoviários e de falta de transporte a população local.

Os precedentes não são nada animadores. Situação semelhante acabou por fazer a empresa que operava o transporte por ônibus em Cachoeiras de Macacu – Rápido Cachoeirense – a entregar a concessão em 2000, depois de operar por dois anos no vermelho. A Prefeitura não conseguiu atrair novas empresas para uma licitação e acabou por criar uma transportadora municipal. Os investimentos em transporte competem agora com investimentos em saúde, saneamento básico e outros, no minguado orçamento do município.

Em junho deste ano, em Araruama, a empresa Montes Brancos também parou de operar, por falta de condições de competir com o transporte ilegal. Isso significou a dispensa de 160 rodoviários. Atualmente, o transporte na cidade está sendo feito por ônibus de particulares, alguns com mais de 10 anos de uso, que não cobrem todas as linhas. O empresário Francisco Gavinho, diretor da empresa, diz-se revoltado e decepcionado com a inércia do poder público: “quando fui ao prefeito dizer que não tinha condições de continuar operando em Araruama, ele me respondeu que, se a empresa fosse dele, já teria parado de trabalhar há mais tempo”. Gavinho mostra-se surpreso por verificar a diferença de tratamento dispensado, pelas próprias autoridades, às empresas concessionárias, que trabalham dentro da lei, pagam tributos e encargos trabalhistas, e ao transporte clandestino, sob sérias suspeitas de estar nas mãos de marginais. Na sua opinião, enquanto as concessionárias são alvo de todo tipo de fiscalização, pressão e questionamento, lamentavelmente, o poder público não age da mesma forma com aqueles que funcionam sem registrar trabalhadores, sem pagar impostos, sem cumprir as leis ou sequer itinerários pré-estabelecidos. “O ônibus mais velho da Montes Brancos, quando entregamos as linhas, em junho, era do ano de 1999. A tarifa era R$ 1,50. As vans cobram, dependendo do local, o preço que querem chegando, em alguns casos, a R$ 5,00”, reclama. Para ele, o Ministério Público está míope diante desta questão.

Tanto no caso de Cachoeiras de Macacu quanto no de Araruama, os moradores de locais mais distantes ou onde as vias estão em piores condições de tráfego dependem hoje de caronas de amigos, fazem suas viagens a pé (a imprensa tem mostrado pessoas que chegam a caminhar 3 horas para chegar ao trabalho), de bicicleta, ou, quando podem, pagam mais caro pelo transporte ilegal do que pagavam pelo regular.


Kombis, legalizadas ou não, disputam espaço nas vias
e passageiros com os ônibus das concessionárias

Rio Ita também sofre

A Rio Ita, que atua na área de Niterói e São Gonçalo, sofre também as desventuras da concorrência desleal. Para o empresário Marcelo Traça, o futuro das empresas intermunicipais é ameaçador: “se continuar nesse ritmo, vai acabar o transporte regular, “profetiza”. Não precisa conhecer o assunto, basta fazer contas. Os custos fixos básicos, como pessoal, diesel, peças, pneus e carga tributária não estão sendo cobertos. Estamos gerando uma bola de neve.”

Marcelo lamenta que o equilíbrio anterior, quando as linhas deficitárias – onde o transporte ilegal jamais entrou – eram compensadas pelas mais lucrativas, já não exista. “Todas as linhas estão se tornando deficitárias, restando aos ônibus, nas “melhores” linhas, predominantemente o transporte gratuito de idosos, deficientes e estudantes”. O empresário considera uma inconseqüência muito grande deixar a situação chegar a este ponto. Ele já viu se fecharem, só na Rio Ita, cerca de mil postos de trabalho e deixarem de existir benefícios como plano de saúde. “Isto sensibiliza a mim mais do que a qualquer outra pessoa, pois eu conheço cada um, fico sem dormir pensando no que vai acontecer. Mas parece que os governantes não se importam”. Marcelo denuncia que faltam as condições básicas de sobrevivência: “um planejamento de transporte com regras claras e objetivos definidos, em que se assegure a qualidade das vias, o controle de gratuidades e fraudes e a repressão à clandestinidade no transporte, encerra. “Aquele cidadão que mora lá onde não tem interesse de ir, é quem vai pagar por isso tudo”, encerra.


Mariano: patrões e empregados terão de optar entre a união em prol
da sobrevivência ou “irem juntos para a sepultura”

A voz do rodoviário

“Hoje o rodoviário tomou consciência de que, se não for parceiro do empregador na defesa de seu emprego, ficará fora do mercado”. Estas foram as primeiras palavras de José Rodrigues da Costa, o Mariano, em entrevista à repórter. A paralisação da Primavera havia ocorrido na véspera, e ele ainda estava em clima de euforia, por ter considerado o ato um sucesso. Na sua avaliação, a Prefeitura teve de assumir um compromisso. Mas a sensação de vitória era apenas a de uma batalha ganha. Ele reconhece que o combate prossegue e se mostra difícil. “Podemos atingir o caos, o segmento está tendendo a acabar”, lamenta. Para ele, é hora dos trabalhadores do setor darem uma cota de sacrifício, para ajudarem as transportadoras a recuperarem o equilíbrio. Ele diz que é preciso acreditar que a situação irá se reverter, pois são muitos empregos em jogo (só a Primavera tem 250 trabalhadores) e é preciso que empregados e patrões estejam conscientes da crise e unidos para enfrentá-la. “Senão, vamos todos juntos para a sepultura. Porque no fundo do poço já chegamos”, afirma, exemplificando com casos como os das empresas Primavera, Transportes Machado e Trel, que não estão conseguindo pagar seus funcionários em dia.

Mariano diz que é preciso que, neste momento delicado, patrões e empregados ajam como um casal em tempos de crise. Com muita cautela, na tentativa de salvar o relacionamento. E encerra: para tudo na vida temos que achar o equilíbrio.

Na capital: investimentos em meio à crise

Na capital, a crise também existe. As empresas da Zona Oeste se tornam cada vez mais inviáveis, vítimas da concorrência com a clandestinidade no transporte. Recentemente, a empresa Mosa deixou de existir. Os empresários tentam, unidos, sair do círculo vicioso através de esforço conjunto em programas educacionais para rodoviários de todos os níveis e na preparação do sistema para a adoção, em breve, da catraca eletrônica, que deverá controlar fraudes nas gratuidades. Um projeto piloto já funciona na Ilha do Governador. Para o presidente do Rio Ônibus, Lélis Marcos Teixeira, “a crise não pode nos fazer abandonar os esforços pela melhoria da qualidade dos serviços. Com todas as dificuldades, estamos procurando ouvir mais os clientes e acreditamos que a bilhetagem vai, além de permitir um controle das fraudes, fazer que passageiros, gratuitos ou não, tenham o mesmo tratamento, passando pela catraca eletrônica e sentando-se onde quiserem”.


Ônibus pirata: transporte sem normas

   
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