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Luiz Carlos de Urquiza Nóbrega
Superintendente da Fetranspor, Membro do Conselho Diretor da ANTP
(Associação Nacional de Transportes Públicos)
O
Brasil, em ambiente de tanto desemprego, que as autoridades vêm
tentando enfrentar com políticas que assegurem a retomada
urgente do desenvolvimento, sente o alvoroço causado, em
grandes camadas da população, por concurso público
aberto pela Polícia Rodoviária Federal para admissão
de 2.200 patrulheiros, com salários iniciais de R$ 3.375,00.
A imprensa chegou a noticiar expectativas das autoridades de Brasília
de que cerca de um milhão de patrícios e patrícias
se habilitem a tão promissor concurso.
Este fato me despertou profundas lembranças
dos idos de 1958, quando, funcionário do DNER, acabara de
concluir o curso de Ciências Jurídicas e Sociais da
Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica.
Mal recebera o diploma, e a chefia do 8º Distrito Rodoviário
Federal determinou que aquele jovem nordestino assumisse a responsabilidade
do serviço de trânsito, com jurisdição
no Estado de São Paulo e no Triângulo Mineiro. O serviço
era responsável pelo policiamento de trânsito nas rodovias
federais da região, pelo controle do transporte coletivo
com percurso por aquelas rodovias e, ainda, pela sinalização.
Não tendo motivos para recusar,
eis-me atuando na supervisão do núcleo local da Polícia
Rodoviária Federal, cuja sigla era PRF-8. O contingente não
passava de 300 inspetores, muitos deles oriundos do período
de obras, compensando a baixa escolaridade com grande dedicação
à causa da boa ordem no trânsito rodoviário.
À minha mente surgem dezenas de episódios pitorescos,
ocorridos ao longo dos meus quatro anos de chefia. Como o caso de
um comando que realizávamos no Detro, em São José
dos Campos, para verificação de documentos e equipamentos
obrigatórios. Em velocidade incompatível com a neblina
que caía naquela manhã, um automóvel conduzindo
autoridades eclesiásticas abalroa, ainda que levemente, veículo
que aguardava inspeção. O policial que fazia a sinalização
manual corre para o automóvel e verifica que nada de grave
havia acontecido, mas, a seguir, vem em minha direção
e diz:
– Doutor, o comando está
excomungado! O arcebispo disse que vai fazer uma prece para que
tudo dê errado!
Outro caso foi o daquele inspetor,
egresso da Força Expedicionária Brasileira, que se
orgulhava da moto Harley Davidson de seu uso oficial, para o patrulhamento
da Via Dutra. À altura de Jacareí, ainda com pista
simples, nas imediações do famoso km. 347, ao procurar
acompanhar, na moto, automóvel em excesso de velocidade para
detê-lo e a aplicar a multa correspondente, teve de ultrapassar
na faixa proibida. De tão “caxias”, não
teve dúvida: parou no acostamento e lavrou auto de infração
contra si próprio.
Cito finalmente episódio com
servidor em plantão que eu havia instalado naquele Estado,
para, em sintonia com todos os postos da Via Dutra e da São
Paulo-Curitiba, agilizar, junto a hospitais e pronto-socorros, providências
para atendimento a vítimas de acidentes. Tinha eu o hábito
de, ao sair de casa no automóvel oficial, às 7h da
manhã, acionar o rádio e pedir o relato dos acontecimentos
da noite. O plantonista, velho policial, se emocionava ao falar
comigo, cumprimentando-me com amplo e generoso “bom dia”.
A seguir, narra os fatos:
– Na Via Dutra, um caminhão
colidiu com uma Kombi, com três mortos e cinco feridos. Em
Guarulhos, um ciclista atropelado teve morte instantânea.
Na São Paulo-Curitiba, na altura de Registro, um ônibus
capotou, com 15 feridos. Encerrei o serviço sem novidades.
De imediato, provoquei:
– Inspetor, para que haja alguma novidade em
São Paulo, em seu serviço, só caindo uma bomba
atômica!
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