Motorista de ônibus lança livro policial
Rodoviário de Talento

Desde que aprendeu a ler, o motorista Luiz Carlos Portugal da Silva, 44, tornou-se um leitor e colecionador inveterado de gibis. Os preferidos eram os de super-heróis, como Batman, Tarzan e Super-Homem. “Não gostava daquelas de bichinhos”, lembra. Também era admirador e leitor assíduo de livros de bolso, especialmente os de histórias policiais. “Não tinha televisão em casa. Me distraía lendo gibis e tudo que parava na minha mão”, conta. Na escola, destacava-se nas provas de português, gramática e redação. O menino de Cambuci, cidade do interior do Estado do Rio, que chegou em São Gonçalo, onde vive até hoje, aos seis anos, foi aprimorando seu gosto pela leitura. Entre os livros que mais gostou, destaca “As Aventuras de Tibicuera”, de Érico Veríssimo, e “Memórias de um Gigolô”, de Marcos Rey.

Em 1995, a paixão pelas letras levou Luiz Carlos a escrever seu próprio livro, “No Roubo e na Raça”, que durante anos ficou “engavetado”. “Cheguei a procurar editoras para publicá-lo, mas não havia interesse”, conta. Quando já estava pensando em desistir da idéia, o filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, baseado no livro de Paulo Lins, virou sucesso de bilheteria, despertando o interesse das pessoas para este tipo de literatura, que retrata o mundo do crime e a realidade da vida nos morros. “Quando vi “Cidade de Deus”, me animei e resolvi investir um dinheiro que eu vinha juntando há algum tempo. Investi cerca de R$ 3 mil para imprimir 500 exemplares, a quantidade mínima. Fiz contato com a Folha Carioca Editora, que aceitou o projeto”, lembra. Em julho passado, o livro foi lançado e está sendo vendido diretamente pelo autor a R$ 5,00. “Estou muito satisfeito com o retorno. As pessoas que leram gostaram muito. Já foram publicadas matérias no jornal São Gonçalo, no jornal do Setrerj e agora na Revista Ônibus. Também participei da Exposição de Rodoviários de Talento, no entrega do Prêmio Alberto Moreira e tudo isso está sendo bom para a divulgação do meu trabalho”, afirma.

O desenho da capa e o título também foram criados por Luiz Carlos. “O título soou para mim como um samba”, revela. As histórias e personagens de “No Roubo e na Raça” foram baseados em notícias de jornais. “Datilografei o livreto porque não tenho computador”, diz. De acordo com o autor, o livro mostra um pouco do nosso faroeste, onde os personagens retratam distúrbios sociais comuns nos dias atuais. Ladrões, traficantes, malandros, prostitutas, alcoólatras e mães de família aflitas são alguns dos tipos criados por Luiz Carlos. Os cenários são os morros, favelas, cadeias, bares e ruas. E tudo isso escrito com uma boa dose de humor e sensualidade, tendo como pano de fundo a miséria e a violência. Apesar da dura realidade mostrada pelo autor, a mensagem final é a de que o crime não compensa.

Além dos super-heróis dos gibis e das notícias da seção policial de jornais, filmes e livros que falam dos problemas sociais e que retratam a realidade atraíram e influenciaram Luiz Carlos. “Os trabalhos de José Louzeiro sempre me chamaram a atenção. Também me marcaram muito os filmes ”Lúcio Flávio, o passageiro da agonia” e “Assalto ao trem pagador”. Outra fonte de pesquisa utilizada pelo escritor foi sua própria vivência como segurança de posto bancário dentro de uma siderúrgica, quando sofreu um assalto.

Inclusive, ele relata um assalto a uma agência bancária que ficava dentro de uma fábrica. “Só que no livro os assaltantes eram pé-de-chinelo e na vida real eram profissionais”, explica. Em outro trecho de “No Roubo e na Raça”, Luiz Carlos narra um assalto dentro de um ônibus em que o motorista é frustrado em sua tentativa de evitar o roubo. Apesar de, como motorista de ônibus, nunca ter sido assaltado, ele quis chamar a atenção para esse tipo de crime, já tão banalizado. O autor, que concluiu apenas o ginasial, mas através da leitura aprimorou seus conhecimentos, já pensa em escrever novo livro, num estilo mais leve, porém sempre mostrando o cotidiano e a realidade.


“Preto, branco ou morador?”
“No primeiro dia após a sua liberdade, Valdisinho acordou tarde. Lavou o rosto, tomou um gole de café preparado por Dona Júlia antes de sair para o trabalho. Apanhou o bilhete que lhe fora entregue pelo companheiro de cárcere. Saiu com destino à moradia da mãe do mesmo. Não demorou muito e estava na frente de uma monstruosa favela, onde os barracos se amontoavam. Quando pretendeu escalar o íngreme caminho daquela comunidade, um menor de andar gingado cortou a sua frente, indagando:
– Preto, branco ou morador?
– Morador. – respondeu também à queima-roupa.
– De quem se trata? – tornou a perguntar folgadamente o moleque franzino.
– Vim transmitir um recado à mãe de Cosme.
– O Índio?
– Isso mesmo!
– Aconteceu alguma parada?
– Não.
– Beleza, então! Diz o enredo que a gente se encarrega disso pra você. A coroa mora mal às pampas, lá naquele cocuruto!
– Eu também moro mal assim, meu camarada!
– Vamo lá, então. – disse, caminhando ao lado de Valdisinho.”

Trecho de No Roubo e na Raça

   
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