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Governo federal e os transportes urbanos
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Artigo
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Otávio Vieira da Cunha
– Presidente da NTU
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Com a promulgação da Constituição
Federal de 1988, em outubro daquele ano, que estabeleceu a competência
municipal para organizar e prestar os serviços públicos
de interesse local, incluindo o transporte coletivo de passageiros,
o Governo Federal praticamente deixou de formular a política
do setor, fato reforçado pela extinção da Empresa
Brasileira de Transportes Urbanos – EBTU em 1990.
Durante mais de uma década a presença do Executivo federal
nos transportes urbanos se limitou aos trens metropolitanos sob sua
responsabilidade e às ações de fomento conduzidas
pelo BNDES que, na falta de uma política nacional, definiria
os ramos para os tomadores de empréstimos.
Em 1998, com o crescimento acelerado dos problemas urbanos, o Governo
Federal criou a Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano da Presidência
da República – SEDU/PR com a missão de coordenar
as políticas nacionais de desenvolvimento urbano e promover
ações e programas de urbanização, de habitação,
de saneamento básico e de transporte urbano.
Somente no ano 2000 a SEDU/PR, que até então não
tinha atuado no segmento de transportes urbanos, criou o Grupo Executivo
de Transporte Urbano – GTRAN – com o objetivo de cobrir
suas funções legais nessa área.
No período de 2000 a 2002, últimos dois anos do governo
FHC, o GTRAN, apesar de sua pequena estrutura, desenvolveu extensa
atividade, conseguindo mobilizar os principais agentes do setor para
formular uma proposta de Política Nacional para o Transporte
Urbano, na qual o Governo Federal voltava a assumir um papel relevante.
Destacam-se ainda, como atividades do GTRAN nesse período,
a criação do PRÓ-Transporte Coletivo, um programa
de prioridade ao setor; a realização de pesquisa de
opinião nacional com os usuários do serviço;
a criação da Agenda comum para Melhoria da Circulação
Urbana, instrumento orientador de parcerias público-privadas;
e a viabilização de linhas de crédito para o
setor com recursos do FGTS.
O governo Lula, empossado no início de 2003, soube compreender
a importância dos problemas urbanos para o desenvolvimento do
país. Criou o Ministério das Cidades e com ele a Secretaria
Nacional de Transporte e Mobilidade Urbana. Estava aberto o caminho
para o retorno definitivo do Governo Federal aos transportes urbanos.
O ano de 2003 foi muito rico em atividades ligadas ao setor no âmbito
federal. Paralelamente à estruturação do Ministério
das Cidades para o desenvolvimento de suas atividades, os agentes
da sociedade e do setor em particular criaram o MDT – Movimento
Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade para
Todos –, que lançou em manifesto seus eixos de luta e
suas propostas para recuperação do setor.
As respostas não tardaram. Os parlamentares do Congresso Nacional
criaram a Frente Parlamentar do Transporte Público que viria
a ser o braço político do MDT. A mídia nacional
repercutiu maciçamente os problemas setoriais levantados na
pesquisa social Mobilidade e Pobreza, patrocinada por diversas entidades
de transporte. As manifestações estudantis de Salvador
(BA) contra o alto preço das passagens contribuíram
para envolver as autoridades municipais na discussão dos problemas.
Já no final do ano o setor colheu as primeiras vitórias,
ao ser equiparado à saúde e à educação,
que foram excepcionalizados pelo Congresso Nacional na mudança
do COFINS.
O Poder Executivo federal, sensível às diversas sinalizações
da sociedade, resolveu finalmente colocar na pauta política
o transporte público urbano. No final de 2003 foi criado, no
âmbito do Comitê de Articulação Federativa
da Casa Civil da Presidência da República, um grupo de
trabalho com o objetivo de estabelecer, até março de
2004, um conjunto de propostas para recuperação dos
transportes coletivos urbanos envolvendo questões tributárias,
de energia, de otimização tarifária e de controle
e gestão dos serviços.
Participam desse grupo de trabalho, representantes da Casa Civil,
Ministérios das Cidades, da Fazenda e do Trabalho, Fórum
Nacional de Secretários de Transporte Urbano, Frente Parlamentar
do Transporte Público e MDT.
Dentre as propostas em discussão, destacam-se: redução
do preço do óleo diesel, utilização do
gás como combustível, redução dos tributos
incidentes sobre os serviços e seus insumos, fonte de custeio
para as gratuidades, revitalização do vale-transporte,
lei de diretrizes gerais para o setor e outras questões, como
modelo de gestão, financiamento e transporte clandestino.
Depois de longo tempo, o setor vê, com satisfação
e expectativa, uma articulação política entre
governo federal e municípios, na busca de soluções
para os graves problemas que afetam os transportes nas cidades brasileiras.
O mais importante, entretanto, é constatar que, após
15 anos de abandono, o transporte público urbano voltou a fazer
parte das preocupações do governo federal, graças
à mobilização da sociedade.
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