Cidades engessadas
Editorial
José Carlos Reis Lavouras
Presidente do Conselho de Administração da Fetranspor

A mobilidade é um problema que afeta, de forma crescente, grandes cidades em todo o mundo. Populações cada vez mais concentradas em áreas urbanas, expansão desordenada das metrópoles, falta de políticas integradas voltadas para questões como uso do solo, trânsito, transporte e acessibilidade são algumas das causas da queda de qualidade de vida nos grandes centros urbanos. Estudos técnicos vêm se debruçando sobre esses problemas e mostrando que é preciso tomar medidas para evitar que as metrópoles continuem se deteriorando.

A União Internacional dos Transportes Públicos – UITP – respeitável organização que atua em 80 países e é composta por autoridades de transportes públicos, fornecedores de materiais para transporte coletivo, empresários e técnicos, vem realizando debates e produzindo material com o intuito de contribuir para a criação de cidades mais humanas e mais racionais. Em recente publicação da entidade, que contou com o apoio do Metropolitano de Lisboa e da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, texto assinado pelo presidente Jean-Paul Baily e pelo secretário geral Hans Rat, afirma, entre outras coisas, que "o desenvolvimento sustentado das cidades já não é um mero assunto para conferências e debates teóricos, exigindo-se agora medidas concretas que o tornem realidade. Os cidadãos constatam que o seu futuro e o das próximas gerações depende da capacidade de decisão dos políticos responsáveis pelo planejamento urbano e de transportes. Para assegurar a acessibilidade às atividades urbanas a todos os cidadãos – incluindo os que não dispõem de automóvel – e melhorar a qualidade de vida nas cidades, há que condicionar a utilização do automóvel, dando a prioridade aos transportes públicos, peões e ciclistas."

Tendência mundial (mais da metade da população do planeta vive em áreas urbanas), o crescimento populacional nas cidades tem seu preço. Nos países em desenvolvimento, o número e a extensão dos congestionamentos vem aumentando, graças a ele e ao desenvolvimento da indústria automobilística. Nos países desenvolvidos, existe um fenômeno de alastramento das áreas urbanas, diminuindo a concentração populacional, o que induz a uma grande dependência do automóvel.

Fatos como congestionamentos quilométricos, poluição atmosférica acima de limites aceitáveis, mortes no trânsito e alto custo do transporte coletivo são conseqüências diretas dessa tendência.

Segundo a UITP, só na região de Paris, estima-se que são perdidas, todos os anos, cerca de 600 milhões de horas por motivos de engarrafamentos no trânsito. Esse número assustador representa cerca de 6 bilhões de euros de prejuízo! Em Londres, esse custo beira os 3,5 bilhões de euros. Além da queda significativa na qualidade de vida das pessoas que precisam se deslocar, esse panorama ainda leva a prejuízos comerciais por operações lentas e complicadas de carga e descarga de mercadorias, e à diminuição da velocidade média do transporte público, assim como à concentração de poluentes atmosféricos gerados pelo grande número de veículos em marcha lenta ou parados.

Os estudos mostram que o automóvel, embora seja um conforto ao que o homem moderno já está habituado, também tem um preço alto para a sociedade. Toma proporcionalmente mais espaço nas vias do que os coletivos, gera ocupação demasiada do solo em estacionamentos, emite mais poluentes – mesmo um automóvel dentro das normas mais rígidas de emissão, consome 3 vezes mais energia e produz 3 vezes mais CO2 por passageiro do que um coletivo – e observando-se a relação passageiro/km, o transporte público é de 10 a 20 vezes mais seguro do que o automóvel. Nas cidades em que o transporte coletivo é mais utilizado, o número de vítimas de acidentes é bem menor.

As soluções apontadas pela UITP passam, dentre outras coisas, pela maior e melhor utilização do transporte público, com investimentos nesse setor de forma a beneficiar a maior quantidade possível de cidadãos; pela limitação da circulação do automóvel nas zonas centrais das metrópoles; e pela criação de vias exclusivas para ônibus. Esperemos que governantes das cidades de todo o planeta levem em conta esses estudos, para que possamos transformar as nossas tristes cidades engessadas em lugares funcionais e acolhedores.

 

   
Clique aqui para Imprimir !
Voltar a página anterior !