Famílias brasileiras gastam menos com transporte
Pesquisa FGV

 

A Pesquisa de Orçamento Familiar (POC) da Fundação Getúlio Vargas, divulgada no início de janeiro, é reveladora para compor o quadro da perda de mobilidade, tanto de cariocas e fluminenses quanto dos brasileiros, demonstrada em outras pesquisas sobre transporte.
A pesquisa aponta que o grupo de transporte, que inclui as despesas com o carro particular e com o transporte coletivo urbano e interurbano, ainda é o terceiro principal grupo de despesas das famílias cariocas e fluminenses, atrás de habitação e alimentação. Ao contrário do que aconteceu com estes dois grupos, no entanto, as despesas com transporte decresceram, tendo sido aquele cuja participação mais encolheu, em termos percentuais, dentre os sete grupos que compõem a POC.

O quadro do Rio se repete em nível nacional. Como o transporte, também tiveram diminuída sua participação os grupos de despesas com saúde e cuidados pessoais; educação, leitura e recreação; e de despesas diversas. O outro único grupo a mostrar crescimento percentual, ainda que pequeno, foi o de vestuário, quinto colocado em termos percentuais, tanto no âmbito local quanto no nacional.

A diminuição das despesas com transporte pode ser vista como um sintoma típico da queda na renda familiar brasileira. As conseqüências de tal fato não são irrelevantes, já que a perda de mobilidade influi negativamente sobre a busca de empregos, que, por sua vez, resulta em perda de renda por parte da população mais carente, gerando um círculo vicioso.

O grupo de transporte refletiu a queda na aquisição de veículos novos e usados, passando de um índice percentual de 13,9485, na última pesquisa, para 11,7221. Enquanto as despesas com o carro particular – que incluem os gastos com aquisição de veículos novos e usados, troca de peças e acessórios, combustíveis e lubrificantes, serviços de oficina e outros gastos – passaram de 10,0852 para 6,7164 pontos percentuais, o transporte coletivo cresceu no país, passando de 3,8633 para 5,0057.

– A redução no grupo de transporte tem forte componente conjuntural – explica Salomão Quadros, coordenador de análises econômicas da Divisão de Gestão de Dados (DGD) da Fundação Getúlio Vargas. Ele lembra que 1997 foi o auge da produção automobilística, ano em que o país chegou mais perto da marca de 2 milhões de veículos produzidos.

O mais curioso em relação aos números do grupo de transporte, no entanto, é que Rio de Janeiro e São Paulo desmentem o que ocorreu na maior parte do país em termos de transporte coletivo. O crescimento deste item no país é, em princípio, justificado, uma vez que a população passa a deixar mais o carro na garagem e a usar o transporte coletivo. Contudo, no Rio e em São Paulo, também houve queda nas despesas com transporte coletivo, o que pode confirmar o diagnóstico feito por outras pesquisas (IPEA – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – e Itrans – Instituto de Desenvolvimento e Informação em Transportes) sobre a perda de mobilidade do brasileiro.

Salomão Quadros explica que a POC não tem por objetivo investigar as causas dos fenômenos, mas ressalta que o crescimento verificado no grupo de alimentação – o de maior número de itens dentro da pesquisa – é sinal da queda da renda média do brasileiro, aliada à alta de preços dos alimentos nos dois últimos anos, pois, em geral, a proporção das despesas com alimentação tende a decrescer à medida que a sociedade se desenvolve.

– O crescimento do grupo de alimentação é um sintoma claro do empobrecimento da população nos últimos dois anos, que passou a gastar mais com itens ligados à própria subsistência.

   
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