Transporte descalço
Crônica

Tânia Mara Gouveia
Jornalista

Falei recentemente, nesta coluna, sobre interessante descoberta que fizera: o estresse com que sofrem nossos motoristas de ônibus já existia desde o transporte feito no Brasil Colônia, quando os escravos carregavam seus nobres senhores em redes. Os pobres negros, embora não enfrentassem congestionamento nem poluição, eram vítimas do mau humor constante dos passageiros e, impossibilitados de modernismos como psicólogo, seções de massagem, florais de Bach e outras alternativas atuais, utilizavam a cachorroterapia, ou seja: andavam acompanhados de um cachorro, a quem repassavam bordoadas e xingamentos recebidos da parte do transportado.

Essa descoberta se deu quando tive acesso ao importante acervo do empresário e amigo Eurico Divon Galhardi, expert em história do transporte. Dentre muitas outras peças, ele possui réplicas, em escultura, das famosas gravuras em que Debret tão bem retratou as cenas do Brasil Colônia, inclusive a do cortejo formado por escravos transportando o senhor em rede, acompanhados por um moleque carregado com um guarda-chuva e o cachorro. Mas vamos ao que interessa, para não parecer que esta coluna está aderindo ao “Vale a Pena Ver de Novo”.

Acontece que, em nova visita ao acervo, descobri outra curiosidade dos nossos costumes de então (d’antanho soaria meio pernóstico, não é?). Percebi que, mesmo quando carregavam as “cadeirinhas” – meio de transporte muito utilizado por membros do clero, semelhante a um confessionário e conduzido por duas duplas de escravos ricamente vestidos – nossos negros não tinham direito a proteger seus sofridos pés. Imaginemos a sina dos coitados: neste calor tropical com que Deus nos brindou, dividindo entre si o peso do transportado (não esqueçamos que os padres e frades da época eram conhecidos por serem grandes glutões, de formas quase sempre arredondadas). Ressalte-se que este era somado ao peso do veículo que, por sua vez, era sustentado por duas varas laterais, às quais os escravos se prendiam por um ancestral do cinto de segurança, feito de couro e pendurado ao pescoço dos negros.

Como se não bastasse, eram obrigados a vestir aquelas ridículas roupas européias, quentes até não poder mais. Talvez se, além dos trajes, usassem também sapatos, que lhes protegessem os pés das irregularidades do solo, das pedras, galhos e outros acidentes de percurso, até que não fosse de todo mal (esse julgamento só pode vir de alguém que nunca carregou senão filho no colo). Mas nossos nobres senhores de escravos só se preocupavam em cobrir-lhes o corpo. Embora calçassem as próprias mulas com ferraduras, para proteção dos cascos, deixavam os pés dos sacrificados negros desnudos. Vai daí que fiz outra descoberta: tivemos no Brasil Colônia um meio de transporte descalço!

   
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