César Cavalcanti de Oliveira

“... Num serviço público, o que se tem
de perguntar é:
isso é viável para a sociedade como um todo?”
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Vice-presidente do Conselho Diretor da Associação
Nacional dos Transportes Públicos (ANTP), diretor da ANTP/Nordeste,
César Cavalcanti de Oliveira é professor do Programa
de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da
Universidade Federal de Pernambuco – UFPE – e participou
intensamente do processo de combate ao transporte ilegal na Grande
Recife. Nesta edição, ele fala a Ônibus sobre
as medidas adotadas e os resultados alcançados na região.
Revista Ônibus: Sabemos que Recife foi uma das cidades que
mais sofreu com o caos gerado pelo transporte ilegal. Você
poderia nos dizer como está esta situação hoje?
César Cavalcanti de Oliveira: Eu diria que, na quase totalidade,
houve uma reversão. Digo quase, porque existem casos esporádicos.
Mas são muito raros. O risco hoje é grande, para esse
tipo de atividade: apreensão do veículo e multa de
R$ 2 mil.
R.O.: Qual era a situação anterior?
C.C.O.: O transporte clandestino já ocupava um montante de
20% a 25% da demanda. Atravancava as vias principais. O trânsito
estava caótico, os transtornos eram generalizados. O sistema
formal sofria intensamente, pois a grande movimentação
de embarque e desembarque acontecia exatamente nos pontos de ônibus.
Houve elevação no número de acidentes, no desperdício
de combustível – o que gerou maior agressão
ambiental. Essas eram as principais características, até
o primeiro semestre do ano passado.
R.O.: O que mudou essa situação? Que medidas foram
tomadas?
C.C.O.: Embora isso quase pareça um milagre, as medidas foram
simples, a coisa se deu de uma forma bem pé-no-chão.
Primeiro, houve a união entre o governo do Estado e a Prefeitura,
que, embora de partidos antagônicos na cidade de Recife (PMDB
e PT), tiveram essa visão de se unir em prol da população.
Houve intensa divulgação das posições
políticas adotadas e elas foram firmes. A Câmara Legislativa
e a Câmara de Vereadores também uniram esforços
para atualizar e complementar o quadro jurídico existente,
dando as condições para o enfrentamento do transporte
ilegal nos tribunais. Participei desse processo, através
da ANTP. Reforçada a legislação, ela foi posta
em prática, mais uma vez com divulgação ampla
e clara, detalhada: “a partir do dia tal, será proibido
o acesso, a partir de tal ponto...” Durante uma ou duas semanas,
mantiveram-se piquetes e qualquer veículo clandestino que
passasse era parado, esvaziado, e seus passageiros colocados em
ônibus para seguirem viagem até o Centro da cidade.
R.O.: E o pagamento das passagens?
C.C.O: Nessa primeira fase, isso acontecia sem ônus para os
passageiros. Depois, houve divulgação de que a proibição
continuaria, mas, caso o veículo ilegal fosse parado, seus
passageiros teriam que pagar a passagem de ônibus. E assim
foi feito.
R.O.: Quando acontece repressão a esse tipo de transporte,
costumam acontecer reações agressivas, badernas. Como
foi na Grande Recife?
C.C.O.: Houve uma tentativa dos kombeiros de bloqueio do trânsito.
Mas, diferentemente de um ano e meio antes, quando paralisaram a
cidade, não houve problemas maiores. A polícia reagiu
com energia, mas sem violência, e o movimento se esvaziou.
Isto enfraqueceu os kombeiros, foi fator importante na mudança
da atitude deles. O máximo de confronto que aconteceu foi
até cômico: um presidente de sindicato do transporte
clandestino tinha uma fita gravada com mensagens sobre atear fogo
em ônibus. Um major da polícia pediu a fita, ele não
deu, os dois acabaram se atracando e o homem não entregou
a fita.
R.O.: Houve algum tipo de legalização de veículos
desse tipo?
C.C.O.: Sim. Paralelamente a todo esse esforço, a Prefeitura
Municipal criou o Sistema de Transporte Complementar de Passageiros
– STCP – e, a partir dele, elaborou processo licitatório
para habilitar a operação de veículos de pequeno
porte no transporte complementar. Essa proposta foi discutida na
Assembléia Legislativa, na Câmara de Vereadores. Foi
estabelecido o número de 252 veículos. Montou-se uma
Comissão de Licitação. Coincidentemente, sou
presidente dessa Comissão desde junho. A primeira licitação
foi boicotada pelos kombeiros. Houve apenas 212 participantes, dos
quais foram aproveitados 87. Os demais não atendiam às
normas estabelecidas pela legislação (leis 8666/93
e 8987/95). Abriu-se nova licitação, para legalizar
165 veículos. Participaram 555 kombeiros, 333 cumprem as
exigências do envelope da Habilitação. Atualmente,
estamos em fase de recursos. A previsão é de que,
ao final de abril, seja a abertura da proposta técnica. Os
veículos que passarem a operar legalmente obedecerão
a itinerário, horário, tarifa, enfim, estarão
cumprindo a legislação, e apoiando a operação
do sistema de ônibus convencional, em vez de fazerem concorrência
desleal a ele, como acontecia anteriormente.
R.O.: Qual era o número de ilegais antes desse processo?
C.C.O.: Em 2001, entre os que operavam permanentemente e os que
estavam transportando em caráter não permanente (muita
gente, apesar de ter outra ocupação, usava suas horas
livres para fazer transporte clandestino), o número atingia
cerca de 6 mil veículos. Essa verificação foi
feita pelas suas placas.
R.O.: Em muitas cidades, quando há o crescimento do transporte
clandestino, acaba ocorrendo um envolvimento com o crime organizado.
Na Grande Recife isso aconteceu?
C.C.O.: Não. Aqui, o processo se deu de uma forma mais ingênua.
Havia duas lideranças sindicais, uma delas extremamente rebelde,
radical. A outra, apesar de defender seus pontos de vista, era aberta
ao diálogo. Tanto que hoje é licitante. Não
chegamos a atingir esse estágio de envolvimento com a criminalidade.
R.O.: E a reação da população ao fim
desse tipo de transporte? Foi positiva?
C.C.O.: A população, de um modo geral, aprovou. Os
usuários de automóvel, em sua quase totalidade, gostaram.
Apenas alguns usuários do próprio transporte clandestino
ainda reclamam um pouco, pois tinham vantagens que só podem
ser obtidas num transporte ilegal, que não obedece a nenhuma
regra – parar em qualquer ponto, escolher o próprio
itinerário, desrespeitar a legislação trabalhista,
infringir as leis de trânsito, etc. Mas num serviço
público, o que se tem que perguntar é: isso é
viável para a sociedade como um todo? E, neste caso, a resposta
era: NÃO!
R.O.: Então, baseado na experiência da Grande Recife,
que mensagem enviaria para as cidades onde o crescimento do transporte
ilegal cria problemas?
C.C.O.: Minha mensagem é de otimismo. Há esperança.
Mas é necessário, fundamental mesmo, que haja a união
entre o governo do Estado e as prefeituras envolvidas, mesmo quando
o Estado não participa do transporte. Isso por causa do poder
de polícia do Estado, essencial para o sucesso dessa mudança,
uma vez que ela depende de uma dosagem adequada de bom senso, mesclada
com a energia necessária à manutenção
do respeito às leis e à governabilidade e garantida
pelo Estado de Direito. A solução tem de estar baseada
na vontade política, na união dos governantes em prol
da comunidade, e tem de ser negociada, de forma transparente, para
que seja a melhor possível para a sociedade.
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