“Diminuir
os custos para evitar o aumento das tarifas”
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Entrevista
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Olívio Dutra
Com experiência de governador do Rio
Grande do Sul (1998-2002) e prefeito de Porto Alegre (1988-92), Olívio
Dutra assumiu em janeiro de 2003 o Ministério das Cidades,
criado pela reestruturação administrativa do Governo
Lula com o objetivo de centralizar e reestruturar as ações
do governo federal na gestão de transporte e trânsito,
habitação e saneamento nos municípios brasileiros.
Em entrevista (publicada originalmente no jornal NTUrbano da NTU –
Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano),
Olívio Dutra fala dos projetos para 2004, das propostas para
o barateamento das tarifas e do combate à exclusão social
no transporte urbano, entre outros assuntos.
Quais são os projetos do Ministério das Cidades
para o transporte urbano em 2004?
Olívio Dutra: O Ministério vem estudando os metrôs,
os sistemas metro-ferroviários, principalmente, em quatro grandes
regiões metropolitanas – Belo Horizonte, Fortaleza, Recife
e Salvador. Está em estudo um novo sistema de descentralização
e co-responsabilidade entre os três níveis de governo,
que abrangeria sistemas de transporte integrados, pois o metrô
não funciona se não estiver integrado. Um dos eixos
fundamentais do Ministério das Cidades é a integração
de diferentes modais e maior abrangência das redes.
Quais são os principais desafios para o futuro das
cidades?
O.D.: Dentre os desafios
do Ministério, o primeiro é realizar a correta ocupação
do espaço urbano. Sabemos que o poder público deve investir
muito mais na criação, planejamento e gestão
para que ele possa exigir do poder privado uma conduta de quem não
vê o espaço urbano somente como um lugar de disputa pelo
passageiro. Precisamos organizar o transporte coletivo, acabando com
o transporte clandestino, que não resolve o problema de ninguém
e ainda deteriora as relações entre esse serviço
público e as pessoas que merecem ser atendidas com qualidade,
segurança e custo adequado.
Além do transporte ilegal, outro fator que aumenta
o custo do serviço de transporte é a gratuidade...
O.D.: É uma ilusão que aumentando a gratuidade nós
vamos atender à demanda de inclusão no transporte, pois
aumenta o custo da prestação desse serviço e
a gratuidade indiscriminada é pior ainda, porque contamina
o processo que regulamenta o serviço. A redução
da gratuidade deve ser incluída no debate sobre a diminuição
dos custos do transporte coletivo urbano, com a apresentação
de critérios muito explícitos, sendo observadas e resguardadas
as gratuidades asseguradas pela Constituição.
Haverá priorização do transporte coletivo
em detrimento do transporte individual?
O.D.: Nos últimos anos deixou-se de investir no transporte
coletivo urbano e se deu facilidade à indústria automobilística
para a produção de veículos individuais. Agora,
é preciso que o Estado invista mais em transporte coletivo
urbano. Investindo não só de maneira física,
mas no planejamento, na articulação, na operação
qualificada, no gerenciamento, nos equipamentos de segurança
e sinalização. Os recursos públicos serão
para qualificar o transporte coletivo urbano. Esperamos que as empresas
privadas também venham a investir. Temos que pensar a cidade
do futuro não como um lugar onde o ser humano é prisioneiro
do veículo, temos que produzir mais veículos para o
transporte de massa com qualidade e conforto, mas isso tem que ser
feito sem que a tarifa tenha um preço que exclua.
A Casa Civil organizou um grupo de trabalho para discutir
propostas para o transporte público no País. Na avaliação
do ministro, as propostas de barateamento das tarifas poderão
ser imple-mentadas em 2004?
O.D.: Essa é a nossa meta. As medidas estão sendo construídas
com base em estudos sérios e detalhados sobre a influência
desses insumos no custo do serviço, principalmente, na questão
da energia eletrificada e do óleo diesel. No que depender do
governo federal, ações para baratear os custos serão
analisadas. Do outro lado dessa empreitada estão as empresas
públicas e privadas que precisam se modernizar na gestão
do serviço, na administração ou na compra de
equipamentos.
Do desdobramento da Conferência e do Conselho Nacional
das Cidades devem surgir diretrizes para o combate à exclusão
do transporte público?
O.D.: Sem dúvida alguma. Isso foi levantado nas propostas discutidas
e nas diretrizes aprovadas. Aumentar a mobilidade significa combater
o problema dos engarrafamentos, dos gargalos no transporte, sejam
eles causados por falta de investimento, tanto público quanto
privado, na infra-estrutura, por envelhecimento da frota, ou falta
de mais tecnologia para produzir equipamentos adequados que garantam
a mobilidade e a acessibilidade às pessoas. É preciso
que o transporte seja mais abrangente, inclusivo, e a tarifa não
deve ser reajustada acima das possibilidades dos seus milhares de
usuários.
E o retorno do governo federal ao financiamento do transporte
público com o Programa Pró-Transporte?
O.D.: É uma retomada importante. O governo federal, ao criar
o Ministério das Cidades, quer ser protagonista, junto com
os empreendedores, os empresários, os governos locais, movimentos
sociais e universidades, de uma ação articulada para
a qualificação do transporte urbano. O Pró-Transporte
estabelece o fim da omissão ou do distanciamento do governo
federal diante do transporte urbano.
Além do Programa Pró-Transporte para obras de
infra-estrutura com recursos do FGTS, existe a perspectiva de o governo
federal lançar novos financiamentos para o setor?
O.D.: No ano de 2003, o ministério obteve recursos de R$ 250
milhões, com o Conselho Curador do FGTS; para o ano de 2004,
o valor será de R$ 600 milhões. A renovação
da frota e a bilhetagem eletrônica, que não se beneficiaram
do Pró-Transporte, agora serão contempladas com R$500
milhões que o BNDES previu para financiamento do transporte
coletivo.
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