O Transporte no Brasil
Série História do Transporte



Tudo começou quando, em 1503, D. Manuel, rei de Portugal, tornou todo o Brasil uma concessão, sob a responsabilidade de Fernando de Noronha, que teria três anos para exploração das riquezas naturais da terra. Àquela época, o grande interesse da Coroa era o pau-brasil, utilizado para se obter tinta vermelha, que iria permitir às donzelas e senhoras de Portugal o uso de modelitos encarnados, púrpuras, carmins e em outros tons da cor, muito valorizada pela moda.

Comércio X Transporte

A cada quintal (medida utilizada na época, equivalente a 58,328 kg.) de pau-brasil retirado da concessão, a Coroa Portuguesa tinha direito a um percentual. Como o pau-brasil era um produto altamente procurado no mercado europeu, começa naquela época o problema de transporte no Brasil. A força muscular dos índios foi o primeiro modo de transporte de carga utilizado aqui, mais especificamente no litoral. Em pouco tempo, esgota-se o pau-brasil litorâneo e passa a existir a necessidade da extração no interior. Surgem as tropas, em que mulas e cavalos eram responsáveis pelo transporte de cargas como alimentos, ouro, cana-de-açúcar, algodão, ao longo dos séculos XVI, XVII até o XVIII. Surgiram também os românticos carros-de-boi, ainda hoje utilizados em alguns pontos do país para puxar arados e transportar pessoas.

Chegamos ao século XIX, no entanto, com um transporte ainda insípido. Calèches (carruagens surgidas no século XVII), xeretas (tipo de diligência baseado nos modelos europeus) e traquitanas (tipo de sège criada por volta de 1870).

Franceses, Ingleses e a Coroa Portuguesa

As guerras napoleônicas vieram dar uma sacudida na situação. Com os ataques franceses à Península Ibérica, o governo inglês, que mantinha ativas relações comerciais com a Coroa Portuguesa, manifesta veementemente a necessidade de uma mudança da família real para o Brasil, pretensão que foi atendida.

D. João VI chega com sua comitiva em 1808 e logo começa a imprimir novos rumos à Colônia. O Brasil é elevado à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarve. Nesta época, aparecem por estas plagas os tílburis, cabriolés e balancês, todos veículos puxados a tração animal.

O Beija-mão e o transporte

Quando D. João começa a ocupar o espaço da Quinta da Boa Vista, sente a necessidade de realizar a cerimônia do beija-mão. Promulga, em 18/8/1817, o decreto-régio que concede, a Sebastião Fábregas de Suriguê, sargento-mor da Guarda Real e barbeiro de D. João VI, a concessão da exploração de duas linhas de transporte de pessoas. É o primeiro transporte no estilo ônibus, com itinerário, tarifa, horário, origem e destino predeterminados. Essas duas linhas eram: Praça 15 (Paço) – Quinta da Boa Vista e Praça 15 – Fazenda de Santa Cruz.

A Fazenda de Santa Cruz era um dos locais onde D. João VI passava seu tempo. O percurso da linha, num total de 50 quilômetros, era feito em 5 horas de viagem. Podemos dizer que começa naquela data o transporte público urbano oficial na América. Esta foi a segunda concessão na história do transporte em todo o mundo. A primeira foi dada por Luiz XIV de França a Pascal, Kouanel e Santour e já abordada nesta série.

Em 1821, quando D. João VI voltou a Portugal, o transporte em nossas cidades era feito principalmente em cadeirinhas, liteiras, redes e serpentinas (transporte que tinha este nome porque as hastes que repousavam nos ombros dos escravos que a conduziam eram adornadas com uma cabeça de serpente). As serpentinas eram muito utilizadas pelas sinhazinhas em seus deslocamentos para a igreja. Eram abertas, com cortinas de veludo protegendo o(a) passageiro(a) da poeira, do sol e dos olhares curiosos. As cadeirinhas pareciam confessionários e eram usadas por nobres e clérigos. O transporte de carga era feito por negros, por meio das “cangas”.



Serpentina: a sinhazinha era levada para a missa pelos escravos.
A mucama, a pé, carregava o missal



Cadeirinha: escravos que carregavam vestiam-se à moda européia



Escravos adultos levando o senhor de engenho na rede,
enquanto o moleque conduzia o guarda-sol


   
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