Uma visão da crise
Artigo
Aloísio Ribeiro – Empresário


Convidado a dar entrevista sobre os prejuízos causados pelos transportes alternativos, que tomaram conta da cidade, minha reação foi de pânico. Seria a primeira vez que enfrentaria a mídia. Passado o susto, consultei amigos e especialistas, pois não queria tratar de problemas específicos da empresa da qual sou sócio, mas de todo o sistema. Acabei por me dar conta da gravidade do que ocorre hoje no Rio de Janeiro. Por estarem à frente da cadeia produtiva, as empresas dão visibilidade à crise do setor. O transporte ilegal, contudo, traz perdas para empresas, trabalhadores, governo e população.

Toda pessoa jurídica que passa por problemas financeiros, primeiro deixa de distribuir dividendos aos acionistas. Depois, corta investimentos. Se não for o bastante, inicia o financiamento da produção através de impostos – escriturados e não pagos. Por fim, vêm os atrasos nos pagamentos de fornecedores e funcionários. As notícias de que algumas empresas de transporte estão atrasando os salários são um sinal de que as etapas anteriores já foram queimadas.

O usuário perde porque haverá queda no nível de serviço e acréscimo na tarifa. É um círculo vicioso que, a longo prazo, inviabilizará o transporte público regular. O poder público também é afetado. Perde a capacidade de planejar, uma vez que não tem a informação completa sobre as necessidades de deslocamento da população. Também não consegue mais controlar, não determina itinerários, freqüência, e, muito menos, a tarifa. Sem as funções de administrar o bem público, o Estado vê minguar sua arrecadação.

As perdas para os trabalhadores são maiores ainda: vão do emprego até os benefícios sociais que as empresas concediam. O rodoviário não é uma mão-de-obra qualificada para o mercado de trabalho. Quando perde o emprego, na melhor das hipóteses, consegue uma ocupação informal. Não é necessário descrever as perdas dos fornecedores, pois o processo desencadeado é o mesmo de outras cadeias produtivas.

A crise dos transportes públicos, portanto, não deve ser vista apenas como uma questão que diz respeito às empresas de ônibus. O que temos hoje é realmente um grave problema para toda a sociedade. É necessário que o Estado faça uso de seu poder decisório, para preservar um setor essencial ao desenvolvimento econômico e estratégico para a inclusão social.

   
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