O transporte, a democracia, os nomes curiosos e as boas lembranças
Crônica

Tânia Mara

O transporte coletivo tem muita coisa interessante, a começar pelo seu caráter democrático. Num ônibus, vagão de trem ou metrô, misturam-se pessoas de todas as raças, dos credos mais variados, de diferentes status sociais, personalidades, tipos físicos, etc. Sem falar na diversidade de problemas, sonhos, aspirações e segredos que esses veículos levam, junto e dentro de cada passageiro. Isso lembra até uma frase de antiga propaganda (seria melhor reclame, como se chamava "propaganda" naqueles velhos tempos): "Veja ilustre passageiro/ o belo tipo faceiro/ que hoje tem a seu lado..." Era veiculada nos bondes e levava cada viajante a pensar que o colega do lado quase tinha morrido de bronquite e havia sido salvo por um medicamento com nome de bebida alcoólica. Coisas de antigamente.

Aliás, essa democracia toda nem foi bem vista, nos primórdios do bonde no Brasil. Muita gente que se considerava chique, achava que não seria de bom tom andar num transporte que misturava assim as classes sociais. Preconceito bobo, mas isso também é coisa que viaja escondida dentro das pessoas, de todas as classes, todos os credos etc. e tal.

Deixando de filosofia e voltando ao assunto: o transporte coletivo tem inúmeros aspectos gostosos de serem analisados. Hoje, por exemplo, andei pesquisando nomes que se relacionam a essa atividade. E tem uma porção deles que aposto como a maioria de vocês desconhece, ou imagina que é coisa diferente. Querem ver? Bangüê não é só nome de pomada para machucado... é também uma espécie de liteira, que era carregada por dois burros, um na frente e outro atrás, presos ao veículo por varas compridas. Berlinda não é só brincadeira de criança. Também é nome de carruagem, e faz alusão ao primeiro modelo, criado em Berlim. E tem mais: estufa, faeton, jardineira, palanquim, paquebote, traquitana, vitória, maxambomba, celerífero, auto-ônibus, auto-bonde... Imagine só alguém pensar em se locomover numa traquitana, ou pegar a maxambomba das 10 horas. Mas todas essas palavras já fizeram parte da vida de populações inteiras, como hoje usamos carro, ônibus, trem, metrô ou bicicleta.

Outra curiosidade é que, por ser tão corriqueiro na vida das pessoas, o transporte aparece em inúmeras manifestações artísticas: letras de música ("Patrão, o trem atrasou, por isso estou chegando agora"), poemas ("Suave bonde burocrático, / atrasado bonde sob a chuva..." – Carlos Drummond de Andrade), telas, peças de artesanato popular, enfim, embora a gente nem preste atenção quando sobe ou desce de um meio de transporte, na pressa nossa de cada dia, esse sistema faz parte de nós profundamente. Está em nossas veias, em nossos subconscientes.

Não é para menos: já começamos a ser transportados nos úteros mornos e aconchegantes de nossas mães, passamos aos carrinhos de bebê, ao velocípede, à bicicleta, e todos deixam em nós lembranças (mesmo as inconscientes) marcantes, inesquecíveis. O primeiro ônibus em que se viajou sozinho, o primeiro vôo de avião, quem não lembra? Pois é. Dá até uma certa nostalgia. É melhor colocar um ponto final nesta história. Com direito a trocadilho.

   
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