O preço do diesel e a exclusão social
Editorial
José Carlos Reis Lavouras
Presidente do Conselho de Administração da Fetranspor

O anúncio, pela Petrobras, do aumento de 10,6% no preço do óleo diesel apanhou de surpresa as empresas de transporte de todo o país. Confiantes em propostas defendidas pelo MDT (Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade para Todos) e pela Frente Parlamentar do Transporte, os empresários de transporte por ônibus, liderados pela NTU, vêm lutando pelo barateamento das passagens. Sendo o combustível o responsável por quase um quarto do valor da tarifa, a medida governamental joga um balde de água fria nas expectativas do setor.

Pesquisa recente do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada –, ratificada por outra, realizada pelo Itrans – Instituto de Desenvolvimento e de Informação em Transportes – mostra que há no país fenômeno de redução de passageiros nos modais de transporte público, enquanto aumentam os números de viagens a pé, de bicicleta e – mais grave ainda – de trabalhadores que usam as ruas como dormitório, por não conseguirem pagar o transporte de ida e volta para casa nos dias úteis. O barateamento da tarifa é, pois, mais do que necessário, imprescindível e urgente.

Técnicos, empresários e os membros da Frente Parlamentar do Transporte têm unido esforços na tentativa de evitar que se somem, a um grande número de excluídos, como os "sem teto" e os "sem terra", também os "sem transporte". Eles acreditam que várias medidas podem ser adotadas, com sucesso, em prol da redemocratização do transporte, pelo barateamento das passagens. O combate às vans, kombis e outros veículos que operam clandestinamente é uma delas. A redução ou eliminação de impostos que incidem sobre a atividade legal e a assunção, pelo poder público, de gratuidades concedidas a estudantes e idosos em regiões metropolitanas de todo o país são outras alternativas. A utilização de parte dos recursos da Cide na infra-estrutura do transporte também seria bem-vinda. O preço do óleo diesel, porém, é fator primordial para que se possa oferecer à população carente um transporte de acordo com seus parcos recursos.

Mais do que nunca, é preciso que o transporte seja visto não apenas como uma atividade econômica, mas como um serviço público essencial para a qualidade de vida dos cidadãos e das cidades. Seu bom funcionamento depende não só de decisões empresariais, mas de políticas públicas voltadas para a utilização do espaço, a humanização do trânsito, a prevenção de acidentes, a qualidade das vias, a priorização do coletivo em detrimento do individual e muitas outras questões. A própria população precisa estar conscientizada da importância social do transporte público. Sem acesso a ele, as camadas mais baixas da população ficarão engessadas, imobilizadas em seus redutos, cada vez mais distantes das oportunidades de acesso a estudo, saúde e trabalho.

   
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