O planejamento de transporte e sua importância na vida das metrópoles
Entrevista
Cristina Baddini


Engenheira Civil, com mestrado em Trânsito na COPPE, UFRJ, Cristina Baddini tem vasta experiência, exercida em várias secretarias de transporte do País (Campinas, Porto Alegre, Santo André, Fortaleza). Ex-secretária de Transporte de Franco da Rocha, é membro da Associação de Transporte e Meio Ambiente, diretora de Planejamento do Fórum Nacional de Secretários de Transporte, assessora técnica da Diretoria de Gestão da SPTrans (SP) e diretora adjunta da ANTP. Nesta edição, Cristina falou a Ônibus sobre o planejamento do transporte, enfocando questões como a qualidade de vida nas metrópoles e o impacto social do transporte.

Revista Ônibus: Na sua opinião, quais as principais tendências do transporte público nas grandes cidades brasileiras?
Cristina Baddini: Acredito que estamos num momento decisivo, em que podemos tomar dois caminhos: o do avanço, com o aumento dos investimentos e do uso do transporte público, seguindo o modelo das cidades européias, ou o do retrocesso, por conta da questão social e da dificuldade da população de arcar com o custo do transporte. Este é um ano de eleição. Se a população escolher candidatos comprometidos com a mobilidade, poderemos contar com uma melhoria da qualidade de vida. Há um comportamento do governo federal propício ao avanço, com a criação do Ministério das Cidades e da Secretaria da Mobilidade. É importante que as pessoas cobrem dos candidatos posicionamentos quanto a essa questão, pois é preciso investir numa rede segura de transporte público, que incentive os cidadãos a deixarem seus carros em casa. Não adianta apenas investir em vias. Na gestão Erundina, em São Paulo, os congestionamentos atingiam 40 km. Paulo Maluf e Celso Pitta investiram muito na abertura de vias – cerca de R$ 2 bilhões. E, no final do governo Pitta, os congestionamentos já chegavam a 120 km. Então, esse tipo de investimento só, não basta. Precisamos de um sistema de transporte público bom e barato.

R.O.: Como o planejamento de transporte pode influenciar na qualidade de vida das cidades?
C.B.: É uma questão fundamental, que costumava ser vista como um segundo momento do planejamento urbano. Só se pensava no transporte depois da moradia. Criavam-se condomínios, vias, iluminação, o transporte vinha depois de todo um processo instalado. Este modelo não dá certo. Atrasa o desenvolvimento e o transporte acaba ficando caro. Muitas empresas não aceitam trabalhadores pela distância entre sua residência e o trabalho, isso mostra o quanto é importante para o cidadão que haja uma lógica, um planejamento feito de forma integrada. As necessidades de viagens têm de ser analisadas, os horários de trabalho, de estudo, tudo isso tem de influenciar. Hoje, o gestor já se preocupa mais com o fato de que a escola tem de ficar próxima à casa, assim como os demais serviços. O médico de família já é cogitado, em vez do deslocamento para postos de saúde às vezes distantes. Isso é qualidade de vida para a população. O transporte está muito ligado às oportunidades e ao conforto da população.

R.O.: A mobilidade em nossas cidades está diminuindo. A que fatores atribui esse fato?
C.B.: Um dos fatores é o custo do sistema. Numa pesquisa realizada pelo Ipea, verificou-se que 33 milhões de pessoas deixaram de utilizar o transporte público. Algumas caminham horas da casa para o trabalho e vice-versa. Outras se tornam moradoras de rua por falta de dinheiro para voltar para casa nos dias úteis. Os deslocamentos feitos em motos aumentaram, porque este é um transporte barato. Mas não é seguro, aumenta o índice de acidentes. Precisamos melhorar o sistema de transporte público e barateá-lo. O uso do automóvel não ajuda em nada essa falta de mobilidade, pois as pessoas estão ficando cada vez mais tempo paradas dentro de seus automóveis. Já há estudos que demonstram que a qualidade do ar dentro dos automóveis é ruim, prejudica a saúde respiratória.

R.O.: Nossas grandes cidades são constantemente criticadas pela incidência de congestionamentos quilométricos, trânsito violento e sistema de transporte deficiente. Na sua opinião, esse é um mal inerente às metrópoles e não tem conserto, ou pode ter remédio?
C.B.: Eu sou otimista. Dá para mudar. Se tivermos ônibus que cheguem mais rápido e sejam confortáveis, fazendo parte de um sistema integrado que funcione de forma satisfatória, a um custo acessível, podemos fazer com que o cidadão de classe média deixe seu carro em casa e utilize o sistema.

R.O.: O que o cidadão comum pode fazer para ter uma cidade mais humana?
C.B.: A gente tem que ter na cabeça uma concepção do que é bom, não só para a gente, naquele momento, mas para todos. Ir para o trabalho de automóvel pode ser um vício. A pessoa utiliza sem pensar que está deixando de caminhar, por exemplo, e depois vai para a academia para evitar ficar obesa pela falta de exercício. É preciso que o cidadão comum se conscientize dessas coisas. Uma ação como a campanha “Um dia sem meu carro”, que contou com a participação de inúmeras cidades, mostra um esforço coletivo mundial e prova que as pessoas podem dar sua contribuição para que a vida melhore no planeta. Hoje já nos conscientizamos de muitas coisas: deixamos de fumar em locais fechados, evitamos jogar lixo na rua, temos uma percepção maior dos problemas ambientais. Precisamos entender que o uso exagerado do automóvel faz mal ao próprio mundo. Vamos pensar nisso, vamos usar mais o transporte público, a bicicleta, vamos caminhar. Precisamos ter em mente que, ao utilizarmos uma frota de forma pouco racional, estamos desperdiçando petróleo, contribuindo para o aquecimento do planeta, para a poluição do ar. O gasto de combustível com o automóvel é 20 a 30 vezes maior do que quando se usa a cadeia do transporte público.

R.O.: Como vê o nascimento de movimentos como o Pró-Transporte, o MDT e a Frente Parlamentar do Transporte?
C.B.: Como uma coisa muito importante. Principalmente se lembrarmos que, nas eleições para o governo federal, temas como transporte e trânsito não eram abordados pelos políticos. Os governantes, ao serem eleitos, trabalham com as prioridades apontadas pela população. É muito bom que, num ano de eleição, a gente esteja vendo movimentos populares, de parlamentares e de vários segmentos da sociedade preocupados com a influência do transporte na qualidade de vida das cidades. Essa conscientização atinge os três níveis de governo e é muito positiva. Eu acredito que os próximos governos municipais terão maior engajamento de seus secretariados com questões como mobilidade, acessibilidade e a melhoria do transporte público. Enfim, acho que as perspectivas são boas.


   
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