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Tânia Mara
Minha mãe sempre me disse que aprendi a falar muito cedo. Desde então, tenho verdadeiro fascínio pelas palavras. Aos 4 anos, já sabia ler e ficava exercitando meu poder de redação em cartinhas e bilhetes domésticos. Lembro-me que tinha o hábito de repetir algumas palavras, baixinho, saboreando o som, o ritmo e a sensação que elas me provocavam. Minha preferida era o nome da gata de uma vizinha: “Catuncha”! Até hoje, acho uma delícia pronunciar esse som. Passa realmente a sensação (pelo menos pra mim, que sou meio maluquinha, como vocês já devem ter percebido) de algo macio, quentinho e gostoso de tocar.
Mas não pensem que esse namoro é correspondido. As palavras são, muitas vezes, ariscas. Temos que buscá-las, agradá-las, estudá-las a fim de conseguir delas a precisão tão buscada. Algumas são muito duras, cruéis até. Outras são doces, meigas, atendem prontas ao nosso chamado. Umas são engraçadas, leves, outras pesadas (não é à toa que se criou o termo “palavrão”). Existem as simples, as compostas, as feias e as bonitas. Tem coisa mais feia do que “nosocômio”, “amplexo”, “ósculo”, “genuflexo”? Já “amor”, “lindeza”, “beijoca”, são palavras bonitas e gostosas de dizer...
O jornalista e sociólogo Carlos Alberto Rabaça, certa vez, assistindo a um discurso, sentado à mesma mesa que eu, ao ouvir o mestre-de-cerimônias dizer que alguém iria “fazer uso da palavra”, exclamou, mau humorado:
– Que coisa horrível, essa expressão! Parece que a palavra é uma prostituta!
Colocação perfeita. E nunca mais ouvi esse jargão sem me lembrar do protesto imediato de quem está habituado aos melindres e sutilezas das palavras, companheiras de todas as horas, todos os textos, todas as pautas.
Saint-Exupéry as considerava “fontes de mal-entendidos”, e também não estava errado. Quando não sabemos lidar com elas, vingam-se e produzem equívocos, desentendimentos, confusões. Isso sem falar nas diferenças que assumem, na nossa própria língua, de acordo com as características regionais. Comida quente, no Rio, é simplesmente comida que foi aquecida. Já em Salvador, se você pede um acarajé quente, vai provavelmente soltar fogo pelas ventas, pois ele vai vir carregadíssimo na pimenta! Já, se você costuma dizer, do alimento com pouco sal, que está “insosso”, o baiano vai retrucar que está “frio de sal”. O simples pãozinho é pão francês, pão de sal, pão cacete, à medida que você se desloca pelo país. A tangerina pode se chamar laranja-cravo ou bergamota, o aipim vira macaxeira ou mandioca. Isso sem falar que “castelo”, na Bahia, é casa de “mulher-dama”... que não é um termo que você deva usar com uma senhora respeitável.
E o ritmo que têm algumas frases? O refrão do sambinha de Lamartine Babo, mesmo sem a música, já tem ginga: experimente repetir “Qual é o pente que te penteia?”, só falando, e veja se não é uma frase musical? Se pronunciarmos o os “tês” de “pente” e do pronome “te” como cariocas, chiando um pouco, então, quase que ouvimos um maracá nessas sílabas.
Há muito mais a ser dito sobre as palavras, mas talvez vocês achem que se trata de um caso de internação em manicômio (outra palavra feiosa), e vou ficar por aqui, com uma última consideração: elas são do gênero feminino, por isso talvez sejam tão caprichosas, complicadas... e – modéstia à parte – adoráveis! |